{"id":10877,"date":"1980-08-29T00:00:00","date_gmt":"1980-08-29T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-13T19:13:29","modified_gmt":"2017-09-13T19:13:29","slug":"renato-teixeira-e-a-nova-moda-de-viola","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/renato-teixeira-e-a-nova-moda-de-viola\/","title":{"rendered":"Renato Teixeira e a nova moda. De viola"},"content":{"rendered":"<p>Caipira urbano. Decididamente, o cantor\/compositor Renato Teixeira n\u00e3o aprova esse r\u00f3tulo para o paciente trabalho \u201cde remanejamento\u201d da m\u00fasica caipira que vem desenvolvendo, com \u00eaxito, h\u00e1 longos anos. Para esse paulista de Santos, criado em Ubatuba e Taubat\u00e9, h\u00e1 uma maneira mais sugestiva e acertada para denominar sua m\u00fasica: moda nova. Faz uma ressalva, entretanto: moda aqui \u00e9 moda de viola mesmo. Lan\u00e7ando o admir\u00e1vel Garapa, terceiro elep\u00ea que faz na RCA, Renato Teixeira conversou com Rodolfo C. Martino, de Gazeta do Ipiranga, sobre a revitaliza\u00e7\u00e3o de um g\u00eanero \u201cque j\u00e1 existe h\u00e1 50 anos\u201d. Afinal, segundo faz quest\u00e3o de esclarecer, \u201ca MPB j\u00e1 percebeu que n\u00e3o pode ignorar a m\u00fasica sertaneja\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Em suas recentes entrevistas, voc\u00ea tem demonstrado um entusiasmo incomum com os resultados do elep\u00ea Garapa. Alguma novidade?<\/p>\n<p>RENATO &#8211; De novo mesmo, acho que s\u00f3 o maior apuro na produ\u00e7\u00e3o do disco, o maior dom\u00ednio da linguagem musical a que me proponho e das t\u00e9cnicas de est\u00fadio. A maior viv\u00eancia. Enfim, acho que Garapa \u00e9 conseq\u00fc\u00eancia natural dos meus trabalhos anteriores. E est\u00e1 dentro da proposi\u00e7\u00e3o de se criar uma nova moda de viola. \u00c9 algo, sei bem, relativamente novo que estou desenvolvendo sem muitas refer\u00eancias. Com o objetivo de gerar uma nova situa\u00e7\u00e3o para a m\u00fasica caipira.<\/p>\n<p>&#8211; Algo semelhante ao que fez o jogador S\u00f3crates recentemente?<\/p>\n<p>RENATO &#8211; N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 isso, n\u00e3o. O S\u00f3crates regravou cl\u00e1ssicos da m\u00fasica sertaneja com inten\u00e7\u00e3o &#8211; louv\u00e1vel, diga-se &#8211; de divulgar esse g\u00eanero junto ao grande p\u00fablico das cidades. Minha coloca\u00e7\u00e3o \u00e9 outra, embora reconhe\u00e7a que ele n\u00e3o usou mal a chance que teve. E que sua proposi\u00e7\u00e3o foi das mais elogi\u00e1veis.<\/p>\n<p>&#8211; E qual \u00e9, ent\u00e3o sua coloca\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>RENATO &#8211; O que pretendo \u00e9 dar for\u00e7a a um movimento que chamo de moda nova (moda de viola, nada a ver com moda de costumes) e se formar a segunda gera\u00e7\u00e3o de representantes de uma m\u00fasica que j\u00e1 habitou o campo. E hoje est\u00e1 na periferia. E que, penso, deve ter uma roupagem mais atual. Veja bem: o impulso \u00e9 o mesmo da m\u00fasica caipira, como a que se ouve por a\u00ed, com violeiro, primeira e segunda voz. Esse g\u00eanero j\u00e1 existe h\u00e1 50 anos. Eu quero partir da\u00ed e chegar aos nossos dias. Repare que o resultado final \u00e9 diferente porque eu parto de um determinado est\u00e1gio que n\u00e3o \u00e9 o deles. Minha realidade \u00e9 diferente. E vai gerar um trabalho diferente, embora as fontes, as ra\u00edzes sejam as mesmas.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o voc\u00ea se define como um, digamos, caipira urbano?<\/p>\n<p>RENATO &#8211; Creio que n\u00e3o \u00e9 bem isso. Ser caipira, para mim, \u00e9 algo assim mais emocional. \u00c9 um estado de esp\u00edrito. Um aspecto \u00e9tnico da ra\u00e7a brasileira. Por exemplo, os caipiras do nordeste &#8211; Caetano, Gil, esse pessoal todo &#8211; j\u00e1 est\u00e3o na vig\u00e9sima gera\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o j\u00e1 h\u00e1 uma coer\u00eancia entre a m\u00fasica nordestina e os dias de hoje. Houve uma atualiza\u00e7\u00e3o de linguagem, de n\u00edvel. Ela j\u00e1 ocupa o devido lugar. \u00c9 essa mentalidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00fasica sertaneja ou caipira que quero fixar junto ao grande p\u00fablico. Creio mesmo que esse novo disco, Garapa, \u00e9 um marco nesse sentido.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 deu para sentir a aceita\u00e7\u00e3o desse trabalho. Ou n\u00e3o?