{"id":10921,"date":"2008-03-28T00:00:00","date_gmt":"2008-03-28T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:03:40","modified_gmt":"2017-09-14T04:03:40","slug":"o-amigo-de-janio","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-amigo-de-janio\/","title":{"rendered":"O amigo de J\u00e2nio"},"content":{"rendered":"<p>Vez ou outra me vem \u00e0 mente a figura do Jacob Meyer J\u00fanior perambulando pela Reda\u00e7\u00e3o com um volumoso caderno espiral. Carregava, encaixado sob o bra\u00e7o, o sonho de um dia publicar aquelas amarfanhadas anota\u00e7\u00f5es. O livro se chamaria O Presidente e narrava, segundo o autor, dos bastidores da vida e da carreira pol\u00edtica de J\u00e2nio Quadros, ent\u00e3o prefeito de S\u00e3o Paulo, entre 86 e 89.<\/p>\n<p>Ele queria que n\u00f3s, jornalistas, fossemos os primeiros a ler e corrigir aqueles \u201cmagn\u00edficos originais\u201d. Se fosse poss\u00edvel, publicasse a saga janista em m\u00f3dicos cap\u00edtulos semanais.<\/p>\n<p>Da nossa parte, trat\u00e1vamos de fugir do Jacob.<\/p>\n<p>Mas, gost\u00e1vamos muito dele.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Menino pobre em Piquete, Jacob veio para S\u00e3o Paulo cedo. Estudou contabilidade e, ainda estudante, foi picado pela mosca verde do janismo. Desde ent\u00e3o, era Deus no c\u00e9u e J\u00e2nio Quadros na terra.<\/p>\n<p>Quando o ent\u00e3o presidente renunciou, foi um dos dias mais tristes da vida de Jacob.<\/p>\n<p>Depois, com o ostracismo do \u00eddolo, o ent\u00e3o contador tratou de ganhar a vida. Prestou concurso para a Caixa Econ\u00f4mica Estadual e, n\u00e3o tardou, assumiu a ger\u00eancia da ag\u00eancia Silva Bueno, no Ipiranga, quase esquina com a rua dos Patriotas.<\/p>\n<p>Foi l\u00e1 que Jacob viveu at\u00e9 aposentar-se l\u00e1 pelos idos de 80, justamente quando J\u00e2nio voltava \u00e0 cena pol\u00edtica como candidato a governador de S\u00e3o Paulo (em 82, perdendo para Franco Montoro) e prefeito da Capital (em 85, derrotando nas urnas o candidato favorito das pesquisas, o ent\u00e3o senador Fernando Henrique Cardoso). <\/p>\n<p>Jacob ficou t\u00e3o feliz que resolveu tamb\u00e9m enfrentar o desafio das urnas. Candidatou-se a vereador em 88, com o slogan J\u00e1-J\u00e1. Ou seja, Jacob Meyer Filho para a C\u00e2mara Municipal e J\u00e2nio Quadros para a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica em 89.<\/p>\n<p>\u00d3bvio que o nosso her\u00f3i n\u00e3o ganhou. Mas, querem saber, divertiu-se pra valer.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>A come\u00e7ar pela estrat\u00e9gia de marketing. Sim, porque Jacob deu trato \u00e0 bola e lan\u00e7ou m\u00e3o, em sua campanha, de um esquema de capta\u00e7\u00e3o de votos que considerava \u201cperfeito\u201d. <\/p>\n<p>Ele sa\u00eda logo cedo de Polaroid em punho e andava por todo o Ipiranga. Tirava fotografia de quem encontrasse e se dissesse eleitor. A foto ficava pronta na hora. Jacob ia at\u00e9 o seu carro e a colava num calend\u00e1rio, feito especialmente para este fim. Com seu nome, n\u00famero e legenda.<\/p>\n<p>&#8212; Assim eles n\u00e3o t\u00eam como me esquecer. J\u00e1-J\u00e1 para vereador.<\/p>\n<p>Assumiu o codinome. Mas, n\u00e3o convenceu os eleitores. <\/p>\n<p>Distribuiu mais de 20 mil calend\u00e1rios, segundo o pr\u00f3prio Data-Jacob.