{"id":10935,"date":"2008-04-10T00:00:00","date_gmt":"2008-04-10T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:02:49","modified_gmt":"2017-09-14T04:02:49","slug":"boleiro-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/boleiro-2\/","title":{"rendered":"Boleiro *"},"content":{"rendered":"<p>Quando pai chegou, trouxe na m\u00e3o um cart\u00e3o de visitas, al\u00e9m do Di\u00e1rio da Noite dobrado embaixo do bra\u00e7o. Era costume do velho almo\u00e7ar em casa todos os dias. Quase um ritual o seu chegar. <\/p>\n<p>&#8212; E a\u00ed? A b\u00f3ia est\u00e1 pronta?<\/p>\n<p>Enquanto a m\u00e3e corre para por a mesa e servi-lo, ele l\u00ea as not\u00edcias. Depois, almo\u00e7a r\u00e1pido, tira um cochilo e s\u00f3 a\u00ed volta para a tecelagem.<\/p>\n<p>Naquela segunda-feira, por\u00e9m, tem uma novidade, jurada e sacramentada pelas letras mi\u00fadas e finas, impressas sob o nome de um tal Orlando Pelegrino.<\/p>\n<p>Ao ler aquilo, o menino \u2013 o ca\u00e7ula da casa &#8211; hesita em acreditar. Aquele cart\u00e3o tem o escudo do time do seu cora\u00e7\u00e3o \u2013 a Sociedade Esportiva Palmeiras \u2013 e a designa\u00e7\u00e3o, lida e relida:<\/p>\n<p>Diretor de Futebol.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 verdade?<\/p>\n<p>&#8212; Amanh\u00e3 \u00e9 o dia. Procura o homem no Parque Ant\u00e1rtica. Depois da escola, claro.<\/p>\n<p>Nem um coment\u00e1rio sequer a mais. <\/p>\n<p>O pai \u00e9 assim.O chamam de calabr\u00eas. Um homem rude, de poucas palavras.<\/p>\n<p>O menino se alvoro\u00e7a. Era tudo o que ele queria. Iria fazer um \u201cteste\u201d nas equipes amadoras do time do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Agora guarda isso e vamos comer.<\/p>\n<p>Pega o cart\u00e3o sob um copinho de cristal na cristaleira. Olha o pai lendo As 20 Not\u00edcias, de Ant\u00f4nio Guzman, o colunista esportivo da \u00e9poca. Sente o cora\u00e7\u00e3o bater diferente, acelerado.<\/p>\n<p>Tem 13 para 14 anos e todos os sonhos do mundo. <\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Se tiver abaixo de 50, o car\u00edssimo leitor n\u00e3o pode imaginar o que tal oportunidade significava para qualquer garoto em meados dos anos 60.<\/p>\n<p>Posso dizer, por experi\u00eancia pr\u00f3pria, pois sou dessa gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00f3 para efeito de contextualiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Brasil era bicampe\u00e3o do mundo. Mas, n\u00e3o era s\u00f3 bicampe\u00e3o do mundo. Era o melhor. Aqui se praticava o futebol arte.Tempos de Pel\u00e9, Garrincha, Didi, Nilton Santos &amp; Cia.<\/p>\n<p>Jog\u00e1vamos futebol o dia todo. Fosse com bola de meia, de borracha (o terror das vidra\u00e7as da vizinhan\u00e7a), de capot\u00e3o. Na cal\u00e7ada (improvisando o poste como trave), no terreno baldio (que logo se transformava num campinho irregular), no barranc\u00e3o do Jardim da Aclima\u00e7\u00e3o (com dimens\u00f5es pr\u00f3ximas a um campo oficial)&#8230;<\/p>\n<p>Havia campeonatos entre ruas que os meninos organizavam e, nos fins de semana, era de lei. Defend\u00edamos o infantil ou juvenil de alguma gloriosa equipe varzeana em partidas disputadas, que valiam nossa alma e repercutiam elogios e cr\u00edticas por toda a semana.<\/p>\n<p>Nem gosto de lembrar. D\u00e1 uma saudade danada&#8230;<\/p>\n<p>Bater um bol\u00e3o era sin\u00f4nimo de status social, prest\u00edgio entre a rapaziada.