{"id":10860,"date":"2008-01-29T00:00:00","date_gmt":"2008-01-29T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:53:41","modified_gmt":"2017-09-15T19:53:41","slug":"o-flautista","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-flautista\/","title":{"rendered":"O flautista"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o tenho o que reclamar<br \/>\nda chuva intensa que castiga<br \/>\na manh\u00e3 desta ter\u00e7a-feira,<br \/>\nmesmo em pleno ver\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo alguns amigos, esses tor\u00f3s<br \/>\nestariam \u00e0 minha espera em Santiago de<br \/>\nCompostela, quando ali aportei no Natal<br \/>\npara uma breve estadia.<\/p>\n<p>Recomendaram:<\/p>\n<p>&quot;Nesta \u00e9poca, chove muito naquela<br \/>\nregi\u00e3o. Leve capa e guarda-chuva.&quot;<\/p>\n<p>N\u00e3o levei \u2013 e n\u00e3o choveu.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Fez um frio suport\u00e1vel, diria.<\/p>\n<p>Bastou o bom e velho sobretudo<br \/>\npara que tirasse de letra<br \/>\nas baixas temperaturas locais.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, houve at\u00e9 tardes ensolaradas<br \/>\nem que fui obrigado a levar<br \/>\no casaco e a blusa de l\u00e3 nas m\u00e3os,<br \/>\nenquanto caminhava sem rumo certo.<\/p>\n<p>Em um desses p\u00e9riplos, alcan\u00e7amos<br \/>\no Parque das Alamedas, uma simp\u00e1tica<br \/>\n\u00e1rea verde \u2013 n\u00e3o t\u00e3o verde assim<br \/>\nno inverno &#8211;, com jardins, bancos,<br \/>\ncoreto, est\u00e1tuas e patos<br \/>\na nadar num pequeno lago.<\/p>\n<p>Ou seja, tudo o que possuem<br \/>\nos tradicionais parques europeus<br \/>\ne suas c\u00f3pias mundo afora.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos exaustos da caminhada<br \/>\ne descobrimos logo ali, do outro<br \/>\nlado da rua, uma cafeteria<br \/>\ncom mesas e cadeiras espalhadas<br \/>\npela Plaza de Figueroa.<\/p>\n<p>Chance \u00fanica de nos largar<br \/>\nao sol, depositar os casacos<br \/>\nnos cabideiros e beber algo.<\/p>\n<p>Um \u2018expresso\u2019 que fosse<br \/>\nnos daria a oportunidade de<br \/>\nl\u00e1 ficar por horas a fio,<br \/>\nse assim o desej\u00e1ssemos&#8230;<\/p>\n<p>Foi o que fiz.<\/p>\n<p>Pedi um caf\u00e9 e uma \u00e1gua.<br \/>\nE me dispus \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o.<br \/>\nUma das coisas que mais gosto<br \/>\nquando viajo. Deliciar-me sem<br \/>\nnada a fazer, sem tempo,<br \/>\nsem compromisso. Apenas e t\u00e3o<br \/>\nsomente a olhar o movimento<br \/>\ndas ruas, das pessoas,<br \/>\ndos arredores. <\/p>\n<p>Viscejar, eis o termo.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Pois estava largada\u00e7o no meu<br \/>\ncanto, pensando nas agruras dos<br \/>\nseis peregrinos que chegaram naquela<br \/>\nmanh\u00e3 \u00e0 Catedral de S\u00e3o Thiago \u2013<br \/>\nfazer o tal caminho \u00e9 uma pedreira<br \/>\nem tempo normal, imaginem<br \/>\nno inverno! \u2013 quando ouvi<br \/>\na m\u00fasica ao longe. <\/p>\n<p>Gradativamente, o som se fez mais<br \/>\ne mais pr\u00f3ximo. Era um tema erudito<br \/>\nque n\u00e3o consegui identificar. Mas, logo<br \/>\npercebi que seria desnecess\u00e1ria<br \/>\ntal informa\u00e7\u00e3o. Apareceu um desses<br \/>\nm\u00fasicos de rua que por si<br \/>\ns\u00f3 valia o espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Que figura\u00e7a!<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Pensem num flautista de priscas<br \/>\neras. Pois, era tal e qual.<\/p>\n<p>Esquel\u00e9tico, cabelo cortado \u00e0 moda<br \/>\nPigmali\u00e3o \u2013 talvez um exemplo<br \/>\nmais atual, mas n\u00e3o t\u00e3o atual, seria<br \/>\nlembrar o estilo Chit\u00e3ozinho<br \/>\ne Xoror\u00f3 no in\u00edcio da carreira \u2013<br \/>\num baita narig\u00e3o a se destacar<br \/>\ndo rosto p\u00e1lido e triangular. <\/p>\n<p>Vestia-se inteiramente de preto<br \/>\ncom roupas justas e botas de cowboy,<br \/>\ntamb\u00e9m pretas. Trazia um chap\u00e9u<br \/>\n&#8212; preto, \u00f3bvio \u2013 enterrado na cabe\u00e7a<br \/>\nque s\u00f3 tirava para fazer a coleta de<br \/>\nmoedas entre os freq\u00fcentadores do Caf\u00e9.