<\/p>\n<p>Mas, teve pouco mais de 2 mil votos.<\/p>\n<p>&#8212; Valeu pelos amigos que fiz \u2013 dizia.<br \/>\nIV.<\/p>\n<p>H\u00e1 que se reconhecer. <\/p>\n<p>A pol\u00edtica nunca foi o forte de Jacob Meyer Filho.<\/p>\n<p>Era uma figura\u00e7a, um tanto alheia \u00e0 vida real.<\/p>\n<p>Gente bon\u00edssima.<\/p>\n<p>Vestia-se de ternos claros, gravatas floridas. <\/p>\n<p>Depois que se aposentou, adotou um chapel\u00e3o de panam\u00e1, como marca registrada.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, o chapel\u00e3o trouxe de uma das muitas pescarias que gostava de fazer no Pantanal.<\/p>\n<p>Em certa ocasi\u00e3o, para provar que era verdade as hist\u00f3rias de pescador que gostava de contar, enviou a um empres\u00e1rio do Ipiranga um presente, no melhor estilo J\u00e1-J\u00e1: uma caixa de isopor \u2013 devia medir quase dois metros \u2013 com um gigantesco dourado congelado l\u00e1 dentro. <\/p>\n<p>Ningu\u00e9m acreditou quando chegou o aviso dos Correios para que a \u2018encomenda\u2019 para o Sr. Tal fosse retirada com urg\u00eancia, pois a ag\u00eancia n\u00e3o possu\u00eda freezer.<\/p>\n<p>Imaginem a cena. <\/p>\n<p>Naquela tarde, os quase 50 funcion\u00e1rios da empresa sa\u00edram felizes da vida, carregando, cada qual, a sua parte.<\/p>\n<p>Quando voltou do Pantanal e soube dos transtornos que seu peixe causou, Jacob riu a valer e saiu perguntando a todos os funcion\u00e1rios, um por um, se gostaram do presente. <\/p>\n<p>Foi logo avisando:<\/p>\n<p>&#8212; M\u00eas que vem tem mais&#8230;.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Outra paix\u00e3o de J\u00e1-J\u00e1 era a m\u00fasica. Mais propriamente a seresta.<\/p>\n<p>Onde ia, se lhe dessem chance, o homem soltava o vozeir\u00e3o, \u00e0 la N\u00e9lson Gon\u00e7alves.<\/p>\n<p>Sua m\u00fasica preferida: \u201cCabocla\u201d.<\/p>\n<p>Conta-se que, uma noite, Jacob extrapolou em plena solenidade de posse da nova diretoria da Distrital do Ipiranga da Associa\u00e7\u00e3o Comercial de S\u00e3o Paulo. Os novos empossados alternavam-se em discursar para a plat\u00e9ia respeitosa. A cada intervalo, um pianista fazia um sarau com m\u00fasicas ambientes, apropriadas para a ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Dizem que, num dado instante, Jacob aproveitou a pausa, deu uma gorda gorjeta para que o pianista o acompanhasse no velho hit da m\u00fasica popular brasileira.<\/p>\n<p>Para espanto de todos os presentes, foram oito ou nove interpreta\u00e7\u00f5es seguidas at\u00e9 que cantor e m\u00fasico decidissem parar com a cantoria.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem diga que J\u00e1-J\u00e1 esperava um bis. <\/p>\n<p>A plat\u00e9ia, por\u00e9m, se deu por aliviada quando ele parou de contar.<\/p>\n<p>\u00c9 o que dizem.<\/p>\n<p>Mas, isso, creio, pode ser maldade da oposi\u00e7\u00e3o, os n\u00e3o-janistas.<br \/>\nVI.<\/p>\n<p>O amigo repetiu o concerto numa tarde de quinta-feira (dia de fechamento da edi\u00e7\u00e3o) no sagu\u00e3o de entrada do jornal.<\/p>\n<p>D\u00e1-lhe Cabocla \u2013 e \u00e0 capela.