<\/p>\n<p>A gera\u00e7\u00e3o do v\u00eddeo game e da \u2018escolinha\u2019 de futebol viria muito depois.<\/p>\n<p>Ah&#8230; Sei o que voc\u00eas v\u00e3o dizer. Havia outras brincadeiras. Empinar pipas, bolinha de gude, jogo de bot\u00e3o (que hoje \u00e9 futebol de mesa), pe\u00e3o, bater figurinha, carrinho de rolem\u00e3 etc etc. <\/p>\n<p>Concordo. Mas, fa\u00e7o uma ressalva.<\/p>\n<p>Eram passatempos at\u00e9 a bola chegar&#8230;<\/p>\n<p>Assim que a bendita se apresentava, n\u00e3o havia como algu\u00e9m resistir.<\/p>\n<p>Lembro que onde eu morava, na Rep\u00fablica Federativa do Cambuci, alguns garotos foram recomendados para treinar no Clube Atl\u00e9tico Ypiranga, um dos fundadores da Federa\u00e7\u00e3o Paulista de Futebol. S\u00f3 essa indica\u00e7\u00e3o j\u00e1 lhes valeu olhares de admira\u00e7\u00e3o e respeito. Imaginem o que significava passar pela \u2018peneira\u2019 da gloriosa Sociedade Esportiva Palmeiras.<\/p>\n<p>Preciso dizer?<\/p>\n<p>Nesta noite, o garoto n\u00e3o dormiu&#8230;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Antes mesmo que o pai o acorde como fazia todos os dias, o menino est\u00e1 de p\u00e9, uniformizado para as aulas da manh\u00e3 do Col\u00e9gio Nossa Senhora da Gl\u00f3ria. O pai entende o motivo &#8212; mas, como de costume, nada diz sobre o assunto.<\/p>\n<p>&#8212; Tome logo o caf\u00e9. Hoje voc\u00ea ter\u00e1 um longo dia.<\/p>\n<p>As aulas do Irm\u00e3o Fid\u00e9lis passam modorrentas. Mal o moleque se d\u00e1 o trabalho de anotar o ponto do dia. Olhos fixos e sonhadores no lento caminhar dos ponteiros. Conta os minutos no enorme rel\u00f3gio pendurado na parede logo acima dos retratos do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, da Virgem Maria e do ent\u00e3o Beato Marcelino Champagnat. O professor nota a aus\u00eancia, digamos, espiritual do garoto e, em v\u00e1rias ocasi\u00f5es, chama sua aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Em que mundo voc\u00ea est\u00e1, rapaz?<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o prefere n\u00e3o dizer. Imaginava-se no gramado do velho Palestra It\u00e1lia a desarmar atacantes, a dar carrinhos, a cabecear todas as bolas que al\u00e7assem sobre a \u00e1rea&#8230; Ali est\u00e1 o verdadeiro anjo da guarda da defesa. Gosta de ouvir os mais velhos dizerem que \u00e9 um zagueiro de recursos t\u00e9cnicos limitados, mas vigoroso e implac\u00e1vel. <\/p>\n<p>(Ali\u00e1s, foi essa fama que convenceu o diretor do Palmeiras a falar com o pai do moleque sardento e decidido. Dr. Orlando, como era conhecido, tinha o filho estudando na mesma escola e, ao participar de uma solenidade religiosa na manh\u00e3 de domingo, ficou para ver a sele\u00e7\u00e3o do Col\u00e9gio. No jogo, o garoto se sobressaiu. N\u00e3o era o melhor do time. Mas, tinha uma vontade&#8230;)<\/p>\n<p>Depois das aulas da ter\u00e7a, o menino mal almo\u00e7a. Troca o uniforme da escola por uma roupa comum, embrulha as chuteiras gastas num saquinho de p\u00e3o e vai para o ponto de \u00f4nibus esperar o F\u00e1brica-Pomp\u00e9ia. A linha passa em frente aos port\u00f5es do Parque Ant\u00e1rtica. O pai deixou o dinheiro da condu\u00e7\u00e3o sob o r\u00e1dio da sala. \u00c9 sua forma de dizer \u201cfor\u00e7a, filho\u201d. <\/p>\n<p>Era um homem de poucas palavras, como disse.