{"id":10934,"date":"2008-04-09T00:00:00","date_gmt":"2008-04-09T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:50:15","modified_gmt":"2017-09-15T19:50:15","slug":"boleiro-5","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/boleiro-5\/","title":{"rendered":"Boleiro (5)"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o sejamos rudes com o garoto neste cap\u00edtulo final da hist\u00f3ria. Nos port\u00f5es do Parque Ant\u00e1rtica, com um par de chuteirinha chumbrega embaixo do bra\u00e7o e todos os sonhos do mundo na cabe\u00e7a, as pernas do garoto bambearam. Lembremo-nos que tem entre 13 e 14 anos. <\/p>\n<p>Est\u00e1 sem gra\u00e7a de tudo.  <\/p>\n<p>Tenta avan\u00e7ar os 20 metros que o separam da entrada principal e as ditas-cujas agora pareciam pesar uma tonelada. Estranha o in\u00edcio de p\u00e2nico. \u00c9 prov\u00e1vel que tenha pensado:<\/p>\n<p>&quot;O que est\u00e1 acontecendo comigo?&quot; <\/p>\n<p>Tal pensamento \u00e9 seguramente esquartejado pelo baticum descompassado do cora\u00e7\u00e3o. Alguns garotos mais fortes e maiores o ultrapassam. Andam c\u00e9leres e em grupos. Todos se conhecem e conversam em alto e bom som. Brincam, riem. Atravessam o port\u00e3o na maior. D\u00e3o boa-tarde ao porteiro e somem engolidos pelo grande port\u00e3o de ferro. Devem ser os afortunados jogadores das equipes amadoras do Palmeiras.<\/p>\n<p>Tudo o que ele queria ser.<\/p>\n<p>Tentemos entend\u00ea-lo, gente.<\/p>\n<p>Os olhos turvam \u2013 e a realidade se faz magn\u00e2nima a tr\u00eas passos da entrada, onde o mesmo senhor de terno azul marinho e quepe, que sorrira para os garotos, agora lhe olha desconfiado. <\/p>\n<p>N\u00e3o tem chance. Arrasta-se para chegar \u00e0 portaria. Se est\u00e1 assim agora, imagine o vexame que daria em campo?<\/p>\n<p>Balan\u00e7a a cabe\u00e7a a espantar suas inquieta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mesmo assim caminha e enfrenta a grandeza do momento.<\/p>\n<p>Diz baixinho para ele mesmo, mas com muita f\u00e9. <\/p>\n<p>&#8212; Seja o que Deus quiser&#8230;<\/p>\n<p>Tira do bolso o cart\u00e3o amarfanhado, mostra para o homem a balbuciar palavras desconexas.<\/p>\n<p>&#8212; Eu&#8230; teste&#8230; infantil&#8230; O doutor Orlando falou&#8230;<\/p>\n<p>J\u00e1 est\u00e1 no meio da catraca, super sem jeito, quando ouve a voz do porteiro.<\/p>\n<p>&#8212; Pode voltar, garoto. Pode voltar. O infantil s\u00f3 treina na quinta&#8230;<\/p>\n<p>Querem saber? O garoto sentiu um baita al\u00edvio.<\/p>\n<p>V\u00e1 entender&#8230;<\/p>\n<p>No dia seguinte, ainda est\u00e1 sob o topor da aventura vivida. Mal sabe ele que viver\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o id\u00eantica: um misto de al\u00edvio e decep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O pai chega com o Di\u00e1rio da Noite debaixo do bra\u00e7o. Vem almo\u00e7ar e traz um risinho divertido sobre o bigode aparado e fino. <\/p>\n<p>Abre o jornal na p\u00e1gina de Esportes e mostra a manchete ao filho.<\/p>\n<p>\u201cCAI O DIRETOR DE FUTEBOL DO PALMEIRAS\u201d<\/p>\n<p>Ou seja, aquele cart\u00e3ozinho, na ordem das coisas, n\u00e3o vale mais nada. \u00c9 o fim da sua carreira de boleiro profissional. E o in\u00edcio de outra. No fundo, nem ligou. Aprendeu. Vale mais a vers\u00e3o do que fato em si.<\/p>\n<p>A todos os garotos da rua, mostra o cart\u00e3o do homem e a manchete do jornal, acompanhados da mesma fala:<\/p>\n<p>&#8212; Olha a\u00ed, rapaziada. Vejam o azar que eu dei. J\u00e1 estava tudo certo para eu ir jogar no Palmeiras.<\/p>\n<p>O menino virou &#8216;contador de hist\u00f3rias&#8217; e boleiro nas horas vagas. Sempre a lembrar o dia em quase foi contratado pela gloriosa Societ\u00e0 Esportiva Palestra It\u00e1lia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sejamos rudes com o garoto neste cap\u00edtulo final da hist\u00f3ria. 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