{"id":10837,"date":"2007-12-10T00:00:00","date_gmt":"2007-12-10T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2018-03-29T20:07:55","modified_gmt":"2018-03-29T20:07:55","slug":"no-dor-e-pranto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/no-dor-e-pranto\/","title":{"rendered":"N\u00f3, dor e pranto*"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>por Paloma Minke<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u201cO risco \u00e9 um marco divis\u00f3rio.<br \/>\nPara contar a nossa hist\u00f3ria,<br \/>\ntemos que enfrent\u00e1-lo e venc\u00ea-lo.<br \/>\nNada de super-homem ou mulher-maravilha.<br \/>\nBons jornalistas, apenas, com um pouco<br \/>\nde aud\u00e1cia e bastante determina\u00e7\u00e3o\u201d<\/p>\n<p>Percival de Souza n\u00e3o se sentiu um super jornalista ao subir o morro da Vila Cruzeiro, na periferia do Rio de Janeiro, num dia qualquer de 2002. Naquele momento, n\u00e3o lhe importavam os quatro pr\u00eamios Esso que havia conquistado pela brilhante carreira em reportagens investigativas. N\u00e3o vinha ao caso toda a sua trajet\u00f3ria no Jornal da Tarde, o qual ajudou a fundar e defendeu mesmo nos dif\u00edceis tempos da censura nos anos 1970. Nem mesmo a lembran\u00e7a que tanto o orgulha, do in\u00edcio de carreira, quando ainda jovem recebeu do ent\u00e3o diretor de reda\u00e7\u00e3o do JT, Mino Carta, a miss\u00e3o de criar um novo formato de cobertura criminal que revolucionaria a imprensa, amenizaria a dor daquele momento.<\/p>\n<p>Encolhido na ca\u00e7amba de uma caminhonete, Percival sentiu-se profundamente humilhado. Mas n\u00e3o tinha escolha, sabia que se fosse descoberto, seria executado tamb\u00e9m. Era o sacrif\u00edcio a ser feito pelo grande amigo Arcanjo Tim.<\/p>\n<p>\u201cSubir ao perigoso local onde Tim foi morto pode parecer um del\u00edrio de minha parte. Mas ao me disfar\u00e7ar dentro de um ve\u00edculo de entrega de mercadorias em mercearias, eu me sentia seguro\u201d. Nem mesmo \u00e0 mulher comunicou a sua arriscada miss\u00e3o. \u201cCoisa minha \u2013 eu e Deus\u201d, diz o jornalista. \u201cMas nada fiz loucamente, e sim conscientemente. Conhecendo meus limites\u201d.<\/p>\n<p>Mais que colega de profiss\u00e3o \u2013 ambos dedicavam-se ao jornalismo investigativo \u2013 Percival tornou-se amigo pessoal de Arcanjo Antonino Lopes do Nascimento, o Tim Lopes. O breve intervalo de tempo entre o brutal assassinato do jornalista e o processo de produ\u00e7\u00e3o do livro, ambos no mesmo ano, certamente contribuiu para as emo\u00e7\u00f5es \u00e0 flor da pele depositadas em cada uma das p\u00e1ginas do \u201cNarcoditadura\u201d, desabafo do jornalista em resposta ao crime. O companheiro Tim havia sido executado durante a produ\u00e7\u00e3o de reportagem que denunciava a explora\u00e7\u00e3o sexual de menores em bailes funk no morro.<\/p>\n<p>Foram seis meses de intensa dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria, apura\u00e7\u00e3o dos fatos e reconstitui\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rios, dentre os quais, a penosa e indispens\u00e1vel visita \u00e0 cena do crime. \u201cAl\u00e9m do n\u00f3 na garganta, dor e ang\u00fastia, alma sangrando, emo\u00e7\u00e3o ao tomar conhecimento dos fatos, chorar em v\u00e1rios locais, principalmente o da execu\u00e7\u00e3o brutal, e tamb\u00e9m n\u00e3o conter as l\u00e1grimas na hora de enfrentar o teclado\u201d, relembra Percival.<\/p>\n<p>A insatisfa\u00e7\u00e3o com a cobertura da m\u00eddia sobre o fato, que intimidou outros colegas de profiss\u00e3o a faz\u00ea-la de forma mais aprofundada, deu-lhe for\u00e7as para conciliar emo\u00e7\u00f5es e o conhecimento acumulado nas muitas coberturas jornal\u00edsticas, e tra\u00e7ar o perfil do jornalismo investigativo e bastidores do crime organizado em sua obra. \u201cEuclides da Cunha chamou o seu cl\u00e1ssico \u201cOs Sert\u00f5es\u201d de livro-vingador, para descrever o massacre promovido em Canudos por uma quarta expedi\u00e7\u00e3o militar, que dizimaria Antonio Conselheiro e centenas de seguidores. Ele se indignou com a degola em massa promovida por militares enfurecidos. Eu me indignei com o esquartejamento e a carboniza\u00e7\u00e3o de Tim\u201d, justifica.