{"id":10887,"date":"2008-02-12T00:00:00","date_gmt":"2008-02-12T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:04:20","modified_gmt":"2017-09-14T04:04:20","slug":"nasci-e-dogiva","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/nasci-e-dogiva\/","title":{"rendered":"Nasci e Dogiva"},"content":{"rendered":"<p>PARTE 1 &#8211; O DILEMA<\/p>\n<p>Essa hist\u00f3ria cabeluda, do uso indevido dos cart\u00f5es corporativos por funcion\u00e1rios \u2013graduados ou n\u00e3o \u2013 do Governo Federal, me fez lembrar outra, que nos divertiu a valer \u2013 o pessoal daquele boteco que n\u00e3o mais existe entre a rua Bom Pastor e a rua Grenfeeld, onde o Sacoman, mais do que nunca, continua torcendo o rabo. Agora, registre-se, por obra e gra\u00e7a da futura esta\u00e7\u00e3o Ipiranga do Metr\u00f4.<\/p>\n<p>\u00c9 inesquec\u00edvel tamb\u00e9m porque foi uma das raras vezes em que o mestre dos mestres, Nasci, n\u00e3o p\u00f4de prever e, de um jeito at\u00e9 rom\u00e2ntico, arcou com os preju\u00edzos.<\/p>\n<p>Era um fim de tarde desses, entre o chove e n\u00e3o-chove, entre o sim e o n\u00e3o. Uma quinta-feira de cinzas, como hoje, modorrenta em que at\u00e9 convite para reuni\u00e3o de condom\u00ednio surge como um bom programa.<\/p>\n<p>O assunto, \u00f3bvio, era o rescaldo do carnaval. Quem ganhou e quem perdeu nos desfiles de escola de samba do Rio de Janeiro, qual a gostosa da vez, quem pulou a cerca, quem viajou, quem trabalhou, quem ficou mofando em casa, essas bobagens t\u00edpicas desses dias vadios&#8230;<\/p>\n<p>Detalhe: o Nasci n\u00e3o aceitava discutir o carnaval de rua paulistano.<\/p>\n<p>&#8212; O Poetinha j\u00e1 falou e eu concordo com ele. S\u00e3o Paulo \u00e9 o t\u00famulo do samba.<\/p>\n<p>O Mestre era implac\u00e1vel em suas verdades absolutas. E, em termos de escola de samba, s\u00f3 fazia uma concess\u00e3o \u00e0 Vai-Vai.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 a \u00fanica escola que ainda temos. As demais s\u00e3o um aglomerado de burguesotes que nada tem a ver com carnaval.<\/p>\n<p>Nem todos concordavam com o Nasci. Mas, poucos ousavam discordar porque o homem era uma enciclop\u00e9dia tamb\u00e9m nessa \u00e1rea. Quando ele come\u00e7ava a tergiversar sobre as origens do batuque paulista em Bom Jesus de Pirapora dava para se escrever uma tese acad\u00eamica. Pior era quando n\u00e3o deixava sa\u00edda para o eventual interlocutor.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea j\u00e1 ouviu falar em Geraldo Filme? Toniquinho? Sinval? Ent\u00e3o, v\u00e1 se informar e depois volte aqui para continuarmos a discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Mas, nesse tarde, talvez temperados pela letargia de um dia sem gra\u00e7a ou porque alguns ainda regorgitavam uma ressaca daquelas, poucos falavam e rigorosamente ningu\u00e9m ouvia. <\/p>\n<p>O clima era esse at\u00e9 que o Dogival apareceu \u2013 sabia que conhecia esse nome de algum lugar e n\u00e3o era s\u00f3 da novela das oito. <\/p>\n<p>Dogival era um rep\u00f3rter policial. Nada brilhante, mas esfor\u00e7ado que s\u00f3. Chegou afobado, veio falar com o Mestre porque fora designado para cobrir o lan\u00e7amento de uma novela global, nos sal\u00f5es do J\u00f3ckey Club de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>O colunista de TV, Ismael Fernandes, estava hospitalizado \u2013 e afastado das suas fun\u00e7\u00f5es. Saiu na comiss\u00e3o de frente da Imperador do Ipiranga. Ficou seis horas esperando a vez de entrar na avenida Tiradentes \u2013 \u00e0quele tempo a Globo n\u00e3o patrocinava os desfiles, por isso a bagun\u00e7a era generalizada e os atrasos t\u00e3o comuns quanto as declara\u00e7\u00f5es de vit\u00f3ria dos componentes de todas as agremia\u00e7\u00f5es. A fantasia era feita de cetim dos mais vagabas, fininho, fininho. Resultado: o IF pegou uma friagem daquelas, com direito \u00e0 bronquite e dias de reclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Por isso, o Dogiva era o cara. Foi o primeiro que chegou \u00e0 reda\u00e7\u00e3o para passar as ocorr\u00eancias do feriad\u00e3o, o n\u00famero de acidentes nas estradas, a ronda nos distritos \u2013 e n\u00e3o teve conversa. O editor falou que tinha uma pauta que era \u201cmam\u00e3o com a\u00e7\u00facar\u201d.