{"id":10886,"date":"2008-02-25T00:00:00","date_gmt":"2008-02-25T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2018-03-29T20:13:19","modified_gmt":"2018-03-29T20:13:19","slug":"o-jornalista-do-novo-milenio-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-jornalista-do-novo-milenio-2\/","title":{"rendered":"O jornalista do novo mil\u00eanio"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>por Francisco Ornellas<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Quase 20 anos atr\u00e1s, em um semin\u00e1rio com professores da Universidade de Navarra, na Espanha, ouvi deles uma afirma\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica: a humanidade estaria ent\u00e3o \u00e0s v\u00e9speras de uma nova era. Assim como houve um tempo em que, na sociedade agr\u00edcola, a riqueza era conduzida pelos canais de \u00e1gua \u2013 os aquedutos \u2013 e outro, com o advento do petr\u00f3leo, em que a riqueza era conduzida pelos canais de \u00f3leo \u2013 os oleodutos \u2013, est\u00e1vamos, em 1990, no limiar da Era da Informa\u00e7\u00e3o, para a qual seria predominante, para o sucesso, os canais informativos \u2013 que eles denominavam de \u2018informadutos\u2019. Sucesso n\u00e3o apenas das empresas mas tamb\u00e9m, e principalmente, dos profissionais.<\/p>\n<p>Confesso hoje, me era dif\u00edcil compreender por inteiro a profecia dos mestres de Navarra. Criado no final dos tempos rom\u00e2nticos do jornalismo, acostumei-me ao ru\u00eddo intermitente dos telex, ao calor das linotipos, aquelas m\u00e1quinas pr\u00e9-hist\u00f3ricas, ainda que incr\u00edveis e ao toque m\u00e1sculo das m\u00e1quinas de escrever. E lembrei-me, de pronto, da surpresa que tive quando retornei \u00e0 reda\u00e7\u00e3o de O Estado de S. Paulo em 1990, da qual me havia afastado, dois anos antes, para satisfazer a curiosidade pela \u00e1rea de Publicidade.<\/p>\n<p>Curiosidade satisfeita, descobri, por exemplo, que a similaridade entre a Publicidade e o Jornalismo \u00e9 a mesma que existe entre a Medicina e a Veterin\u00e1ria, sem dem\u00e9rito para qualquer uma delas, setores t\u00e3o importantes para a sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie animal assim como o Jornalismo e a Publicidade s\u00e3o importantes para a sobreviv\u00eancia da Comunica\u00e7\u00e3o. Mas, sem d\u00favida, diferentes: enquanto a rela\u00e7\u00e3o das maiores ag\u00eancias de publicidade, em todo o mundo, \u00e9 determinada por seu faturamento; a rela\u00e7\u00e3o dos maiores jornais em todo o mundo \u00e9 determinada por sua tiragem. O mercantilismo da publicidade, indispens\u00e1vel para a sobreviv\u00eancia do nosso setor, n\u00e3o creio deva conviver de forma incestuosa com a atividade jornal\u00edstica.<\/p>\n<p>Quando deixei a Publicidade \u2013 curiosidade satisfeita \u2013 e retornei \u00e0 reda\u00e7\u00e3o, o primeiro susto foi descobrir que j\u00e1 n\u00e3o havia mais uma s\u00f3 m\u00e1quina de escrever. No lugar delas, computadores. Eu, criado em meio ao tumulto que caracterizava as reda\u00e7\u00f5es com m\u00e1quinas de escrever at\u00e9 meados dos anos 80, vi-me de um momento para outro absolutamente impotente. Com vergonha, socorri-me de meu filho ca\u00e7ula, Frederico, ent\u00e3o com 10 anos de idade e lhe pedi algumas aulas. O garoto percebeu o que eu n\u00e3o conseguia esconder: o constrangimento. E disse-me, em uma mistura da inoc\u00eancia da idade e do esp\u00edrito solid\u00e1rio que caracteriza a inf\u00e2ncia:<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o se preocupe, pai. Se eu aprendi r\u00e1pido a mexer com um computador, voc\u00ea tamb\u00e9m aprender\u00e1. Mas, voc\u00ea sabe fazer jornal e eu, se quiser, vou demorar muito a aprender isso.