{"id":10854,"date":"2007-12-23T00:00:00","date_gmt":"2007-12-23T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:04:39","modified_gmt":"2017-09-14T04:04:39","slug":"bracelete-de-cristais","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/bracelete-de-cristais\/","title":{"rendered":"Bracelete de cristais *"},"content":{"rendered":"<p>* Conto de Natal<\/p>\n<p>Era uma vez&#8230;<\/p>\n<p>(Porque assim deveriam come\u00e7ar todas as hist\u00f3rias, especialmente as de Natal)<\/p>\n<p>&#8230; tr\u00eas primas, filhas de tr\u00eas jovens rapazes tamb\u00e9m primos entre si e sobrinhos de um rapaz n\u00e3o t\u00e3o jovem assim.<\/p>\n<p>Vamos cham\u00e1-las de Yasmin, Laila e Tain\u00e1.<\/p>\n<p>Tinham respectivamente treze, doze e onze anos e eram muito amigas. Assim como os pais e as esposas dos pais, os pais e a m\u00e3es dos pais que eram os av\u00f3s e irm\u00e3os e irm\u00e3s do tio, que pouco viam porque morava em outro pa\u00eds.<\/p>\n<p>Yasmin, Laila e Tain\u00e1 sempre ouviam falar daquele homem; que tamb\u00e9m chamavam de tio, mas para elas era um estrangeiro. \u00c0s vezes, chegavam mesmo a duvidar do que ouviam. Ele sempre estava envolvido em aventuras estranhas. Ora seguia em peregrina\u00e7\u00e3o pelo Caminho de Santiago de Compostela, ora percorria a Costa Malfitana para flagrar o por do sol sobre Mar Tirreno, ora perdera-se, b\u00eabado e tr\u00f4pego, pelos becos da Boca em Buenos Aires a morrer de amores por uma bailarina de tango.<\/p>\n<p>\u201cQue sujeito estranho\u201d, cochichavam entre si. <\/p>\n<p>Sabiam apenas que era rep\u00f3rter. Mas, n\u00e3o do tipo desses que aparecem na TV. Pelo que os pais davam a entender, ele vivia do que escrevia, das hist\u00f3rias que gostava de contar.<\/p>\n<p>Um dos av\u00f3s, que era pai de um dos pais e irm\u00e3o do tio, tinha outra opini\u00e3o e n\u00e3o a escondia de ningu\u00e9m:<\/p>\n<p>&#8212; Ele escreve para viver.<\/p>\n<p>Todos riam \u2013 e davam raz\u00e3o ao velho que tinha o cora\u00e7\u00e3o despeda\u00e7ado de saudades do irm\u00e3o errante. Era o que mais sentia sua aus\u00eancia. Mas, n\u00e3o movia uma palha para tira-lo do seu destino. <\/p>\n<p>Apenas repetia:<\/p>\n<p>&#8212; Ele escreve para viver. <\/p>\n<p>Mas, quando insistiam, acrescentava: <\/p>\n<p>&#8212; Por isso ganhou o mundo atr\u00e1s de novas hist\u00f3rias. Um dia ele volta&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Foi o que aconteceu numa antev\u00e9spera de Natal.  Ele chegou com uma mochila de presentes e novidades. Trazia tamb\u00e9m uma certa tristeza no olhar, embora o riso continuasse a iluminar aquele rosto vivido e, muito melodicamente, a pontuar a sua fala.<\/p>\n<p>&#8212; O que teria acontecido ao meu menino? P<\/p>\n<p>Foi a pergunta que a mulher do av\u00f4 fez para o av\u00f4 que t\u00e3o bem conhecia o irm\u00e3o e tio.<\/p>\n<p>&#8212; Ora o que sempre acontece e o traz de volta, remedou o marido, av\u00f4 e irm\u00e3o mais velho e mais achegado.<\/p>\n<p>Yasmin, Laila e Tain\u00e1 ficaram alvoro\u00e7ada para rever o tio \u2013 que, na verdade, mal conheciam, pois ainda eram crian\u00e7as de tudo quando ele partiu a primeira vez e, depois, outra e mais outra e outra mais.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>O desejo de Yasmin, Laila e Tain\u00e1, assim como o de todos na fam\u00edlia, foi satisfeito na noite do dia seguinte, quando se encontraram na casa assobradada do tal av\u00f4 numa rua tranq\u00fcila de S\u00e3o Paulo. Como fazia anualmente, desde a morte do pai do av\u00f4 e do tio jornalista, era ali que se reuniam para celebrar o Nascimento de Cristo. S\u00f3 que, desta vez, estavam  animados pela presen\u00e7a e rara do ilustre personagem e suas hist\u00f3rias mirabolantes. <\/p>\n<p>A alegria parecia maior e ele n\u00e3o se fazia de rogado:<\/p>\n<p>&#8212; Em Brugges, entrevistei uma linda feiticeira, uma cigana Fiquei encantado ao primeiro olhar. Ela leu a minha m\u00e3o e roubou o meu cora\u00e7\u00e3o. Ela era formosa, tudo o que eu sempre quis para sempre&#8230;<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o havia como n\u00e3o se encantar com aquela prosa, regada a vinho, doces lembran\u00e7as que ele encadeava t\u00e3o bem. Da cozinha, onde a ceia estava sendo preparada no maior capricho, escapava um cheirinho bom e tentador.