{"id":10901,"date":"2008-03-09T00:00:00","date_gmt":"2008-03-09T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:53:30","modified_gmt":"2017-09-15T19:53:30","slug":"de-tempos-em-tempos-parte-4","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/de-tempos-em-tempos-parte-4\/","title":{"rendered":"De tempos em tempos &#8211; Parte 4"},"content":{"rendered":"<p>VI.<\/p>\n<p>Pois h\u00e1 que se viver enquanto \u00e9 tempo de&#8230;<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Um relato tocante sobre o tempo que n\u00e3o se recupera.<\/p>\n<p>Ela:<\/p>\n<p>Da \u00faltima vez que eu o vi, pude lhe dizer o quanto estava bonito. Palet\u00f3 de linho branco, desestruturado, sobre uma camiseta com listas horizontais, finas, em azul e branco. Cabelos em desalinho, raspados na nuca e o mesmo olhar de menino assustado que tanto me encantou desde que eu o conheci.  <\/p>\n<p>Ele ficou feliz &#8211; e algo sem gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Era um homem t\u00edmido e sens\u00edvel.<\/p>\n<p>Fui visit\u00e1-lo de surpresa num fim de tarde em seu est\u00fadio de trabalho. Amigos comuns me alertaram que ele n\u00e3o andava nada bem.  <\/p>\n<p>Me recebeu como de habito, elegante e af\u00e1vel, apesar do longo tempo em que n\u00e3o nos v\u00edamos. Em segundos, recuperamos a antiga cumplicidade. <\/p>\n<p>Quando percebemos j\u00e1 era noite. <\/p>\n<p>Pediu que eu jantasse com ele. N\u00e3o houve porqu\u00ea recusar.<\/p>\n<p>Tomamos sopa juntos &#8211; ele n\u00e3o podia comer nada pesado.<\/p>\n<p>E ele at\u00e9 me fez uma surpresa.<\/p>\n<p>Havia comprado bombons de damasco que eu tanto gosto. Trouxe em uma bandeja de cristal, alinhados em tr\u00eas fileiras. Ao me oferecer, tinha um sorriso sedutor e travesso. <\/p>\n<p>Perguntei qual a raz\u00e3o daquelas del\u00edcias ali, se n\u00e3o podia comer doces. Era muita tenta\u00e7\u00e3o, como ele resistia?<\/p>\n<p>Precisou de alguns segundos para responder:<\/p>\n<p>&#8212; F\u00e1cil. Os bombons e eu esper\u00e1vamos voc\u00ea.<\/p>\n<p>Vivi uma noite rara. De encanto e delicadezas. <\/p>\n<p>Colocamos a conversa em dia e at\u00e9 falamos confiantes do futuro que, esquecemos naquela fantasia, para ele talvez n\u00e3o existisse. <\/p>\n<p>No caminho de volta para casa, enquanto dirigia meu carro, me veio o sobressalto: a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o lhe restava muito tempo.<\/p>\n<p>Chorei em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Passaram-se alguns dias e ele me ligou. <\/p>\n<p>Conversamos sobre os planos que fizemos.<\/p>\n<p>Em seguida, me fez um convite.<\/p>\n<p>Queria que desenvolv\u00eassemos aqueles projetos juntos.<\/p>\n<p>Insistiu. <\/p>\n<p>Percebi uma certa ang\u00fastia naquele apelo.<\/p>\n<p>Estava com minha agenda profissional lotada de afazeres. N\u00e3o havia como escapar desses compromissos. Tentei lhe dizer. Mas, no fundo, eu sabia.<\/p>\n<p>Era uma estrat\u00e9gia. <\/p>\n<p>Ele tinha clareza de tudo. <\/p>\n<p>Mesmo assim, apostou viver cada segundo. <\/p>\n<p>Um gesto de coragem. <\/p>\n<p>Queria algu\u00e9m ao lado dele, com dedica\u00e7\u00e3o integral. Que ficasse o tempo inteiro por perto. Eu&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o pude aceitar.<\/p>\n<p>Na verdade, n\u00e3o tive for\u00e7as para aceitar. <\/p>\n<p>Fiquei com medo.<\/p>\n<p>Devo confessar.<br \/>\nMedo de v\u00ea-lo morrer,<\/p>\n<p>Foi ego\u00edsmo, talvez.<\/p>\n<p>Talvez n\u00e3o estivesse \u00e0 altura da miss\u00e3o.<\/p>\n<p>Sempre fui muito insegura. <\/p>\n<p>Hoje me arrependo.<\/p>\n<p>O que me custaria?<\/p>\n<p>Por vezes, passamos tanto tempo \u00e0 toa. <\/p>\n<p>Em outras, nos dedicamos a quem n\u00e3o merece.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o?<\/p>\n<p>Repito: o que me custaria?<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como voltar o tempo.<\/p>\n<p>Que tristeza.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, tem vez que acordo com a sensa\u00e7\u00e3o de nunca cheguei a lhe dizer, com todas as palavras que ele merecia ouvir, o quanto eu lhe amava e amo.<\/p>\n<p>Mesmo assim, no sonho\/del\u00edrio, ele sorri compreensivo e, sei l\u00e1 o motivo, h\u00e1 um perfume no ar. Um perfume bom de chocolate e damasco&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VI.<\/p>\n<p>Pois h\u00e1 que se viver enquanto \u00e9 tempo de&#8230;<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Um relato tocante sobre o tempo que n\u00e3o se recupera.<\/p>\n<p>Ela:<\/p>\n<p>Da \u00faltima vez que eu o vi,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10901","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10901","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10901"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10901\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17017,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10901\/revisions\/17017"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10901"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10901"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10901"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}