{"id":10931,"date":"2008-03-30T00:00:00","date_gmt":"2008-03-30T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:03:09","modified_gmt":"2017-09-14T04:03:09","slug":"a-micareta-e-o-efeito-rodizio","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-micareta-e-o-efeito-rodizio\/","title":{"rendered":"A micareta e o &quot;efeito rod\u00edzio&quot;"},"content":{"rendered":"<p>A mo\u00e7a chega com ares de vitoriosa.<\/p>\n<p>Mostra a primeira p\u00e1gina da Ilustrada de sexta a me desafiar. <\/p>\n<p>L\u00e1 est\u00e1 a reportagem sobre a ax\u00e9-music. Uma ind\u00fastria em plena ascens\u00e3o, diz a mat\u00e9ria e comprova: \u00e9 a m\u00fasica que mais se ouve no Pa\u00eds, a mais lucrativa do mundo dos espet\u00e1culos, a mais isso, a mais aquilo, a mais mais em tudo. <\/p>\n<p>Nas turbul\u00eancias dos vinte anos, n\u00e3o entende como algu\u00e9m (eu, por exemplo) pode ser feliz neste mundo sem se deixar embalar por Ivetes, Claudinhas, Chiclets e afins.<\/p>\n<p>Acho que ouviu a minha estranheza ao g\u00eanero em alguma palestra sobre jornalismo e mpb.<\/p>\n<p>Falo demais \u00e0s vezes. Ou quase sempre.<\/p>\n<p>Enfim&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Nenhuma novidade no que diz a reportagem.<\/p>\n<p>Ou melhor uma constata\u00e7\u00e3o \u00f3bvia, feita por um dos empres\u00e1rios do ramo. <\/p>\n<p>A ax\u00e9 uniu o entretenimento ao beijo na boca. <\/p>\n<p>As palavras do mo\u00e7o:<\/p>\n<p>&quot;A m\u00fasica baiana conseguiu algo \u00fanico: ela vende beijo na boca. No show de rock, fica todo mundo olhando para o palco e ningu\u00e9m pega ningu\u00e9m. No ax\u00e9, pode estar a Ivete tocando, mas o cara est\u00e1 interessado \u00e9 em beijar, e est\u00e1 cheio de garotas para beij\u00e1-lo&quot;.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Eis a\u00ed, menina, um assunto pol\u00eamico.  <\/p>\n<p>Talvez fosse mais conveniente eu parar aqui. No simples registro.<\/p>\n<p>Mas, sei l\u00e1, n\u00e3o me seguro. Vontade lhe fazer algumas provoca\u00e7\u00f5es.  <\/p>\n<p>Gentil mo\u00e7a de shorts, mini-blusa e sand\u00e1lias, me \u00e9 imposs\u00edvel reconhecer a tal grandeza musical do ax\u00e9. No fundo, sei bem, ningu\u00e9m perde nada com isso. Nem eu, nem voc\u00ea; muito menos o milion\u00e1rio neg\u00f3cio made in Bahia. <\/p>\n<p>At\u00e9 porque, convenhamos, sou um cara do s\u00e9culo 20 e sei de toda uma gera\u00e7\u00e3o de baianos que considero bem mais inspirados, verdadeiramente representativos para essa tal de MPB. De pronto, lembro Caymmi, Jo\u00e3o Gilberto, Caetano e Gil e Novos Baianos, estes que seguraram uma barra legal nos chumbados anos 70.<\/p>\n<p>Por outra, sei tamb\u00e9m que, em termos art\u00edsticos e culturais, \u00e9 assim mesmo. Desde que o mundo \u00e9 mundo, vive-se a rotina da roda-gigante. Altos e baixos, altos e baixos&#8230; <\/p>\n<p>Por isso, at\u00e9 me conformo em esperar tempos mais encantados.<\/p>\n<p>Sou um otimista inveterado.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Agora, \u00e9 a quest\u00e3o comportamental que me preocupa.