<\/p>\n<p>Agora o rep\u00f3rter estava diante do Nasci, com uma pergunta, que por si s\u00f3, j\u00e1 era refr\u00e3o de um velho samba:<\/p>\n<p>&#8212; Com que roupa eu vou?<br \/>\nCriador e Criatura (Nasci e Dogiva \u2013 parte II)<br \/>\n08\/02\/2008 <\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Como sempre acontecia em ocasi\u00f5es assim, as conversas cessaram diante da quest\u00e3o, de vida ou morte, colocada pelo nosso considerado Dogiva.<\/p>\n<p>Com que roupa o rep\u00f3rter \u201cde porta de cadeia\u201d se apresentaria num evento repleto de celebridades? \u00c9 certo que o termo ainda n\u00e3o estava t\u00e3o em voga, mas a mudan\u00e7a era das grandes, ah, isso era mesmo&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Quem diria, hein? Todo Dogiva tem seu dia de Amaury J\u00fanior \u2013 ponderou o Cebola, um dos nossos, com uma vis\u00edvel ponta de inveja.<\/p>\n<p>&#8212; Mas, \u00e9 uma inveja do bem \u2013 esclareceu logo.<\/p>\n<p>Enquanto o Nasci dava longas baforadas em seu cachimbo, com ares circunspectos, olh\u00e1vamos desesperan\u00e7ados para o pobre Dogiva e seu tradicional uniforme de batalha. A botina de camur\u00e7a que cal\u00e7ava era dos idos de 70, assim como o casaco verde-oliva sobre a camiseta branca e o velho jeans, mais desbotado que azul.<\/p>\n<p>Percebendo as inten\u00e7\u00f5es da turba, Dogival deixou claro que pedira ajuda, sim. Mas, havia limites que n\u00e3o ousaria ultrapassar.<\/p>\n<p>&#8212; Gravata, n\u00e3o. Nem pensar&#8230;<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Foi a deixa para o Nasci tomar a palavra.<\/p>\n<p>&#8212; A coisa \u00e9 mais simples do que se imagina. Vamos fazer o poss\u00edvel. Milagre \u00e9 outro departamento. O ET fica mais \u00e0 vontade de terno e gravata do que o nosso amigo, Dogiva, sem querer ofender, mas j\u00e1 ofendendo&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se j\u00e1 lhes contei em cr\u00f4nicas anteriores, mas o Nasci fora produtor da TV Record. Mais exatamente do Blota J\u00fanior Show, um programa de entrevistas de fim-de-noite na Record, em que um certo J\u00f4 Soares come\u00e7ou como rep\u00f3rter&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Vamos mudar s\u00f3 b\u00e1sico. Algu\u00e9m empresta um sapato para o rapaz que essa botina ningu\u00e9m merece. O jeans fica esse mesmo, assim rasgadinho e gasto. V\u00e3o achar que \u00e9 um rep\u00f3rter descolado. O Dogiva troca essa camiseta imunda \u2013 e eu vou lhe emprestar o meu \u2018summer\u2019 (na verdade, um palet\u00f3 branco) e tenho certeza que voc\u00ea far\u00e1 um bom papel&#8230;<\/p>\n<p>Desnecess\u00e1rio dizer. O Nasci tinha sempre raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Horas depois, antes de seguir para o rega-bofe, um elegante Dogival passou pelo boteco para agradecer aos amigos e dar a tradicional talagada de aquecimento.<\/p>\n<p>O cara n\u00e3o faria feio na tal de Fashion Week da vida. <\/p>\n<p>Est\u00e1vamos orgulhosos da nossa cria\u00e7\u00e3o. Nasci, por\u00e9m, fez quest\u00e3o de lembrar \u00e0 criatura.