{"id":10875,"date":"2008-02-16T00:00:00","date_gmt":"2008-02-16T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:53:39","modified_gmt":"2017-09-15T19:53:39","slug":"o-sorveteiro-e-os-meninos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-sorveteiro-e-os-meninos\/","title":{"rendered":"O sorveteiro e os meninos"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o escrevo este post para culpar o homem, menos ainda os meninos. <\/p>\n<p>Se eles agem assim, \u00e9 triste, eu sei, mas \u00e9 porque assim a vida os ensinou a ser.<\/p>\n<p>Um triste retrato deste Brasilsilsil.<\/p>\n<p>I.<\/p>\n<p>Foi h\u00e1 dois anos em Macei\u00f3. N\u00e3o lembro o nome da cidadezinha que fomos visitar. Mas, n\u00e3o tem import\u00e2ncia. Era um daqueles passeios convencionais que todo turista faz quando est\u00e1 por ali. A paradis\u00edaca praia, tamb\u00e9m n\u00e3o lembro nome, \u00e9 a atra\u00e7\u00e3o dos bacanas. Repete o cen\u00e1rio t\u00e3o comum no nordeste brasileiro. Alguns restaurantes para receber paulistas, cariocas, mineiros, gringos. Poucos estabelecimentos comerciais que vendem para os mesmos artesanatos e produtos t\u00edpicos. E, se esticarmos os olhos pelos arredores, uma pobreza s\u00f3.   <\/p>\n<p>Uma figura se destaca nessa paisagem. Ali\u00e1s, duas.<\/p>\n<p>Os sorveteiros e os meninos.<\/p>\n<p>H\u00e1 o calor abrasador que colabora para o esquema \u2013 mas, ao que me consta, este \u00e9 caracter\u00edstico do local, e ainda n\u00e3o foi corrompido.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>A jogadinha \u00e9 simples.<\/p>\n<p>Chegam a turbas de turistas em \u00f4nibus, em v\u00e3s ou em carros particulares. Os sorveteiros se posicionam estrategicamente para ficar em nosso caminho.<\/p>\n<p>E a\u00ed. \u00c9 inevit\u00e1vel. O homem anuncia o produto, geladinho, de frutas t\u00edpicas. A garotadinha nos rodeia em bandos tamb\u00e9m a pedir sorvete. Custa um real. T\u00e3o pouco. Estamos de f\u00e9rias, felizes, sem l\u00e1 grande controle da grana. Que, de resto, n\u00e3o vai nos fazer falta alguma. S\u00e3o crian\u00e7as est\u00e3o ali. Somos generosos e tal&#8230;<\/p>\n<p>Compramos. <\/p>\n<p>Para eles e para n\u00f3s, que n\u00e3o somos de a\u00e7o.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>O menino ou menina pega o sorvete e sai correndo. Aparentemente t\u00e3o felizes quanto qualquer garoto da cidade quando ganha um picol\u00e9. <\/p>\n<p>N\u00f3s seguimos nosso caminho para a praia. Vamos saboreando os tucupis e os tacac\u00e1s da vida, crente que somos \u201cos caras\u201d. Alma lavada pela solidariedade e enxaguada naquele bel\u00edssimo mar de \u00e1guas verdes.<\/p>\n<p>Quanta ingenuidade, a nossa.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Assim que ficam desertas as ruelas que beiram a praia, a garotada reaparece. Trazem os sorvetes intactos, ainda na embalagem, e devolvem ao sorveteiro que os coloca outra vez no isopor com gelo. Ser\u00e3o revendidos na pr\u00f3xima leva de turistas ou mesmo quando n\u00f3s, ot\u00e1rios, cansarmos de brincar de bacana e voltarmos da praia.<\/p>\n<p>O ir e vir dos garotos lhes rende uma moeda de 5 centavos por a\u00e7\u00e3o \u2013 e nenhum sorvete no fim do dia.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Mesmo sabendo da trapa\u00e7a, n\u00e3o consigo condena-los pelo \u201ccambau\u201d que d\u00e3o nas sorveterias \u2013 que paga uma mixaria pelo trabalho do sorveteiro \u2013 e nos incautos turistas, que enfim nada perdem.<\/p>\n<p>Mas, nem sei o porqu\u00ea lhes conto isso hoje.<\/p>\n<p>Talvez para n\u00e3o falar da jovem que ficou nove anos encarcerada.<\/p>\n<p>Ou dos 4.500 trabalhadores rurais que viviam escravizados em fazendas no Par\u00e1.<\/p>\n<p>Ou do brasileiro que teve o corpo inteiro marcado a ferro quente porque tento fugir de uma dessas fazendas.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Talvez porque todas essas situa\u00e7\u00f5es refletem um triste retrato deste Brasilsilsil. Um retrato que \u2013 n\u00f3s, os privilegiados \u2013 fingimos n\u00e3o existir&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o escrevo este post para culpar o homem, menos ainda os meninos. <\/p>\n<p>Se eles agem assim, \u00e9 triste, eu sei, mas \u00e9 porque assim a vida os ensinou a ser.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10875","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10875","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10875"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10875\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17040,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10875\/revisions\/17040"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10875"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10875"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10875"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}