<\/p>\n<p>Sim, eu senti orgulho de meu filho. Mas, sobretudo, fico-lhe ainda hoje agradecido pela li\u00e7\u00e3o. Pela li\u00e7\u00e3o que me permitiu um repensar de valores. Durante a primeira metade de minha carreira como jornalista, convivi com algumas realidades que pareciam eternas, definitivas. A mesma realidade que me satisfazia quando via impressa nas p\u00e1ginas de um jornal o resultado de horas e horas de trabalho na reda\u00e7\u00e3o, submetia-me ao poder ditatorial daquele monstro que trovejava toda noite, cuspindo intermitentes cadernos impressos. N\u00f3s, jornalistas, t\u00ednhamos a sensa\u00e7\u00e3o de sermos apenas meio de alimentar a m\u00e1quina. Mas, manique\u00edstas, acredit\u00e1vamos contraditoriamente que n\u00f3s, jornalistas, \u00e9ramos a alma \u00fanica do jornalismo. Pobres mortais, aliment\u00e1vamos ent\u00e3o uma prepot\u00eancia que, em tudo e por tudo, ia contra a humildade \u00e9tica que deve pautar cada uma de nossas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por isso, em especial para mim, foi como um divisor de \u00e1guas aquele semin\u00e1rio com os professores da Universidade de Navarra, no qual eles lan\u00e7aram a profecia da Sociedade da Informa\u00e7\u00e3o. Sim, o nosso trabalho, seja no jornal impresso em todas as suas formas, incluindo as revistas; seja nas r\u00e1dios, nas televis\u00f5es ou na web, \u00e9 apenas o de provedor de informa\u00e7\u00f5es, convivendo sob um respeito rec\u00edproco \u2013 n\u00e3o incestuoso \u2013 com a publicidade. O nosso campo \u00e9 a informa\u00e7\u00e3o editorial; mas as fontes de receita das empresas que nos abrem espa\u00e7o incluem tamb\u00e9m a informa\u00e7\u00e3o publicit\u00e1ria. Elas convivem com respeito, assim como a Medicina e a Veterin\u00e1ria. O equil\u00edbrio n\u00e3o \u00e9 uma utopia.<\/p>\n<p>Eu vivia este rito de passagem, entre o jornalismo rom\u00e2ntico e o futuro indecifr\u00e1vel, quando J\u00falio C\u00e9sar Mesquita, diretor de O Estado de S. Paulo, contou-me de seus planos de criar um programa capaz de permitir aos jovens jornalistas o acesso a uma grande reda\u00e7\u00e3o. O jornal O Estado de S. Paulo vivia, ent\u00e3o, um processo de intensas reformula\u00e7\u00f5es. Era uma empresa s\u00f3lida, rent\u00e1vel, com uma hist\u00f3ria de a\u00e7\u00e3o \u00e9tica iniciada em 1875 e, h\u00e1 mais de 100 anos, dirigida por integrantes de uma mesma fam\u00edlia. O processo de reformula\u00e7\u00e3o pelo qual passava a empresa, como acontece em todos os processos desse tipo, gerou alguns conflitos. Conhe\u00e7o poucas personalidades como a nossa, jornalistas, que tentamos nos qualificar como cavaleiros da nova era \u2013 a era de Aquarius \u2013 e s\u00e3o t\u00e3o refrat\u00e1rias \u00e0s mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>Pois naquela \u00e9poca perto de 50% dos jornalistas do Estado haviam deixado a reda\u00e7\u00e3o em meio aos processos de reformula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o havia, mesmo em S\u00e3o Paulo, cidade com 12 milh\u00f5es de habitantes e uma imprensa ativa e em permanente desenvolvimento, um contingente de 100 jornalistas qualificados, para ser arregimentado em apenas poucos meses. O que ocorreu, ent\u00e3o, foi que profissionais que deixavam a reda\u00e7\u00e3o do Estado retornavam ap\u00f3s algum tempo. Isto despertou a aten\u00e7\u00e3o de J\u00falio C\u00e9sar Mesquita. Ele se questionou:<\/p>\n<p>\u2013 Onde est\u00e3o os novos profissionais? Precisamos encontr\u00e1-los e traz\u00ea-los para n\u00f3s.