<\/p>\n<p>&#8212; Dogival, meu amigo, seja simp\u00e1tico. Educa\u00e7\u00e3o em primeiro lugar. Esquece os jarg\u00f5es policiais e, lembre-se, a mulherada ali \u00e9 de perder a cabe\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Parece que o Mestre estava adivinhando&#8230;<\/p>\n<p>PARTE 2 &#8211; O DIA SEGUINTE<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>No dia seguinte, amanhecemos nas bancas para ler a estr\u00e9ia de Dogiva no mundo das celebridades. Nada encontramos. Ou melhor, o assunto fora, como s\u00f3 e acontecer, meticulosamente destrinchado na coluna do Ismael Fernandes. Ao que tudo levava a crer, o homem saiu do hospital direto para a festa da nova novela da Globo.<\/p>\n<p>E o Dogival, que tanto se preparara, o que teria sido do amigo?<\/p>\n<p>&#8212; Beleza, gente. Estou devolvendo os badulaques que voc\u00eas me emprestaram, com sinceros agradecimentos e, certo estou, que jamais esquecerei o que fizeram por mim. Para os amigos, tudo&#8230;<\/p>\n<p>Era o velho rep\u00f3rter policial chegando e no melhor estilo. Bom ver o amigo bem humorado. Como de h\u00e1bito, respondemos em coro \u00e0 provoca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Para os inimigos, apenas a lei&#8230;<\/p>\n<p>Mas, caramba, imagin\u00e1vamos o homem arrasado. Tanto se preparara para a mat\u00e9ria \u2013 e, no fim, n\u00e3o escreveu uma linha sequer sobre o assunto.<\/p>\n<p>Ele explicou numa boa, e sorriu um riso suspeito de quem havia se dado bem.<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o, quando eu cheguei l\u00e1, o Ismael j\u00e1 estava canetando Deus e o Tarcis\u00e3o. Disse que n\u00e3o perderia esse lan\u00e7amento por nada no mundo. Que era um especialista em novela. Voc\u00eas sabem, o Ismael sabe tudo nessa \u00e1rea. Fiquei chateadinho, mas n\u00e3o por muito tempo.<\/p>\n<p>Dogival tomou f\u00f4lego e continuou:<\/p>\n<p>&#8212; Estava consultando meu bloquinho para ver o que sobraria para eu fazer hoje quando voltasse de m\u00e3os vazias para a reda\u00e7\u00e3o, quando ouvi uma voz suave a me perguntar: \u201cPosso saber o que voc\u00ea tanto escreve a\u00ed?\u201d<\/p>\n<p>VI. <\/p>\n<p>Posso assegurar, senhores, que a hist\u00f3ria ganhou, a partir daquele momento, contornos de aventura para n\u00f3s. Todos se colocaram no lugar do rep\u00f3rter.<\/p>\n<p>&#8212; Ia responder que n\u00e3o era l\u00e1 da conta da distinta. N\u00e3o deu tempo. A hora que olhei aquele monumento, falei o que podia e o que n\u00e3o podia. A mo\u00e7a parece que gostou, pois n\u00e3o desgrudou de mim a festa toda. Dispensou at\u00e9 o motorista particular, dizendo que preferia ir comigo.<\/p>\n<p>Todos fechamos os olhos num arrepio. Lembramos, de imediato do chevetinho bala, do amigo. A mo\u00e7a parecia ser uma dessas dondocas, da alta. Como enfrentaria aquela jabiraca de tempos idos, vividos e havidos? O que ela diria das almofadinhas de croch\u00ea que enfeitavam o banco traseiro e serviam de travesseiro para quando os filhos estavam com sono?<\/p>\n<p>&#8212; Na boa, meus queridos. Ela disse que era um cara todo estiloso \u2013 e um carro daqueles era mesmo uma excentricidade. Completou dizendo que adorava exc\u00eantricos.<\/p>\n<p>Claro, claro que, olhando a estampa do Dogival e a hist\u00f3ria que estava contando, algu\u00e9m lembrou outro mote muito comum entre os nossos. \u201cFogo, morro acima. \u00c1gua, morro abaixo. Mulher quando&#8230; cisma, ningu\u00e9m segura\u201d.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>&#8212; Pois \u00e9, figuras, quem \u00e9 \u00e9. Quem n\u00e3o \u00e9 n\u00e3o se conforma&#8230;<\/p>\n<p>Mas, e a\u00ed, conta o resto, pedimos. Pedimos, n\u00e3o. Quase imploramos. <\/p>\n<p>E ele n\u00e3o se fez de rogado.<\/p>\n<p>PARTE 3 &#8211; O REI DO PEDA\u00c7O<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>Com ares de fanfarr\u00e3o, esse Dogival nenhum de n\u00f3s conhecia.