<\/p>\n<p>RENATO &#8211; Vem melhorando, posso lhe dizer, a cada novo trabalho. As pessoas est\u00e3o se acostumando a ouvir. Nas r\u00e1dios, a aceita\u00e7\u00e3o \u00e9 mais demorada. Mas, em show, tem repercuss\u00e3o imediata mesmo. E \u00e9 exatamente neste ponto que a coisa tende a se desenvolver. Porque, \u00e9 fundamental que o p\u00fablico conhe\u00e7a aquele som, sem os preconceitos como os que envolvem diretamente a cultura caipira. A bossa-nova, por exemplo, no inicio, foi de dif\u00edcil assimila\u00e7\u00e3o. Hoje, n\u00e3o, o p\u00fablico tem um certo conhecimento do que \u00e9 bossa-nova, do que canta o Caetano Veloso, outro exemplo. Ent\u00e3o, h\u00e1 a identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea j\u00e1 citou, por duas vezes, o nome de Caetano Veloso. Como \u00e9 que voc\u00ea assimilou o Tropicalismo e toda aquela agita\u00e7\u00e3o dos anos 60? Voc\u00ea estava em in\u00edcio de carreira, n\u00e3o?<\/p>\n<p>RENATO &#8211; \u00c9, eu comecei em 67, como compositor. Demorou dez anos para estourar minha primeira m\u00fasica, &#8220;Romaria&#8221;, com Elis Regina. Mas, sobre o Tropicalismo, eu tive uma posi\u00e7\u00e3o consciente e, at\u00e9 certo ponto, interessante. Fui, na verdade, um espectador privilegiado. Era amigo de todos e fiquei observando a \u00e1gua ferver. No fundo, no fundo, tinha no\u00e7\u00e3o que tudo aquilo nada tinha a ver comigo. Que precisava sedimentar meu trabalho dentro de um caminho pr\u00f3prio, mas de acordo com meu jeito, com a minha verdade.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, foi o Tropicalismo que abriu as portas para essa gama de g\u00eaneros e estilos musicais que hoje existem na MPB.<\/p>\n<p>RENATO &#8211; N\u00e3o tem d\u00favida. O Tropicalismo rompeu com o sectarismo. Mas, nem assim conseguiu liberar o Tonico e o Tinoco. A elite musical \u00e9, em realidade, muito reacion\u00e1ria. S\u00f3 recentemente o trabalho da dupla acabou sendo valorizado devidamente. Por isso, reconhe\u00e7o que Elis teve um papel de grande import\u00e2ncia quando gravou &#8220;Romaria&#8221;. Certamente se s\u00f3 eu tivesse gravado n\u00e3o alcan\u00e7aria a proje\u00e7\u00e3o nacional. O endosso de Elis foi, por isso, fundamental.<\/p>\n<p>&#8211; Nessa \u00e9poca, voc\u00ea j\u00e1 havia se definido pela m\u00fasica caipira?<\/p>\n<p>RENATO &#8211; N\u00e3o inteiramente, sabe. Havia uma identifica\u00e7\u00e3o quanto aos temas. Mas, n\u00e3o quanto a forma. S\u00f3 em 73 no elep\u00ea Paisagem eu me introduzi, mais ou menos, nesse caminho. Mas, ainda de uma forma prec\u00e1ria. Sabe, eu procurei me localizar. Fiz uma esp\u00e9cie de auto-an\u00e1lise, levando em conta o meu lugar social.<\/p>\n<p>&#8211; De 67 a 77, como \u00e9 que voc\u00ea sobreviveu musicalmente. Voc\u00ea v\u00ea alguma diferen\u00e7a expressiva nos compositores dos anos 60, da gera\u00e7\u00e3o de briga dos anos 70 e no pessoal de hoje?<\/p>\n<p>RENATO &#8211; Sobrevivi fazendo jingles publicit\u00e1rios. Tocava com o grupo &#8220;\u00c1gua&#8221; sem qualquer compromisso, por tocar mesmo. Em termos de diferen\u00e7as, creio que o mercado de trabalho era menos favorecido. Por\u00e9m, a gente tinha acesso a mais informa\u00e7\u00f5es. T\u00ednhamos uma preocupa\u00e7\u00e3o, sei l\u00e1, culturalmente mais s\u00f3lida que hoje. Era algo mais coeso. Antes fic\u00e1vamos conversando. Hoje, sai todo mundo correndo para ver quem chega na frente. No meu entender, essa gera\u00e7\u00e3o formou-se com talento. Mas, sem a atividade cultural necess\u00e1ria. Creio mesmo que tudo isso \u00e9, em s\u00edntese, reflexo do boicote, do bloqueio criativo que se imp\u00f4s nessa \u00e9poca \u00e0 intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; E o momento atual? Qual sua expectativa?<\/p>\n<p>RENATO &#8211; \u00c9 uma hora importante porque acredito que a MPB j\u00e1 percebeu que n\u00e3o pode ignorar a m\u00fasica sertaneja. Pois, nesse g\u00eanero temos um manancial at\u00e9 maior que o samba. Deve-se considerar esse aspecto e valoriz\u00e1-lo. Repare: a partir do momento em que voc\u00ea tenta tornar uma cultura estagnada mais atual, mais representativa, seu trabalho passa a ser fatalmente um conte\u00fado social.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Caipira urbano. 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