<\/p>\n<p>Este questionamento o levou \u00e0 conversa \u00e0 qual me referi h\u00e1 pouco. Eu havia, h\u00e1 alguns anos e antes de ir saciar minha curiosidade com a Publicidade, administrado com algum sucesso um processo de arregimenta\u00e7\u00e3o de novos talentos para o Estado. Da\u00ed o convite que ele me fez para criar um programa de treinamento e qualifica\u00e7\u00e3o de jovens jornalistas.<\/p>\n<p>O convite me permitiu, hoje tenho certeza, iniciar um dos per\u00edodos mais gratificantes de minha carreira profissional. Permitiu-me fazer o rito da passagem entre o jornalista do passado e o jornalista que hoje se exige. E que, cada vez mais, se desenha para o futuro breve.<\/p>\n<p>O Curso Intensivo de Jornalismo Aplicado, mantido h\u00e1 18 anos pelas reda\u00e7\u00f5es que integram o Grupo Estado, \u00e9 hoje um dos principais provedores de m\u00e3o de obra qualificada para as mais importantes empresas do Pa\u00eds. Desde o in\u00edcio o definimos como uma iniciativa aberta, franqueada ao mercado como um todo. N\u00e3o temos a pretens\u00e3o de sermos detentores exclusivos dos novos talentos do jornalismo brasileiro. Oferecemos ao mercado, de forma aberta, o curr\u00edculo de todos os jovens jornalistas que freq\u00fcentaram nosso programa de treinamento. E, com o mercado, disputamos a sua prefer\u00eancia. Temos sido bem sucedidos: cerca de 40% dos jovens que freq\u00fcentaram nosso programa integraram as reda\u00e7\u00f5es do Grupo Estado. S\u00e3o mais de 200 jornalistas que arejam nossas reda\u00e7\u00f5es, injetando-lhes o oxig\u00eanio da juventude e convivendo em harmonia com os veteranos.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns poucos anos, quando a ebuli\u00e7\u00e3o do mercado imposta pelas empresas web promoveu uma migra\u00e7\u00e3o forte nas reda\u00e7\u00f5es, O Estado de S. Paulo foi, por certo, um dos ve\u00edculos que a enfrentou com menos trauma. Para substituir os 80 jornalistas que, em tr\u00eas meses, migraram para as empresas web, t\u00ednhamos o Banco Estado de Talentos. A par, naturalmente, da satisfa\u00e7\u00e3o pessoal que nos d\u00e1 a constata\u00e7\u00e3o de termos ex-alunos de nosso programa, em posi\u00e7\u00e3o de destaque, em todas as grandes reda\u00e7\u00f5es brasileiras. E tamb\u00e9m no Exterior.<\/p>\n<p>Um dos mais respeitados estudiosos brasileiros da \u00c9tica no Jornalismo, o professor Carlos Alberto Di Franco, costuma dizer \u2013 e escrever \u2013 que a gest\u00e3o de uma reda\u00e7\u00e3o n\u00e3o se limita, tampouco se esgota, no trabalho diuturno da coleta dos fatos e da sua edi\u00e7\u00e3o, mas se amplia e se completa na busca di\u00e1ria e permanente, na busca incessante de descobrir e incentivar novos talentos.<\/p>\n<p>E \u00e9 exatamente isto que o jornal O Estado de S. Paulo vem fazendo h\u00e1 18 anos, com o seu Curso Intensivo de Jornalismo Aplicado. Ao contr\u00e1rio, muito ao contr\u00e1rio do que ocorria h\u00e1 20 ou 30 anos, o profissional que procuramos, treinamos e retemos em nossas reda\u00e7\u00f5es ou entregamos ao mercado, n\u00e3o \u00e9 apenas aquela pessoa afeita \u00e0 leitura, curiosa como era a minha av\u00f3 e, quase contraditoriamente, cultuadora de princ\u00edpios \u00e9ticos que a aproximam de um frade franciscano. Sim, o novo jornalista \u00e9 tudo isso que n\u00f3s pr\u00f3prios somos, mas \u00e9, tamb\u00e9m, um profissional comprometido com os resultados do seu trabalho que, no final, resulta nos resultados da pr\u00f3pria empresa.