<\/p>\n<p>&#8212; Pois, ent\u00e3o senhores, pe\u00e7am mais cerveja e sentem, pois l\u00e1 vem hist\u00f3ria. Primeiro, ela sugeriu que fossemos a um restaurante.<\/p>\n<p>&#8212; E voc\u00ea? \u2013 perguntei.<\/p>\n<p>&#8211;Topei, l\u00f3gico. Educado, como o Nasci me recomendou, deixei que escolhesse o local. Rodamos um tantinho e paramos em frente a um desses casar\u00f5es antigos, bonitos que s\u00f3 vendo, todo iluminado. Ela disse: \u201c\u00e9 aqui\u201d, com um sorriso lindo, lindo.<\/p>\n<p>&#8212; Devia ser caro? \u2013 palpitou outro curioso.<\/p>\n<p>&#8212; Para voc\u00eas terem uma id\u00e9ia, na hora senti tremer o cart\u00e3o de cr\u00e9dito que estava no bolso. Mas, beleza. Deixei a chave do Chevettinho com o recepcionista que me olhou desconfiado e logo apressou o manobrista dizendo: \u201cEsconde essa bicheira bem escondidinha para n\u00e3o assustar a clientela\u201d.<\/p>\n<p>&#8212; E voc\u00ea? \u2013 mais um dos nossos aparteou.<\/p>\n<p>&#8212; Eu, educado como Nasci ensinou e com aquele mulher\u00e3o, fiz que n\u00e3o ouvi. Sentamos e ela pediu o menu e a carta de vinho. Fique \u00e0 vontade, eu disse. Ela, ali\u00e1s, j\u00e1 estava. S\u00f3 o cart\u00e3o que voltou a se inquietar no bolso&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ele estava com medo de derreter \u2013 eu disse.<\/p>\n<p>&#8212; E n\u00e3o era para menos. Hora e meia depois, quando veio a conta, preferi nem ver. Uma baita fileira de zeros pra atr\u00e1s dos primeiros d\u00edgitos. Mas, relevei, n\u00e3o estava lidando com a bandidagem, foi isso o que o Nasci me disse e por isso nem conferi. Depois, meu cora\u00e7\u00e3o ficou transtornado quando ela pediu jeitosa: \u201cMe leva para o seu flat?\u201d Passei o cart\u00e3o na boa \u2013 e fomos embora.<\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>\u201cFlat!\u201d \u2013 todos exclamaram. <\/p>\n<p>Desde quando o Dogival morava em flat. Que a gente sabia o cara mora num sobradinho de aluguel, ali, no Moinho Velho. <\/p>\n<p>Flat?<\/p>\n<p>&#8212; Meus caros, quem est\u00e1 na chuva \u00e9 para se molhar. Embiquei o carro na dire\u00e7\u00e3o de Moema e entrei no primeiro que apareceu. Voc\u00eas precisavam ver a express\u00e3o da mo\u00e7a quando entramos. Perguntou se eu conhecia os bacanas que se hospedavam ali, quando vinham a S\u00e3o Paulo. Deu uma rela\u00e7\u00e3o de nomes de pol\u00edticos, artistas, empres\u00e1rios \u2013 todos magnatas.<\/p>\n<p>&#8212; E voc\u00ea desconversou? \u2013 algu\u00e9m provocou.<\/p>\n<p>&#8212; Fui meio c\u00ednico, confesso. Mas, foi necess\u00e1rio. Respondi, j\u00e1 dando um \u2018chega mais\u2019 na mo\u00e7a: \u201cAmorzinho, aqui, s\u00e3o eles que me conhecem. Sou o Rei do Peda\u00e7o. Mando prender e mando soltar\u201d. Foi uma noite maravilhosa \u2013 e n\u00e3o vou entrar em detalhes porque, como bem disse o Nasci, sou um cara educado. E n\u00e3o \u00e9 de bom tom ficar expondo assim, aos olhos de gabirus como voc\u00eas, tudo o que rolou naquele quarto. Direi apenas que nosso caf\u00e9 da manh\u00e3 foi regado a champagne francesa. Ulal\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>X.<\/p>\n<p>Enfim, o Nasci, prevendo o pior, se pronunciou:<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 claro que voc\u00ea pagou com o cart\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Sou um cara educado, como voc\u00ea me ensinou. Cart\u00e3o \u00e9 mais elegante.<\/p>\n<p>&#8212; E nem olhou o tamanho da encrenca.<\/p>\n<p>&#8212; Um exc\u00eantrico, como ela disse. Passei o cart\u00e3o e pronto.<\/p>\n<p>&#8212; S\u00f3 uma perguntinha, Dogiva.<\/p>\n<p>&#8212; Fique \u00e0 vontade, Mestre.<\/p>\n<p>&#8212; Como voc\u00ea imagina pagar a fatura que, amanh\u00e3 ou depois, vai chegar na tua casa.