<\/p>\n<p>E assim os minutos voaram como sempre voam velozmente quando estamos felizes.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Chegou, ent\u00e3o, a hora dos presentes \u2013 e houve algum constrangimento. S\u00f3 ent\u00e3o deram contas de que, sob a \u00e1rvore de Natal, nada havia para o viajante. <\/p>\n<p>Ele, ao contr\u00e1rio, presenteou a todos com livros que eram colet\u00e2neas de seus melhores escritos. Uma forma de dividir com os irm\u00e3os, sobrinhos e amigos os passos que deu e fizeram o caminho do rep\u00f3rter mundo afora. <\/p>\n<p>Em cada exemplar, uma dedicat\u00f3ria amorosa e personal\u00edssima. <\/p>\n<p>Alguns se espantaram com o que liam e perguntavam:<\/p>\n<p>&#8212; Mesmo t\u00e3o distante, como ele nos conhece t\u00e3o bem?<\/p>\n<p>Ele ria e n\u00e3o perdia a chance de mostrar bom-humor.<\/p>\n<p>&#8212; Porque levo voc\u00eas dentro do meu cora\u00e7\u00e3o. Tenho sempre um de sobressalente desde que aquela cigana roubou o meu verdadeiro cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Yasmim, Laila e Tain\u00e1 foram as \u00faltimas a serem chamadas pelo tio-av\u00f4, que mais parecia irm\u00e3o dos seus pais. <\/p>\n<p>Para elas, n\u00e3o havia livros, n\u00e3o havia embrulhos.<\/p>\n<p>Qual seria a surpresa?<\/p>\n<p>Num h\u00e1bil gesto de magia, estalou os dedos e surgiu, rebrilhante, um bracelete de cristais mi\u00fados que, mesmo \u00e0 noite, parecia refletir a luz do sol. \u00c0 claridade do dia, n\u00e3o seria imposs\u00edvel \u00e0queles prismas recender ao clar\u00e3o do luar. <\/p>\n<p>Todos embeveceram diante da vis\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, uma pergunta amea\u00e7ou toldar o momento:<\/p>\n<p>&#8212; A quem daria aquela preciosidade? <\/p>\n<p>Eram tr\u00eas as garotas e apenas um o bracelete.<\/p>\n<p>Chamou as meninas para junto dele. <\/p>\n<p>Fingiu ascultar o cora\u00e7\u00e3o acelerado de cada uma delas. Viu seu rosto refletido no olhar saltado das meninas. Sorriu e brincou com a d\u00favida que ora viviam: <\/p>\n<p>Quem seria a escolhida? <\/p>\n<p>E por qu\u00ea? <\/p>\n<p>Intimamente, desconfiavam n\u00e3o ser merecedoras de tamanho mimo. <\/p>\n<p>Os pais tamb\u00e9m se mostraram apreensivos. Fosse quem fosse a eleita, a harmonia daquele momento estaria severamente comprometida. Uma se julgaria melhor por receber algo assim t\u00e3o valioso. As preteridas, por certo, ficariam t\u00e3o decepcionadas que entristeceriam o Natal.<\/p>\n<p>Temeram pela decis\u00e3o do irm\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Todas as sombras se dissiparam em outro lance de pura destreza. <\/p>\n<p>O homem transformou o bracelete em tr\u00eas finas e delicadas pulseiras com novo estalar de dedos. Tinham apenas uma volta e milhares de pontos de luz. <\/p>\n<p>Os cristais agora pareciam com outros tons, mas permanecia o brilho peculiar. Menos intenso talvez, mas igualmente belo, indiz\u00edvel.<\/p>\n<p>Um oh! de surpresa cortou a sala quando ele curvou-se elegantemente para enfeitar o pulso de cada uma das meninas com a j\u00f3ia, como se estivesse a reverenciar tr\u00eas princesas.<\/p>\n<p>S\u00f3 ent\u00e3o se p\u00f4s a falar:<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>\u201cO que voc\u00eas imaginaram, queridos? <\/p>\n<p>Que eu cometeria a extrema indelicadeza de magoar duas dessas crian\u00e7as que voc\u00eas me presentearam como sobrinhas e, em conseq\u00fc\u00eancia, a muitos de voc\u00eas? <\/p>\n<p>\u00c9 natural o zelo de voc\u00eas.