<\/p>\n<p>Um tanto  descompensado, o garoto anda r\u00e1pido e torce para que o \u00f4nibus chegue logo. N\u00e3o contou para nenhum amigo a novidade. Quer lhes fazer uma surpresa. Ser\u00e1 a not\u00edcia do ano na rua Muniz de Souza e adjac\u00eancias. <\/p>\n<p>Tamb\u00e9m se n\u00e3o der certo, n\u00e3o precisa \u201cinventar\u201d qualquer desculpa&#8230;<\/p>\n<p>Que triste! Mas, pode acontecer.<\/p>\n<p>Trata de tirar essa id\u00e9ia ruim da cabe\u00e7a. <\/p>\n<p>Enfim, agora \u00e9 com ele&#8230; <\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Um arrepio corta sua espinha. <\/p>\n<p>E ele sente o corpo suar.<\/p>\n<p>Sorte que o \u00f4nibus chegou.<\/p>\n<p>Bem&#8230; <\/p>\n<p>Deixemos o menino ao sacolejar dos sonhos e do F\u00e1brica Pomp\u00e9ia.<\/p>\n<p>Enquanto isso, vamos conversando. <\/p>\n<p>S\u00f3 para que tenham uma id\u00e9ia. \u00c0quela \u00e9poca, se juntassem dez garotos para um racha, seguramente nove sabiam o que fazer com a bola. Dois ou tr\u00eas eram acima da m\u00e9dia. Os chamados \u201cbons de bola\u201d \u2013 dribladores, queriam a redonda s\u00f3 pra si, faziam a diferen\u00e7a. O que significava dizer: ganhavam o jogo. Aquele que n\u00e3o tinha intimidade para jogar com os p\u00e9s, inevit\u00e1vel: ia para o gol.<\/p>\n<p>O menino a\u00ed, que agora desce bem diante do est\u00e1dio, se situa ali, na zona do agri\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 craque. Mas, n\u00e3o faz feio. Na hora do vamos ver, melo na \u00e1rea e coisa e tal, d\u00e1 um bico para frente. Bola pro mato que o jogo \u00e9 de campeonato.<\/p>\n<p>\u00c8 titular da zaga da sele\u00e7\u00e3o do Col\u00e9gio Nossa Senhora da Gl\u00f3ria nos domingos pela manh\u00e3, ap\u00f3s a obrigat\u00f3ria missa das oito. Mas, aos s\u00e1bados, brinca nos times de v\u00e1rzea da regi\u00e3o. Estrelas dos Bo\u00eamios, Santos do Cambuci, Huracan da V\u00e1rzea do Glic\u00e9rio, entre outros. Aqui, o bicho pega. N\u00e3o h\u00e1 o tal nivelamento por idade como acontece no Gl\u00f3ria. Ele joga no \u201csegundinho\u201d, mas quando algu\u00e9m do \u201cprimeiro\u201d falta, faz jornada dupla. Completa os titulares na base da garra e dos chut\u00f5es. <\/p>\n<p>Pois ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Bobo ele nunca foi. \u00c0s vezes, se faz de perdido, nem a\u00ed e tal. Mas, os 45 minutos do trajeto entre Sacom\u00e3 e a Pomp\u00e9ia, ele gastou ruminando essas id\u00e9ias. Lembrou que o Nescau (um dos craques da rua) n\u00e3o passou da primeira \u2018peneira\u2019 e que o B\u00fa (um zagueira\u00e7o de 16 anos) tamb\u00e9m ficou pelo caminho no treino do S\u00e3o Paulo. A \u00fanica vantagem foi um par de mei\u00e3o de lanzinha branca (beje) que lhe &quot;deram&quot; e ele mostrava a todos como um grande trof\u00e9u.<\/p>\n<p>Hesitou.<\/p>\n<p>O que me parece, hoje, natural para um garoto da sua idade, com um par de chuteirinhas chinfrins embrulhado num papel de p\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>N\u00e3o sejamos rudes com ele no cap\u00edtulo final da hist\u00f3ria. Nos port\u00f5es do Parque Ant\u00e1rtica, com um par de chuteirinha chumbrega embaixo do bra\u00e7o e todos os sonhos do mundo na cabe\u00e7a, as pernas do garoto bambearam. Lembremo-nos que tem entre 13 e 14 anos. <\/p>\n<p>Est\u00e1 sem gra\u00e7a de tudo. <\/p>\n<p>Tenta avan\u00e7ar os 20 metros que o separam da entrada principal e as ditas-cujas agora pareciam pesar uma tonelada. Estranha o in\u00edcio de p\u00e2nico. \u00c9 prov\u00e1vel que tenha pensado:<\/p>\n<p>&quot;O que est\u00e1 acontecendo comigo?