{"id":10890,"date":"2008-02-28T00:00:00","date_gmt":"2008-02-28T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:53:37","modified_gmt":"2017-09-15T19:53:37","slug":"bloco-de-anotacoes-o-magnata-triste","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/bloco-de-anotacoes-o-magnata-triste\/","title":{"rendered":"Bloco de anota\u00e7\u00f5es &#8211; O magnata triste"},"content":{"rendered":"<p>Quando eu l\u00e1 cheguei numa tarde qualquer de janeiro, a fama do homem j\u00e1 corria solta e logo chegou aos meus ouvidos. Tratava-se de um magnata espanhol, provavelmente um empres\u00e1rio exc\u00eantrico. De idade incerta e ares circunspectos. Todo m\u00eas ele aparecia pelo charmoso Hotel de San Polo, na cidade de Salamanca. Ficava um, dois dias \u2013 e, t\u00e3o silencioso quanto chegava, partia sem maiores explica\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>Havia um tom de mist\u00e9rio que a todos instigava.<\/p>\n<p>Diziam que o hospede vinha \u2018pagar\u2019 uma promessa, pois passava horas a caminhar pelo que restou da igreja de San Paolo. <\/p>\n<p>Preciso lhes explicar.<\/p>\n<p>Este hotel foi constru\u00eddo no espa\u00e7o onde existiu o templo que desmoronou l\u00e1 nos antigamente. Num oportuno projeto arquitet\u00f4nico, parte dessas ru\u00ednas foi preservada e est\u00e1 acoplada ao estabelecimento em forma grande \u00e1rea livre que, em dias ensolarados, serve de terra\u00e7o para os h\u00f3spedes.<\/p>\n<p>Acrescente-se que o piano-bar e a cafeteria do hotel t\u00eam sa\u00edda para o local.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, foi por uma dessas portas que vi o tal entrar a escapar dos rigores do inverno espanhol na manh\u00e3 seguinte. <\/p>\n<p>Intui que fosse ele. <\/p>\n<p>Intui tamb\u00e9m que talvez eu estivesse a ponto de desvendar o propalado mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>N\u00e3o era uma quest\u00e3o religiosa. <\/p>\n<p>N\u00e3o eram quest\u00f5es de trabalho. <\/p>\n<p>Menos ainda eventuais lembran\u00e7as de quem ali viveu nos tempos de estudante (afinal, a cidade tem uma das mais tradicionais universidades europ\u00e9ias).<\/p>\n<p>Lembrei dos ensinamentos do amigo Nasci na velha reda\u00e7\u00e3o de assoalho de t\u00e1buas largas. Quando algo n\u00e3o se encaixava como seria o natural, ele diagnosticava:<\/p>\n<p>&#8212; Esse ch\u00e3o pode afundar agora, se eu estiver errado. Tem mulher na parada.<\/p>\n<p>Desconfio que a reda\u00e7\u00e3o permanece l\u00e1 ainda hoje. <\/p>\n<p>Ele n\u00e3o errava.<\/p>\n<p>Particularmente, tamb\u00e9m apostei nessa linha de investiga\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Um romance clandestino. Me preparei para ver surgir uma bailarina flamenca. Ou mesmo a insinuante mulher de algum toureiro. Sei l\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>No entanto, tudo clareou rapidinho. Bastou observar o modo \u201cpid\u00e3o\u201d com que o senhor olhou para a mo\u00e7a da cafeteria ao solicitar \u201cum expresso na mesa\u201d. Sentou-se num lugar estrat\u00e9gico \u2013 ainda a olh\u00e1-la \u2013 e esperou, digamos, esperan\u00e7oso, que ela fosse servi-lo.<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe tirei a raz\u00e3o na hora \u2013 e agora..<\/p>\n<p>A bem da verdade, era uma mulher bonita, de tra\u00e7os finos, que lembrava a atriz Pen\u00e9lope Cruz quando mais jovem. Tinha um jeito simp\u00e1tico e o uniforme marinho lhe ca\u00eda super bem. Era obviamente uma mo\u00e7a elegante. S\u00f3 o n\u00e3o abotoar o primeiro bot\u00e3o da blusa j\u00e1 lhe dava um toque todo especial e quebrava toda a rigidez da roupa de trabalho.<\/p>\n<p>Fazia jus a aten\u00e7\u00e3o que, indiferente, recebia.<\/p>\n<p>Para ser franco, estou certo que nem ela se dava conta da situa\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Continuava por ali a organizar copos e talheres, a cuidar do balc\u00e3o, a tirar o caf\u00e9 do homem que, de resto, mostrava-se embevecido, apaixonado.<\/p>\n<p>T\u00e3o embevecido que se assustou ao ouvir o som da sineta que ela pr\u00f3pria fez soar.<\/p>\n<p>Logo apareceu um latino gorducho \u2013 para mim, era boliviano \u2013 envergando um smoking  de gar\u00e7om, cabelo negro penteado todo para tr\u00e1s, endurecido \u00e0 base de gel. <\/p>\n<p>Reparei que ele tamb\u00e9m era s\u00f3 sorriso para a mo\u00e7a. <\/p>\n<p>N\u00e3o disse palavra. Pegou a bandeja e foi servir o magnata. Que n\u00e3o gostou nada, nada da troca. Ali\u00e1s, me pareceu gostar menos ainda dos trelel\u00eas que os dois \u2013 o boliviano e a mo\u00e7a \u2013 engataram. Estava impl\u00edcito na conversa um alegre jogo de sedu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Que desconforto.<\/p>\n<p>Vi o homem tomar seu expresso rapidamente e, me pareceu, algo contrariado, sinceramente entristecido.<\/p>\n<p>Notei at\u00e9 um olhar de desconsolo naquele pr\u00f3spero empres\u00e1rio. Coisa passageira \u00e9 verdade. Mas, tenho certeza: ele daria todos os euros do mundo para estar, mesmo que por instantes, na pele do boliviano gorducho, prestes a cair nas gra\u00e7as da morena que lhe era inacess\u00edvel&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando eu l\u00e1 cheguei numa tarde qualquer de janeiro, a fama do homem j\u00e1 corria solta e logo chegou aos meus ouvidos. Tratava-se de um magnata espanhol, provavelmente um empres\u00e1rio exc\u00eantrico.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10890","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10890","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10890"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10890\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17027,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10890\/revisions\/17027"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10890"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10890"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10890"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}