<\/p>\n<p>Uma figura\u00e7a, como disse.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Enquanto tocava, ele nos divertia<br \/>\ncom passos desajeitados de<br \/>\numa dan\u00e7a esquisita, mas, ritmada<br \/>\nque, imagino, o pr\u00f3prio<br \/>\nflautista deveria ter inventado.<\/p>\n<p>Assim o homem saracoteava entre<br \/>\nas mesas, chamando a aten\u00e7\u00e3o de todos.<\/p>\n<p>Depois de alguns minutos,<br \/>\no inef\u00e1vel passar o chap\u00e9u.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Na Europa, esses m\u00fasicos de rua<br \/>\ns\u00e3o comuns. Ali mesmo, em Santiago,<br \/>\nhavia um guitarrista de blues ao lado<br \/>\nda Catedral. Em Madrid, vi um violinista<br \/>\ncom um irrepreens\u00edvel repert\u00f3rio<br \/>\nentre o cl\u00e1ssico e o popular. <\/p>\n<p>Creio que foi em Pamplona.<br \/>\nEncontrei um senhor a tirar sons<br \/>\ncelestiais de copos enfileirados,<br \/>\nafinados unicamente pelo volume<br \/>\nde \u00e1gua que continham. Ele passava<br \/>\na m\u00e3o sobre a borda dos copos<br \/>\ndelicadamente e surgiam os acordes. <\/p>\n<p>J\u00e1 havia visto coisa parecida<br \/>\nem algum circo, quando ainda<br \/>\nera crian\u00e7a \u2013 p\u00f5e tempo nisso.<\/p>\n<p>Mas, o flautista me pareceu \u00fanico.<br \/>\nPela performance, pela express\u00e3o<br \/>\nde duende, pelo encanto daquela<br \/>\ntarde de sol t\u00e3o longe de casa.<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>Ia solto em meus devaneios e,<br \/>\nde repente, o chap\u00e9u do flautista e<br \/>\no pr\u00f3prio balan\u00e7aram \u00e0 minha frente,<br \/>\nnuma clara alus\u00e3o do que queriam.<\/p>\n<p>Moedas, moedas, moedas&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o me fiz de rogado.<\/p>\n<p>Enfiei a m\u00e3o no bolso da cal\u00e7a<br \/>\ne lhe dei todas as que tinha.<\/p>\n<p>Registre-se que n\u00e3o eram muitas<br \/>\n(tr\u00eas) e, \u00e9 prov\u00e1vel, de pouco valor.<\/p>\n<p>O homem fez uma express\u00e3o<br \/>\nde t\u00e9dio e horror, disse umas palavras<br \/>\nem galego que nada entendi<br \/>\ne foi-se embora, tocar sua flauta<br \/>\nem outra freguesia.<\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>O idioma galego \u00e9 bem parecido com<br \/>\nnosso. Troca-se o J e o G pelo X,<br \/>\nmas tudo bem. Se a xente prestar<br \/>\naten\u00e7\u00e3o at\u00e9 que entende alguma<br \/>\ncoisa sem precisar ir ao col\u00e9xio.<\/p>\n<p>Mas, do xeito que o homem<br \/>\nesbravexou, naquele dia,<br \/>\nVirxem Maria, vai saber<br \/>\no que teria dito&#8230; <\/p>\n<p>Tenho certeza, por\u00e9m, que sobrou<br \/>\npra mim, de m\u00e3o-de-vaca pra baijo.<br \/>\nS\u00f3 n\u00e3o sei se bronqueou apenas<br \/>\ncomigo ou  foi um pega xeral.<\/p>\n<p>Na verdade, at\u00e9 hoxe, n\u00e3o aprendi<br \/>\ncomo se diz muquirana em galego. Mas,<br \/>\nseguro, foi algo assim que ele disse<br \/>\ne olhou feio para todos n\u00f3s&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o tenho o que reclamar<br \/>\nda chuva intensa que castiga<br \/>\na manh\u00e3 desta ter\u00e7a-feira,<br \/>\nmesmo em pleno ver\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo alguns amigos, esses tor\u00f3s<br \/>\nestariam \u00e0 minha espera em Santiago de<br \/>\nCompostela,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10860","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10860","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10860"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10860\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17055,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10860\/revisions\/17055"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10860"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10860"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10860"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}