&quot; <\/p>\n<p>Tal pensamento \u00e9 seguramente esquartejado pelo baticum descompassado do cora\u00e7\u00e3o. Alguns garotos mais fortes e maiores o ultrapassam. Andam c\u00e9leres e em grupos. Todos se conhecem e conversam em alto e bom som. Brincam, riem. Atravessam o port\u00e3o na maior. D\u00e3o boa-tarde ao porteiro e somem engolidos pelo grande port\u00e3o de ferro. Devem ser os afortunados jogadores das equipes amadoras do Palmeiras.<\/p>\n<p>Tudo o que ele queria ser.<\/p>\n<p>Tentemos entend\u00ea-lo, gente.<\/p>\n<p>Os olhos turvam \u2013 e a realidade se faz magn\u00e2nima a tr\u00eas passos da entrada, onde o mesmo senhor de terno azul marinho e quepe, que sorrira para os garotos, agora lhe olha desconfiado. <\/p>\n<p>N\u00e3o tem chance. Arrasta-se para chegar \u00e0 portaria. Se est\u00e1 assim agora, imagine o vexame que daria em campo?<\/p>\n<p>Balan\u00e7a a cabe\u00e7a a espantar suas inquieta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mesmo assim caminha e enfrenta a grandeza do momento.<\/p>\n<p>Diz baixinho para ele mesmo, mas com muita f\u00e9. <\/p>\n<p>&#8212; Seja o que Deus quiser&#8230;<\/p>\n<p>Tira do bolso o cart\u00e3o amarfanhado, mostra para o homem a balbuciar palavras desconexas.<\/p>\n<p>&#8212; Eu&#8230; teste&#8230; infantil&#8230; O doutor Orlando falou&#8230;<\/p>\n<p>J\u00e1 est\u00e1 no meio da catraca, super sem jeito, quando ouve a voz do porteiro.<\/p>\n<p>&#8212; Pode voltar, garoto. Pode voltar. O infantil s\u00f3 treina na quinta&#8230;<\/p>\n<p>Querem saber? O garoto sentiu um baita al\u00edvio.<\/p>\n<p>V\u00e1 entender&#8230;<\/p>\n<p>No dia seguinte, ainda est\u00e1 sob o topor da aventura vivida. Mal sabe ele que viver\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o id\u00eantica: um misto de al\u00edvio e decep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O pai chega com o Di\u00e1rio da Noite debaixo do bra\u00e7o. Vem almo\u00e7ar e traz um risinho divertido sobre o bigode aparado e fino. <\/p>\n<p>Abre o jornal na p\u00e1gina de Esportes e mostra a manchete ao filho.<\/p>\n<p>\u201cCAI O DIRETOR DE FUTEBOL DO PALMEIRAS\u201d<\/p>\n<p>Ou seja, aquele cart\u00e3ozinho, na ordem das coisas, n\u00e3o vale mais nada. \u00c9 o fim da sua carreira de boleiro profissional. E o in\u00edcio de outra. No fundo, nem ligou. Aprendeu. Vale mais a vers\u00e3o do que fato em si.<\/p>\n<p>A todos os garotos da rua, mostra o cart\u00e3o do homem e a manchete do jornal, acompanhados da mesma fala:<\/p>\n<p>&#8212; Olha a\u00ed, rapaziada. Vejam o azar que eu dei. J\u00e1 estava tudo certo para eu ir jogar l\u00e1, no Palmeiras.<\/p>\n<p>Quem diria&#8230;<\/p>\n<p>O menino virou &#8216;contador de hist\u00f3rias&#8217; e boleiro nas horas vagas. Sempre a lembrar o dia em quase foi contratado pela gloriosa Societ\u00e0 Esportiva Palestra It\u00e1lia&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando pai chegou, trouxe na m\u00e3o um cart\u00e3o de visitas, al\u00e9m do Di\u00e1rio da Noite dobrado embaixo do bra\u00e7o. Era costume do velho almo\u00e7ar em casa todos os dias. 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