{"id":10839,"date":"2007-12-11T00:00:00","date_gmt":"2007-12-11T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:53:44","modified_gmt":"2017-09-15T19:53:44","slug":"meus-textos-preferidos-6","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/meus-textos-preferidos-6\/","title":{"rendered":"Meus textos preferidos 6"},"content":{"rendered":"<p>Prometi ontem a voc\u00eas que lhes daria hoje uma hist\u00f3ria inspirada. Promessa \u00e9 promessa e trato de cumpri-la. S\u00f3 que, reconhe\u00e7o, minha mar\u00e9 n\u00e3o est\u00e1 para peixe. Anda em baixa, vazante&#8230;<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o que encontrei \u00e9 postar a mais famosa cr\u00f4nica do jornalista e escritor Carlos Heitor Cony. Que, ali\u00e1s, sempre cito em sala de aula como um dos melhores exemplos do g\u00eanero tradicional\u00edssimo na Hist\u00f3ria do Jornalismo Brasileiro. <\/p>\n<p>Chama-se Mila e foi publicada na Folha de S. Paulo em 4 de junho de 1995.<\/p>\n<p>MILA<\/p>\n<p>RIO DE JANEIRO &#8211; Era pouco maior do que minha m\u00e3o: por isso eu precisei das duas para segur\u00e1-la, 13 anos atr\u00e1s. E, como eu n\u00e3o tinha muito jeito, enconstei-a ao peito para que ela n\u00e3o ca\u00edsse, simples apoio nessa primeira vez. Gostei desse calor e acredito que ela tamb\u00e9m. Dias depois, quando abriu os olhinhos, olhou-me profundamente: escolheu-me para dono. Pior: me aceitou. Foram 13 anos de chamego e encanto. Dormimos muitas noites juntos, a patinha dela em cima do meu ombro. Tinha medo de vento. O que fazer contra o vento? <\/p>\n<p>Am\u00e1-la \u2014 foi a resposta e tamb\u00e9m acredito que ela entendeu isso. Formamos, ela e eu, uma dupla din\u00e2mica contra as ciladas que se armam. E tamb\u00e9m contra aqueles que n\u00e3o aceitam os que se amam. Quando meu pai morreu, ela se chegou, solid\u00e1ria, encostou sua cabe\u00e7a em meus joelhos, n\u00e3o exigiu a minha festa, n\u00e3o queria disputar espa\u00e7o, ser maior do que a minha tristeza. <\/p>\n<p>Tendo-a a meu lado, eu perdi o medo do mundo e do vento. E ela teve uma ninhada de nove filhotes, escolhi uma de suas filhinhas e nossa dupla ficou mais dupla porque passamos a ser tr\u00eas. E passeavamos pela Lagoa, com a idade ela adquiriu &quot;fumos fidalgos&quot;, como o Dom Casmurro, de Machado de Assis. Era uma lady, uma rainha de Saba numa liteira inundada de sol e transportada por s\u00faditos imagin\u00e1rios. <\/p>\n<p>No s\u00e1bado, olhando-me nos olhos, com seus olhinhos cor de mel, bonita como nunca, mais que amada de todas, deixou que eu a beijasse chorando. Talvez ela tenha compreendido. Bem maior do que minha m\u00e3o, bem maior do que o meu peito, levei-a at\u00e9 o fim. Eu me considerava um profissional decente. At\u00e9 semana passada, houvesse o que houvesse, procurava cumprir o dever dentro de minhas limita\u00e7\u00f5es. N\u00e3o foi poss\u00edvel chegar ao gabinete onde, quietinha, deitada a meus p\u00e9s, esperava que eu acabasse a cr\u00f4nica para ficar com ela. <\/p>\n<p>At\u00e9 o \u00faltimo momento, olhou para mim, me escolhendo e me aceitando. Levei-a, em meus bra\u00e7os, apoiada em meu peito. Apertei-a com for\u00e7a, sabendo que ela seria maior do que a saudade.<\/p>\n<p>(Carlos Heitor Cony &#8211; Folha de S. Paulo, 04.06.95)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Prometi ontem a voc\u00eas que lhes daria hoje uma hist\u00f3ria inspirada. Promessa \u00e9 promessa e trato de cumpri-la. S\u00f3 que, reconhe\u00e7o, minha mar\u00e9 n\u00e3o est\u00e1 para peixe. 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