<\/p>\n<p>Para o jovem profissional, o computador de hoje, como a m\u00e1quina de escrever e o linotipo de ontem; a impressora, a internet, as m\u00e1quinas fotogr\u00e1ficas digitais, os notebooks, os sat\u00e9lites e toda a parafern\u00e1lia tecnol\u00f3gica de que dispomos s\u00e3o ferramentas, n\u00e3o mais que ferramentas que nos permitem exercer nossa profiss\u00e3o. Atividade que tem um objetivo, um \u00fanico objetivo: o consumidor da informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aos jovens profissionais do jornalismo que acolhemos todos os anos em nosso programa e que s\u00e3o selecionados dentre os quase 3 mil que anualmente postulam um dos 30 lugares que oferecemos, insistimos, insistimos muito em que, a par do dom\u00ednio absoluto do idioma e das ferramentas que lhe s\u00e3o oferecidas, eles devem assumir um compromisso \u00e9tico por inteiro. O compromisso \u00e9tico que propugnamos inclui, mas vai al\u00e9m dos princ\u00edpios que nos foram legados pelos que fizeram do jornal O Estado de S. Paulo um sin\u00f4nimo de jornalismo respons\u00e1vel e comprometido exclusivamente com o interesse coletivo. A \u00e9tica que esperamos \u2013 e cobramos \u2013 dos novos profissionais \u00e9 a \u00e9tica n\u00e3o do envolvimento, mas do comprometimento absoluto com a qualidade no seu sentido mais amplo.<\/p>\n<p>Assim como consideramos \u00e9tica a luta do profissional por uma melhor qualidade de vida, cremos \u00e9tica a sua preocupa\u00e7\u00e3o com as varia\u00e7\u00f5es do pre\u00e7o mundial do papel de imprensa. Como deve igualmente ser um compromisso \u00e9tico a sua busca permanente pela pr\u00f3pria evolu\u00e7\u00e3o profissional. \u00c9tico \u00e9 o jornalista que reivindica melhores sal\u00e1rios, como \u00e9tico \u00e9 o profissional consciente de que o objetivo do nosso trabalho \u00e9 chegar a tempo \u2013 e com qualidade \u2013 na resid\u00eancia dos nossos assinantes e nas telas do seu computador.<\/p>\n<p>* <em>Francisco Ornellas, jornalista, \u00e9 coordenador do Curso Intensivo de Jornalismo Aplicado do Grupo Estado<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em><strong>por Francisco Ornellas<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Quase 20 anos atr\u00e1s, em um semin\u00e1rio com professores da Universidade de Navarra, na Espanha, ouvi deles uma afirma\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica: a humanidade estaria ent\u00e3o \u00e0s v\u00e9speras de uma nova era.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-10886","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uns-e-outros"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10886","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10886"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10886\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18571,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10886\/revisions\/18571"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10886"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10886"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10886"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}