<\/p>\n<p>Era um dia daqueles. Tudo atrasado e o tempo comendo solto. N\u00e3o consegu\u00edamos parar quanto mais dar aten\u00e7\u00e3o aos trinados do J\u00e1-J\u00e1. Ele se esquecera da malsucedida carreira pol\u00edtica, curtia sua aposentadoria e tinha tempo de sobra para investir no projeto do livro sobre J\u00e2nio.<\/p>\n<p>Nos intervalos, fazia l\u00e1 as suas serestas. <\/p>\n<p>Penso que a Reda\u00e7\u00e3o era um lugar onde se sentia acolhido. Ficava \u00e0 vontade.<\/p>\n<p>T\u00e3o \u00e0 vontade que naquele dia, como n\u00e3o t\u00ednhamos como atend\u00ea-lo, resolveu cantar Cabocla \u00e0 toda voz no local mais inadequado poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Num espa\u00e7o minguado de, sei l\u00e1, de 40 metros quadrados, se tanto, juntou oficce-boys, atendentes, agenciadores publicit\u00e1rios, o pessoal que estava anunciando no balc\u00e3o, quem estava no ponto de \u00f4nibus em frente, vizinhos e por a\u00ed vai.<\/p>\n<p>Um mundar\u00e9u de gente para ouvir o nosso cantante.<\/p>\n<p>Do primeiro andar ouv\u00edamos a confus\u00e3o \u2013 e n\u00e3o quisemos acreditar.<\/p>\n<p>J\u00e1-J\u00e1 transformou em palco o primeiro lance da escada e, \u00e0quela altura, sentia-se o pr\u00f3prio cantor das multid\u00f5es.<\/p>\n<p>S\u00f3 parou de cantar quando um dos nossos, quase de joelhos, implorou para que nos deixasse terminar o jornal.<\/p>\n<p>Ele aquiesceu \u2013 mas, deixou impl\u00edcita uma amea\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8212; Semana que vem eu volto, gente. Vou trazer um amigo que toca viol\u00e3o.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Lembro do saudoso Jacob Meyer J\u00fanior, com certa nostalgia dos tempos idos e vividos.<\/p>\n<p>\u00c9 inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Tenho a sincera impress\u00e3o que sonhadores pirados como J\u00e1-J\u00e1 n\u00e3o cabem mais na tal p\u00f3s-modernidade que, dizem, vivemos.<\/p>\n<p>Sei tamb\u00e9m que est\u00e3o em extin\u00e7\u00e3o as reda\u00e7\u00f5es como aquelas que vivi nos anos 70 e 80.<\/p>\n<p>Visitei recentemente a de um tradicional jornal paulistano. Era um sil\u00eancio, uma organiza\u00e7\u00e3o, quase uma linha de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, \u00e9 preciso que se diga:<\/p>\n<p>Hoje, no primeiro Caboclaaaaaa que um rom\u00e2ntico qualquer entoasse no hall de entrada de alguma empresa, qualquer empresa, os seguran\u00e7as baixariam o cacete sem esperar o segundo verso.<\/p>\n<p>Eu sei que voc\u00eas v\u00e3o dizer que sou saudosista&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o discordo.<\/p>\n<p>Digo apenas que a vida era mais divertida e solid\u00e1ria.<\/p>\n<p>E saibam: mesmo que nenhum de n\u00f3s tenha lido o que estava escrito no tal caderno do J\u00e1-J\u00e1m \u2013 e talvez at\u00e9 por isso \u2013 demos a maior for\u00e7a para que ele transformasse em livro as tais anota\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>Convenhamos.<\/p>\n<p>\u00c9ramos divertidos, solid\u00e1rios e&#8230; um bocado c\u00ednicos<\/p>\n[Texto publicado no livro &quot;Meus Caros Amigos \u2013 Cr\u00f4nicas sobre jornalistas, bo\u00eamios e paix\u00f5es&quot;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vez ou outra me vem \u00e0 mente a figura do Jacob Meyer J\u00fanior perambulando pela Reda\u00e7\u00e3o com um volumoso caderno espiral. 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