{"id":10927,"date":"2008-04-03T00:00:00","date_gmt":"2008-04-03T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:50:15","modified_gmt":"2017-09-15T19:50:15","slug":"doutores-jornalistas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/doutores-jornalistas\/","title":{"rendered":"Doutores Jornalistas"},"content":{"rendered":"<p>Aos formandos do curso de Jornalismo da Universidade Metodista de S\u00e3o Paulo, turma \u201cJ\u00falio Ver\u00edssimo\u201d, em solenidade realizada na noite de ontem, em S\u00e3o Bernardo do Campo. <\/p>\n<p>Minha fala:<\/p>\n<p>I.<\/p>\n<p>\u201cEU VOS SA\u00daDO, DOUTORES JORNALISTAS&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 assim que quero vos saudar hoje.<\/p>\n<p>Foi exatamente assim que h\u00e1 quase 70 anos, o cronista Rubem Braga saudou a cria\u00e7\u00e3o, no Rio, da Escola Superior de Jornalismo. Isto em setembro de 1939.<\/p>\n<p>Sempre com bom humor, o jornalista tra\u00e7ou ali um perfil de como imaginava ser o curso a partir do que observava no exerc\u00edcio da fun\u00e7\u00e3o diariamente. A bem da verdade, ele usou de fina ironia para cutucar os patr\u00f5es, a chefia e falar do sal\u00e1rio raso, da falta de tempo, do editor estressado (ou resmung\u00e3o, como se dizia \u00e0 \u00e9poca) e de como o telefone poderia ajudar ou atrapalhar uma reportagem, das mazelas da profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Qualquer semelhan\u00e7a com os dias atuais n\u00e3o \u00e9 mera coincid\u00eancia.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Mas deixemos o bom texto de Rubem Braga a esperar nova leitura nas p\u00e1ginas do livro Uma Fada no Front&#8230;<\/p>\n<p>A objetividade do jornalismo hoje n\u00e3o d\u00e1 vez a fadas e mist\u00e9rios.<\/p>\n<p>Antes se dizia:<\/p>\n<p>\u201cAconteceu, virou not\u00edcia\u201d.<\/p>\n<p>Hoje as not\u00edcias s\u00e3o em tempo real&#8230;<\/p>\n<p>Nem bem o fato aconteceu e l\u00e1 estamos n\u00f3s a informar o leitor\/espectador\/internauta.<\/p>\n<p>Eis um terreno f\u00e9rtil para as muitas armadilhas que, inevitavelmente, somos obrigados a enfrentar.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>A trag\u00e9dia da vez \u00e9 o caso do assassinato da menina Isabella.<\/p>\n<p>Ontem (ter\u00e7a), houve toda uma discuss\u00e3o no Observat\u00f3rio da Imprensa e hoje (quarta) h\u00e1 uma cr\u00f4nica modelar na Folha de S. Paulo, assinada por Cl\u00f3vis Rossi, leg\u00edtimo disc\u00edpulo de Cl\u00e1udio Abramo, em seus coment\u00e1rios e em sua indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tanto no programa de Alberto Dines como na coluna de Rossi foi inevit\u00e1vel a analogia ao Caso da Escola Base, de triste lembran\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Olha a encruzilhada em que nos encontramos e que faz parte do nosso dia-a-dia.<\/p>\n<p>E a\u00ed se abre espa\u00e7o para uma discuss\u00e3o sem fim. Nas reuni\u00f5es de pauta. No Conselho Editorial. Na avalia\u00e7\u00e3o di\u00e1ria do ombudsman. Nos papos de botequim. No cotidiano das pessoas.<\/p>\n<p>S\u00f3 que jornalismo n\u00e3o se discute, gente. Jornalismo se faz&#8230;<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Embora os jornalistas adorem uma discuss\u00e3o, uma pol\u00eamica, um estica daqui, um puxa dali, repito: <\/p>\n<p>Jornalismo n\u00e3o \u00e9 o que se discute. Jornalismo \u00e9 o que se faz&#8230;<\/p>\n<p>E a\u00ed&#8230;<\/p>\n<p>Devo abrir ou n\u00e3o o microfone diante do delegado que investiga o caso e vai falar?<\/p>\n<p>Se n\u00e3o soubermos quem somos, o que representamos para a opini\u00e3o p\u00fablica, o porqu\u00ea nos fizemos jornalistas, abrindo ou n\u00e3o abrindo o microfone, vamos incorrer em erro, com danos irrevers\u00edveis para a sociedade&#8230;<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Bem fica a\u00ed a reflex\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Se posso lhes dar um \u00faltimo recado, ressaltaria:<\/p>\n<p>Leiam sempre Rubem Braga.<br \/>\nApura o estilo. Apura a sensibilidade&#8230; <\/p>\n<p>Leiam sempre Cl\u00f3vis Rossi.<br \/>\nApura aspectos \u00e9ticos. Mostra a verdadeira fun\u00e7\u00e3o social da Imprensa. <\/p>\n<p>S\u00e3o essas a mat\u00e9ria prima do nosso trabalho. Para o bem ou para mal&#8230;<\/p>\n<p>Fiquem atento, pois a vida n\u00e3o pede licen\u00e7a.<\/p>\n<p>A vida n\u00e3o pede desculpa.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>No mais, quero parabeniz\u00e1-los. Pela bel\u00edssima escolha&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; \u00c9 A MELHOR PROFISS\u00c3O DO MUNDO.<\/p>\n<p>Quem disse a frase foi o escritor e jornalista Gabriel Garcia Marques, num bel\u00edssimo artigo que voc\u00eas certamente conhecem bem.<\/p>\n<p>Outro momento importante de reflex\u00e3o sobre o fazer jornal\u00edstico. <\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Para encerrar, volto \u00e0 cr\u00f4nica do Rubem Braga. <\/p>\n<p>O que mais intrigava o cronista era explicar aos Doutores Jornalistas a \u00fanica li\u00e7\u00e3o que sabia de cor e que era comum \u00e0s reda\u00e7\u00f5es da \u00e9poca. <\/p>\n<p>Que assim se resumia:<\/p>\n<p>\u201cGastei um ano aprendendo a trabalhar, dois aprendendo a trabalhar menos e tr\u00eas aprendendo a receber\u201d. Boa sorte a todos<\/p>\n[Texto publicado no livro \u201cVolteios &#8211;  Cr\u00f4nicas, lembran\u00e7as e devaneios\u201d]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos formandos do curso de Jornalismo da Universidade Metodista de S\u00e3o Paulo, turma \u201cJ\u00falio Ver\u00edssimo\u201d, em solenidade realizada na noite de ontem, em S\u00e3o Bernardo do Campo. <\/p>\n<p>Minha fala:<\/p>\n<p>I.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10927","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10927","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10927"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10927\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16993,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10927\/revisions\/16993"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10927"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10927"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10927"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}