{"id":10928,"date":"2008-04-04T00:00:00","date_gmt":"2008-04-04T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:50:15","modified_gmt":"2017-09-15T19:50:15","slug":"o-tuaregue","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-tuaregue\/","title":{"rendered":"O tuaregue"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 noites que s\u00e3o assim. Por mais cansado que esteja, por maiores que sejam os desafios da manh\u00e3 seguinte, por tudo e por nada, voc\u00ea acorda e n\u00e3o dorme mais. Fica como ontem fiquei. A zapear desinteressado os mil e um canais da TV a cabo, a andar pelo apartamento \u00e0s escuras, a achatar o nariz no vidro da janela que mostra uma cidade silenciosa, de luzes em tons de s\u00e9pia, como se fosse uma foto antiga, onde o tempo finge que parou. Penso que melhor seria dizer: h\u00e1 madrugadas que s\u00e3o assim. Infindas. Incorporo este sil\u00eancio, esta paz &#8212; a tristeza que vai em mim. Queiramos ou n\u00e3o, \u00e9 um momento de paz. N\u00e3o \u00e9 aquela que tanto procuramos. Mas, \u00e9 uma paz. Enfim&#8230; C\u00e1 estou remexer no velho ba\u00fa da mem\u00f3ria e dos espantos, a ouvir o arrastar da corrente de fantasmas \u2013 uns mais, outros menos importantes em minha vida. Curioso como aquele quadro na parede ganha vida neste exato momento. Mostra uma caravana a cortar o deserto. O Saara, seria?. Homens de turbantes, t\u00fanicas, espadas. Montam camelos, outros caminham. De onde v\u00eam, para onde v\u00e3o. Seus passos n\u00e3o deixam marcas. Dissolvem-se na areia e o tropel logo faz surgir uma nuvem amea\u00e7adora e sombria. Uma pergunta me assalta. O que me fez comprar essa pintura num dia incerto do passado? O que ela representa, al\u00e9m da velha sina da humanidade, a seguir do nada para lugar nenhum. Acho que nunca pensei nisso antes. N\u00e3o \u00e9 agora, quase tr\u00eas da manh\u00e3, que vou pensar. N\u00e3o importa. Escrevo apenas para postar amanh\u00e3 ou outro dia qualquer. \u00c9 prov\u00e1vel que a vida desses tuaregues s\u00f3 passe a fazer sentido a partir do desafio de atravessar o deserto, com seus mist\u00e9rios e perigos e o\u00e1sis. At\u00e9 que n\u00e3o \u00e9 m\u00e1 id\u00e9ia imaginar-me um tuaregue. Escrever d\u00e1 sentido \u00e0 vida. Entendo assim a cada nova manh\u00e3 ao vencer a aridez da tela em branco. Mas, h\u00e1 algo de errado &#8212; em mim ou no quadro? Um certo desconforto. Acendo a luz, me aproximo e constato: os rostos desses homens s\u00e3o desprovidos de olhos, nariz, boca. Manchas que n\u00e3o revelam qualquer express\u00e3o, qualquer sentimento. Apenas o del\u00edrio de estar no meio da travessia. O pior de tudo \u00e9 que um deles se parece tanto comigo&#8230; Ser\u00e1?<\/p>\n<p>E essa manh\u00e3 que n\u00e3o chega&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 noites que s\u00e3o assim. Por mais cansado que esteja, por maiores que sejam os desafios da manh\u00e3 seguinte, por tudo e por nada, voc\u00ea acorda e n\u00e3o dorme mais. Fica como ontem fiquei.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10928","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10928","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10928"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10928\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16992,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10928\/revisions\/16992"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10928"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10928"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10928"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}