<\/p>\n<p>&#8212; Na minha casa n\u00e3o, Nasci.<\/p>\n<p>&#8212; Como assim? <\/p>\n<p>&#8212; Vai chegar na sua casa, Mestre. Achei o cart\u00e3o no bolso do palet\u00f3. Do seu palet\u00f3. <\/p>\n<p>PARTE 4 &#8211; POSF\u00c1CIO<\/p>\n<p>Querer, querer, eu n\u00e3o queria. Mas, vou retomar a hist\u00f3ria de ontem para que voc\u00eas n\u00e3o confundam meus textos com aqueles filmes franceses, sem p\u00e9 nem cabe\u00e7a, que terminam quando a gente imagina que a hist\u00f3ria vai engrenar.<\/p>\n<p>\u00c9 uma r\u00e1pida panor\u00e2mica do que aconteceu ap\u00f3s Dogival contar para o Nasci \u2013 e para o mundo \u2013 que torrou uma grana preta no cart\u00e3o de cr\u00e9dito do nosso amigo e Mestre dos Mestres&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Para os amigos tudo&#8230;<\/p>\n<p>Lembram? Era este o nosso lema \u2013 e continuou sendo. <\/p>\n<p>O Nasci n\u00e3o xingou, nem esperneou. Foi breve no se veredicto.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o vou por um p&#8230; do meu bolso para liquidar esta fatura. Tratem de se cotizarem para saldar a Noite de Cinderela do nosso amigo Dogiva. A \u2018escandalosa\u2019 vence dia 10. Virem-se&#8230; Para os amigos tudo, inclusive a fatura.<\/p>\n<p>Isto posto, bateu o cachimbo na quina do balc\u00e3o para limp\u00e1-lo e pediu mais uma rodada de cerveja para turma toda.<\/p>\n<p>Foi o que aconteceu. <\/p>\n<p>Nas semanas seguintes, foi um impressionante circular de rifas \u2013 daquelas em que o incauto tem de escolher um nome para ver se \u00e9 o que est\u00e1 escondido no alto da cartela \u2013 valendo todo tipo de tranqueira que t\u00ednhamos em casa. De r\u00e1dio-rel\u00f3gio usado a cord\u00e3o de ouro que deixava o pesco\u00e7o do fulano verde. <\/p>\n<p>Do nosso ass\u00e9dio n\u00e3o escapou nem o sogro do Dogival que um dia apareceu no boteco para saber not\u00edcias do genro.<\/p>\n<p>&#8212; Ele anda se perfumando todo, ri \u00e0 toa e deu de comprar roupa nova todo dia. O que est\u00e1 acontecendo com ele? <\/p>\n<p>Deduzimos que o romance continuava, mas o amigo se fechara em copas \u2013 e nada nos contara.<\/p>\n<p>Relevamos. <\/p>\n<p>Vida que segue.<\/p>\n<p>Apuramos o que pudemos em grana e passamos ao Nasci, que se fez de indiferente.<\/p>\n<p>&#8212; O que faltar eu completo, rapaziada.<\/p>\n<p>E explicou o motivo:<\/p>\n<p>&#8212; Se estivesse no lugar dele, faria o que ele fez. \u00c9 compreens\u00edvel. Agora, se voc\u00eas estivessem no meu lugar, certamente fariam o que eu fiz.<\/p>\n<p>Mais corporativo que isso, imposs\u00edvel. Mas, sincero&#8230;<\/p>\n[Texto publicado no livro &quot;Meus Caros Amigos \u2013 Cr\u00f4nicas sobre jornalistas, bo\u00eamios e paix\u00f5es&quot;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PARTE 1 &#8211; O DILEMA<\/p>\n<p>Essa hist\u00f3ria cabeluda, do uso indevido dos cart\u00f5es corporativos por funcion\u00e1rios \u2013graduados ou n\u00e3o \u2013 do Governo Federal, me fez lembrar outra, que nos divertiu a valer \u2013 o pessoal daquele boteco que n\u00e3o mais existe entre a rua Bom Pastor e a rua Grenfeeld,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-10887","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10887","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10887"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10887\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13965,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10887\/revisions\/13965"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10887"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10887"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10887"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}