<\/p>\n<p>S\u00e3o v\u00e1rias as experi\u00eancias que vem \u00e0 tona quando Percival \u00e9 questionado sobre o momento mais marcante de sua carreira no jornalismo. Mais de 40 anos dedicados \u00e0 profiss\u00e3o lhe proporcionaram momentos memor\u00e1veis, como a cobertura para o Jornal da Tarde na Casa de Deten\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo. Nos anos 70, o jornalista acompanhou a vida e a rotina dos detentos para registrar a hist\u00f3ria daqueles que l\u00e1 estavam &#8211; na \u00e9poca num total de 6 mil prisioneiros, at\u00e9 ent\u00e3o, o maior pres\u00eddio do mundo. A s\u00e9rie de reportagens para o peri\u00f3dico logo se transformaria no livro \u201cA Pris\u00e3o\u201d. Nos anos 90, o m\u00e9dico sanitarista Dr\u00e1uzio Varella adotou estrat\u00e9gia semelhante para escrever o seu \u201cCarandiru\u201d.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o de Percival com o jornalismo vem desde a mais tenra idade. Com o incentivo do pai, que o presenteava com diversas obras, o jovem incorporou \u00e0 vontade de ser jornalista, o gosto pela literatura.<\/p>\n<p>Iniciou como cont\u00ednuo na reda\u00e7\u00e3o dos jornais \u201cFolha da Manh\u00e3\u201d, \u201cFolha da Tarde\u201d e \u201cFolha da Noite\u201d, onde teve a oportunidade de conviver com Ennio Pesce, Henrique Metteucci, Roland Sierra, Neil Ferreira, Murilo Felisberto, Jos\u00e9 Hamilton Ribeiro, Woyle Guimar\u00e3es e Ewaldo Dantas Ferreira. Tantos nomes do jornalismo o fizeram encantar-se de vez pela profiss\u00e3o. \u201cEnfiei na cabe\u00e7a que queria ser, algum dia, um profissional como eles. Era o meu sonho\u201d.<\/p>\n<p>Os primeiros ideais beiravam \u00e0 utopia.<\/p>\n<p>\u201cDefender a justi\u00e7a, a equidade, os interesses dessa sociedade carcomida, ser a voz dos calados pelo sistema e as circunst\u00e2ncias que nos moldam\u201d.<\/p>\n<p>Apesar das dificuldades, Percival mantevem as mesmas convic\u00e7\u00f5es da juventude. \u201cComo diria o escritor Victor Hugo, mudei muito, mas sustentei princ\u00edpios. O autor de \u201cOs Miser\u00e1veis\u201d ensinou: \u2018troque suas folhas, mantenha intactas suas ra\u00edzes\u2019. \u00c9 o que procuro fazer\u201d, diz.<\/p>\n<p>Nas d\u00e9cadas de 60 e 70, enfrentaria a persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, principalmente pelas reportagens de den\u00fancia sobre o Esquadr\u00e3o da Morte, uma organiza\u00e7\u00e3o composta por policiais, com o objetivo de exterminar \u201cos supostos \u201cbandidos comuns\u201d e \u201climpar\u201d a sociedade. Al\u00e9m do Esso, recebeu o Pr\u00eamio Vladimir Herzog (pelo \u201cNarcoditadura\u201d) e um Pr\u00eamio Abril de Jornalismo.<\/p>\n<p>Os perigos da profiss\u00e3o e, principalmente, da \u00e1rea do jornalismo na qual atua, n\u00e3o o desanimam. Para ele, \u00e9 preciso saber administrar o risco e n\u00e3o h\u00e1 como deixar de sentir o medo. \u201cO segredo \u00e9 conciliar a racionalidade e emo\u00e7\u00e3o, n\u00e3o permitindo que esta sufoque aquela\u201d. Contrariar essa regra fundamental, segundo Percival, pode ser muito perigoso, at\u00e9 mesmo fatal.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s somos, rigorosamente, contadores de hist\u00f3rias. Se algo der profundamente errado, a hist\u00f3ria n\u00e3o ser\u00e1 contada. O risco \u00e9, portanto, um marco divis\u00f3rio. Para contar a nossa hist\u00f3ria, temos que enfrent\u00e1-lo e venc\u00ea-lo. Nada de super-homem ou mulher-maravilha. Bons jornalistas, apenas, com um pouco de aud\u00e1cia e bastante determina\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>* Do livro-reportagem &#8220;N\u00f3 na Garganta&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em><strong>por Paloma Minke<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u201cO risco \u00e9 um marco divis\u00f3rio.<br \/>\nPara contar a nossa hist\u00f3ria,<br \/>\ntemos que enfrent\u00e1-lo e venc\u00ea-lo.<br \/>\nNada de super-homem ou mulher-maravilha.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-10837","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uns-e-outros"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10837","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10837"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10837\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18567,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10837\/revisions\/18567"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10837"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10837"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10837"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}