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 nem pela tal beija\u00e7\u00e3o, vou logo explicando. <\/p>\n<p>Que coisa pior \u2013 ou melhor? \u2013 gera\u00e7\u00f5es passadas tamb\u00e9m fizeram e desfizeram. <\/p>\n<p>N\u00e3o sou eu que vou emba\u00e7ar a dos mais jovens \u2013 e alguns nem tanto, que tamb\u00e9m aproveitam a onda, \u00e9 bom que se diga.<\/p>\n<p>O que me preocupa, digo logo, \u00e9 o \u201cefeito rod\u00edzio\u201d.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Como assim, garota, n\u00e3o sabe o que \u00e9 \u201cefeito rod\u00edzio\u201d?<\/p>\n<p>Nunca foi a uma churrascaria?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, vou lhe explicar.<\/p>\n<p>Em todo rod\u00edzio \u00e9 assim&#8230;<\/p>\n<p>Voc\u00ea entra na casa no maior \u201cdesespero\u201d a fim de comer todas as carnes poss\u00edveis e imagin\u00e1veis. Depois da terceira picanha com alho, repare, pode vir at\u00e9 um bife de sola de sapato que voc\u00ea tra\u00e7a na maior, achando lindo maravilhoso. <\/p>\n<p>\u00c9 capaz at\u00e9 de dizer.<\/p>\n<p>&#8212; Na boa, passa o vinagrete. <\/p>\n<p>Instantes depois, vem o fastio e, na boca, aquele gosto esquisito de alho e gordura. <\/p>\n<p>A partir da\u00ed, n\u00e3o h\u00e1 o que segure.<\/p>\n<p>S\u00f3 de ver os indefect\u00edveis gar\u00e7ons a trafegar serelepes com aqueles espetos, vem o calafrio. <\/p>\n<p>Sentimos os olhos saltarem, o estomago marear. <\/p>\n<p>Dar\u00edamos qualquer coisa para estar na sua casa dormindo, de barriga para cima, no sof\u00e1 da sala&#8230; <\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, voltemos \u00e0s minhas elucubra\u00e7\u00f5es sobre micaretas. <\/p>\n<p>Peguemos a calculadora, minha cara. <\/p>\n<p>Fa\u00e7amos as contas e as proje\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a \u201cfica\u201d com cento e quatorze numa s\u00f3 noite. <\/p>\n<p>Exagerei?<\/p>\n<p>S\u00f3 um pouquinho, diz voc\u00ea.<\/p>\n<p>Ok.<\/p>\n<p>Mas, agora preste aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vai que o homem da vida dela, o pr\u00edncipe encantado como se dizia na antig\u00fcidade, pegue a senha e apare\u00e7a ali pela casa do 98 ou 99. Bermud\u00e3o, camisa regata e bon\u00e9 com a aba virada para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Presumo que, certamente, ela n\u00e3o vai saber identific\u00e1-lo. <\/p>\n<p>E a\u00ed, deixo claro para n\u00e3o me acusarem de machista que sou&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; a\u00ed vale o vice-versa.<\/p>\n<p>Ambos perderam a chance \u00fanica.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Uma pena, n\u00e3o?<\/p>\n<p>Os dois podem passar o resto da vida procurando um ao outro.<\/p>\n<p>E, quer saber, pode soar antigo. <\/p>\n<p>Mas, o certo sem mentira, a verdade muito verdadeira, \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 nada que se compare na vida \u00e0 chance, por vezes, irrecuper\u00e1vel, de viver um grande amor&#8230;<\/p>\n<p>Por isso, mo\u00e7a bonita, fique esperta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mo\u00e7a chega com ares de vitoriosa.<\/p>\n<p>Mostra a primeira p\u00e1gina da Ilustrada de sexta a me desafiar. <\/p>\n<p>L\u00e1 est\u00e1 a reportagem sobre a ax\u00e9-music. 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