<\/p>\n<p>N\u00e3o os critico, pois somos assim quando estamos diante de uma ben\u00e7\u00e3o prestes a nos agraciar. Somos assim diante dos sonhos mais tenros quando amea\u00e7am se tornar realidade. Duvidamos de n\u00f3s mesmos, se somos merecedores, se somos capazes. <\/p>\n<p>Depois passamos a duvidar das pessoas ao redor. <\/p>\n<p>Assim se falharmos, elas ser\u00e3o as respons\u00e1veis porque trabalharam contra o nosso projeto. <\/p>\n<p>Uma grande bobagem quando trazemos a certeza do Deus Menino em nossos cora\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>Que hoje Ele renas\u00e7a em cada um de voc\u00eas.\u201d<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>\u201cQue voc\u00eas n\u00e3o precisem ganhar o mundo, como um tuareg solit\u00e1rio, para entender que a felicidade sempre est\u00e1 ao nosso redor. <\/p>\n<p>E se alimenta e nutre da luz que emanam de nossas boas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Somos assim, como os \u00ednfimos cristais daquele bracelete. Juntos, formamos uma pe\u00e7a s\u00f3, uma j\u00f3ia rara e \u00fanica, criada pela divina a\u00e7\u00e3o do Maior de Todos os Artistas. Individualmente, temos nosso brilhareco &#8211; flu\u00eddo, t\u00eanue, fr\u00e1gil. Mas, quando reunidos, somos capazes de iluminar os quartos do universo&#8230;<\/p>\n<p>Assim somos n\u00f3s, neste momento, ao lado de quem amamos; amigos e familiares.<\/p>\n<p>Assim forjaremos uma Humanidade mais digna e respons\u00e1vel.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 lugar para injusti\u00e7a enquanto o Menino Deus estiver conosco.\u201d<\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>Neste momento, o viajante se calou. <\/p>\n<p>Mesmo sorrindo, o semblante se fez triste por segundos \u2013 como a lembrar algu\u00e9m que o encantou e se perdeu nos desv\u00e3os do mundo. A cigana, talvez. <\/p>\n<p>Foi para ela que encomendou o bracelete ao amigo Swarovski, pensou o av\u00f4 e irm\u00e3o. <\/p>\n<p>S\u00f3 n\u00e3o entendeu o porqu\u00ea n\u00e3o conseguiu entregar a j\u00f3ia \u00e0 mulher amada. Mas essas coisas s\u00e3o como s\u00e3o. Foram feitas para serem vividas e n\u00e3o entendidas. Conhecia o irm\u00e3o, h\u00e1bil em fazer do lim\u00e3o da vida doces limonadas. \u00c9 certo que pediu ao amigo ourives que transformasse a preciosidade em tr\u00eas lindas pulseiras para as meninas e inventou aquela cena e o discurso para impressionar a todos.<\/p>\n<p>&#8212; Meu irm\u00e3o \u00e9 mesmo um grande contador de hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Os sinos da igreja ressoaram, ent\u00e3o. Era meia-noite.<\/p>\n<p>Hora de renascer&#8230;<\/p>\n<p>(Porque assim s\u00e3o as verdadeiras hist\u00f3rias de amor. Nunca terminam. Transformam-se em luz a clarear novos caminhos.)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>* Conto de Natal<\/p>\n<p>Era uma vez&#8230;<\/p>\n<p>(Porque assim deveriam come\u00e7ar todas as hist\u00f3rias, especialmente as de Natal)<\/p>\n<p>&#8230; tr\u00eas primas, filhas de tr\u00eas jovens rapazes tamb\u00e9m primos entre si e sobrinhos de um rapaz n\u00e3o t\u00e3o jovem assim.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-10854","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10854","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10854"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10854\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13966,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10854\/revisions\/13966"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10854"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10854"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10854"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}