{"id":10858,"date":"2008-01-27T00:00:00","date_gmt":"2008-01-27T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:53:42","modified_gmt":"2017-09-15T19:53:42","slug":"o-homem-dividido","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-homem-dividido\/","title":{"rendered":"O homem dividido"},"content":{"rendered":"<p>Creio que lhes<br \/>\ndevo uma satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nada, nada parei de blogar<br \/>\nem 24 de dezembro e s\u00f3<br \/>\nneste 25 dei as caras<br \/>\npor aqui, mesmo assim<br \/>\ncom um texto antigo, mas<br \/>\nque faz refer\u00eancia<br \/>\nao anivers\u00e1rio de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Nenhum dos meus quatro<br \/>\nou cinco leitores reclamou<br \/>\nostensivamente da aus\u00eancia. <\/p>\n<p>Duas ou tr\u00eas leitoras foram<br \/>\nat\u00e9 gentis na cobran\u00e7a. <\/p>\n<p>Disseram que estavam saudosas<br \/>\ndas bobagens que escrevo. <\/p>\n<p>Outra recomendou que s\u00f3 voltasse a postar<br \/>\nquando estivesse afim. Enquanto isso, avisou,<br \/>\niria reler cr\u00f4nicas antigas<br \/>\nque lhe fazem \u201ct\u00e3o bem a alma\u201d.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>A bem da verdade, voltei ao Brasil no dia 19,<br \/>\ns\u00e1bado retrasado, portanto. Estava desde<br \/>\no dia 24 de dezembro em terras de Espanha. <\/p>\n<p>Viajei de cidade em cidade, a cada um ou dois dias.<br \/>\nSantiago de Compostella, A Corunha, Seg\u00f3via,<br \/>\n\u00c1vila, Salamanca, Valladolid, Tordezilhas,<br \/>\nLeon, Burgos, Bilbao, San Sebastian,<br \/>\nPamplona, Zaragoza, Toledo e Madrid. <\/p>\n<p>Nessas andan\u00e7as, confesso a voc\u00eas,<br \/>\ndispenso o celular e qualquer consulta \u00e0 net.<\/p>\n<p>Para ser franco, entrei no blog duas vezes.<br \/>\nQuando ainda estava em Santiago, l\u00e1 pelo dia 27,<br \/>\nquando tirei da homme a mensagem de Natal<br \/>\ne l\u00e1 deixei o aviso de \u201co blogueiro est\u00e1 de f\u00e9rias\u201d. <\/p>\n<p>A outra vez foi em Madrid, quando j\u00e1 se<br \/>\nanunciava o fim da peregrina\u00e7\u00e3o<br \/>\ne a volta ao Brasil.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Creiam.<\/p>\n<p>Essa desplugada n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo<br \/>\nde desinteresse. Tem motivo \u00f3bvio.<br \/>\nSe estou l\u00e1, n\u00e3o estou c\u00e1. <\/p>\n<p>Portanto&#8230;<\/p>\n<p>Depois, h\u00e1 outras raz\u00f5es vitais<br \/>\npara se preocupar. Al\u00e9m do bate-perna por<br \/>\nmuseus, igrejas, jardins, lugares hist\u00f3ricos,<br \/>\n\u00e9 preciso buscar um lugar para dormir,<br \/>\npara comer, controlar a grana,<br \/>\ndiscutir qual ser\u00e1 a pr\u00f3xima etapa<br \/>\nda viagem, se vamos de carro ou de trem&#8230;<\/p>\n<p>Enfim&#8230; <\/p>\n<p>Nunca h\u00e1 uma programa\u00e7\u00e3o oficial \u2013<br \/>\ne, no fundo, no fundo, acho<br \/>\nque este \u00e9 o barato da viagem.<\/p>\n<p>Deixar as coisas assim<br \/>\nao sabor dos ventos, do imprevis\u00edvel.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Houve um ano que, em Amsterd\u00e3, cheguei<br \/>\nem frente ao badalad\u00edssimo Museu de Van Gogh.<br \/>\nAo lado havia um grande parque coberto de neve,<br \/>\nonde pais e filhos pequenos brincavam<br \/>\ncomo se fosse um dia de sol. <\/p>\n<p>Escolhi ficar \u00e0 toa pelos jardins<br \/>\nenbranquecidos e depois tomar<br \/>\num caf\u00e9 num quiosque feinho de tudo. <\/p>\n<p>Naquela manh\u00e3 de s\u00e1bado, t\u00ednhamos duas horas<br \/>\npara conhecer o Museu porque \u00e0 tarde partir\u00edamos<br \/>\n\u2013 e eu me decidi pelo parque. <\/p>\n<p>Os que estavam comigo n\u00e3o entenderam<br \/>\na minha op\u00e7\u00e3o. H\u00e1 quem viaje para a cidade<br \/>\ns\u00f3 para ver as obras do mestre da pintura.<br \/>\nMas, posso lhes garantir, foi um<br \/>\ndos grandes momentos daquela viagem.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Neste ano, por exemplo, nos perdemos<br \/>\npelas ruas estreitas de Seg\u00f3via, um cidade<br \/>\nmedieval onde passamos o reveillon<br \/>\nou \u201ca noite velha\u201d para eles. <\/p>\n<p>Sub\u00edamos aqui, desc\u00edamos ali.<br \/>\nTent\u00e1vamos um beco, uma viela.<br \/>\nAnd\u00e1vamos pra l\u00e1 e pra c\u00e1 \u2013 o que \u00e9<br \/>\n comum acontecer nessas viagens \u2013 at\u00e9<br \/>\nque chegamos numa pequena pra\u00e7a, onde<br \/>\nhavia um monumento, no m\u00ednimo, intrigante.<\/p>\n<p>Tinha a seguinte inscri\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>AGAPITO MARAZUELA<br \/>\nMaestro del folclore castellano.<\/p>\n<p>VI. <\/p>\n<p>Mas, o que me chamou aten\u00e7\u00e3o foi<br \/>\na escultura em bronze de corpo inteiro<br \/>\ndo senhor Agapito ao centro da pra\u00e7a.<\/p>\n<p>(Veja foto acima) <\/p>\n<p>H\u00e1 um v\u00e3o de uns 60 cent\u00edmetros<br \/>\nentre a parte da frente e<br \/>\na parte de tr\u00e1s da est\u00e1tua. <\/p>\n<p>Fiquei a imaginar o que o artista tentou<br \/>\nmostrar com aquela abrupta separa\u00e7\u00e3o<br \/>\n&#8211; corpo e alma, passado e futuro,<br \/>\nsonho e realidade&#8230;<\/p>\n<p>Desencanei&#8230;<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Assim que cheguei ao Brasil, ainda no<br \/>\naeroporto de Guarulhos, enquanto esperava<br \/>\na minha mala, que sempre teima em ser<br \/>\numa das \u00faltimas a dar o ar da gra\u00e7a nas esteiras,<br \/>\nlembrei do Sr. Agapito. E continuei<br \/>\na lembra-lo em todos esses dias&#8230;<\/p>\n<p>Da\u00ed a hesita\u00e7\u00e3o em voltar a escrever&#8230;<\/p>\n<p>Me sinto, como aquela imagem,<br \/>\num homem dividido. <\/p>\n<p>\u00c9 certo que estou aqui a retomar a vida,<br \/>\nos compromissos, o trabalho, os textos.<br \/>\nMas \u00e9 certo tamb\u00e9m que outro tanto<br \/>\nde mim continua a vagar pelas<br \/>\nruas de Santiago, A Corunha, Seg\u00f3via, \u00c1vila&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Creio que lhes<br \/>\ndevo uma satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nada, nada parei de blogar<br \/>\nem 24 de dezembro e s\u00f3<br \/>\nneste 25 dei as caras<br \/>\npor aqui, mesmo assim<br \/>\ncom um texto antigo,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10858","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10858","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10858"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10858\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17057,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10858\/revisions\/17057"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10858"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10858"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10858"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}