{"id":10951,"date":"2008-04-22T00:00:00","date_gmt":"2008-04-22T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:02:29","modified_gmt":"2017-09-14T04:02:29","slug":"as-gracas-da-paixao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/as-gracas-da-paixao\/","title":{"rendered":"As gra\u00e7as da paix\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>A Menina de Cabelos Vermelhos (ou Levemente Avermelhados, de acordo com seus humores e amores) me contou. Teve uma reca\u00edda e foi encontrar-se duas vezes com o ex ou quase-futuro. Nem ela sabe bem&#8230;<\/p>\n<p>Vai da\u00ed que os planos de viajar para Londres &#8212; que ela tanto alardeou &#8212; continuam de p\u00e9. Vai no fim do m\u00eas, me garantiu.<\/p>\n<p>&#8212; Maginaaaa!!!<\/p>\n<p>Espantou- se quando me contou, com ares alegres, a peraltice e eu lhe fiz a pergunta que n\u00e3o quis calar. Londres miou?<\/p>\n<p>&#8212; Maginaaaa!!!<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o me disse. Mas eu saquei logo. Os planos de voltar \u2013 escrevo hoje e me cobrem no futuro \u2013 tamb\u00e9m foram antecipados. Se pensou em ficar seis meses, vai logo deixar de barato por um m\u00eas, um m\u00eas e meio. E olhe l\u00e1.<\/p>\n<p>&#8212; Ah, Sr. Autor, \u00e9 coisa de mulher, defendeu-se.<\/p>\n<p>A Menina de Cabelos Vermelhos tem pouco mais de 20, e n\u00e3o sabe. A coisa toda \u00e9 assim desde que o mundo \u00e9 mundo e Eva convenceu Ad\u00e3o a morder o fruto proibido e prazeroso. Exatamente por ser proibido \u00e9 prazeroso \u2013 e vice-versa.<\/p>\n<p>Vou lhes contar a hist\u00f3ria de dois amigos dos tempos das reda\u00e7\u00f5es assoalhadas e encantadas pelo toc-toc das m\u00e1quinas de escrever. Vou cham\u00e1-los de Paula e Bebeto, para reverenciar a m\u00fasica de Caetano e Milton Nascimento, trilha sonora daqueles difusos anos 70.<\/p>\n<p>Conheceram-se na Reda\u00e7\u00e3o. Ele, um tanto mais velho que n\u00f3s. Ela, como eu e outros da nossa idade, a descobrir o mundo encantado das letrinhas e do jornalismo. Escrevia sobre teatro, eu sobre m\u00fasica, o saudoso Ismael sobre cinema e televis\u00e3o.O mo\u00e7o era o editor, o senhor da verdade, aquele que mandava prender e mandava soltar; plenos poderes sobre os nossos textos, a nossa produ\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8212; Isto \u00e9 bom. D\u00e1 em manchete. Este outro, deixe-me ver, tamb\u00e9m \u00e9 bom. Troca a manchete. O que voc\u00ea tem a\u00ed? Deixa eu ver&#8230; Fraco, muito fraco. Esquece&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9ramos ningu\u00e9m para discordar. At\u00e9 porque o cara sabia o que estava fazendo. <\/p>\n<p>Paula era uma mo\u00e7a bonita. Lembro mesmo o dia em que Bebeto disse ao fot\u00f3grafo, amigo de outras parada:<\/p>\n<p>&#8212; Campe\u00e3o, inventa uma pauta. Tira essa mo\u00e7a daqui, sen\u00e3o me apaixono&#8230;<\/p>\n<p>Romeu, o \u2018retratista\u2019, que conhecia o amigo h\u00e1 tempos, profetizou:<\/p>\n<p>&#8212; Quer saber, compadre? Voc\u00ea est\u00e1 entregue. J\u00e1 era.<\/p>\n<p>PARTE 2<\/p>\n<p>E j\u00e1 eram mesmo&#8230;<\/p>\n<p>Porque tamb\u00e9m a mo\u00e7a capitulou \u00e0s gra\u00e7as da paix\u00e3o. <\/p>\n<p>Logo Paula e Bebeto estavam entregues \u00e0 montanha russa dos sentimentos controversos. Sim, n\u00e3o. Sim, n\u00e3o. Quero, n\u00e3o quero. Posso, n\u00e3o posso. Devo, n\u00e3o devo. Somos t\u00e3o diferentes. \u00c9 t\u00e3o bom quando estamos juntos. Ci\u00fames deste, daquela, daquele outro&#8230;<\/p>\n<p>Ou seja, o tal canto da sereia que &#8211; uns mais, outros menos &#8211; todos conhecemos bem.<\/p>\n<p>Primeiro, tentaram disfar\u00e7ar. Depois, deram a entender que havia uma admira\u00e7\u00e3o m\u00fatua entre os dois. Por fim, escacharam. Que se danem n\u00f3s outros, pobres mortais. Diziam, agora, se amar \u2013 e pronto.<\/p>\n<p>Voc\u00eas imaginam o perereco que ficou aquela reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Paix\u00e3o \u00e9 paix\u00e3o em qualquer canto. Com as mesmas implica\u00e7\u00f5es e conseq\u00fc\u00eancias. <\/p>\n<p>Se os \u2018pombinhos\u2019 estavam bem, era a paz anunciada aos homens de boa vontade. Bebeto passava a ser um deles. Transformava-se em um editor compreensivo, com h\u00e1beis solu\u00e7\u00f5es e conselhos. Ao contr\u00e1rio, se pintasse uma crise entre os dois. A coluna de teatro virava uma nota e o homem cobrava prazos cada vez menores para a entrega dos textos. Todos suingavam ao som de seus berros. Reclamava do diagramador, das fotos, dos an\u00fancios que bancavam nossos parcos \u2013 mas, pontuais \u2013 sal\u00e1rios. Bufava que bufava&#8230;<\/p>\n<p>At\u00e9 que entend\u00edamos a situa\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m discutia a intensidade do sentimento de um pelo outro. Mas, todos ali \u2013 involunt\u00e1rias testemunhas \u2013 ponderavam que n\u00e3o era f\u00e1cil viver naquele ritmo. Sim, n\u00e3o. Sim, n\u00e3o. Quero, n\u00e3o quero&#8230; Enfim aquelas coisas todas que escrevi l\u00e1 em cima e estou a repetir agora.<\/p>\n<p>O s\u00e1bio Nasci, de tantos posts e hist\u00f3rias aqui narradas, vaticinou:<\/p>\n<p>&#8212; 24 horas de conviv\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1 amor que resista. Logo logo todo esse fogo vira brasa dormida&#8230;<\/p>\n<p>Lavado e enxaguado nos desv\u00e3os da vida, ele era mestre Nasci no tema. Inclusive Bebeto que ouvia em sil\u00eancio as observa\u00e7\u00f5es do homem.<\/p>\n<p>&#8212; Assim voc\u00eas atropelam um ao outro. Queimam etapas. Logo, logo ficam parecendo aqueles casais acomodados, ranhetas, sem vida&#8230;<\/p>\n<p>Como de h\u00e1bito, n\u00e3o tardou a se fazer realidade as previs\u00f5es do Nasci.<\/p>\n<p>Os dois andavam jururus que s\u00f3.<\/p>\n<p>Era fato que se amavam. Mas, era fato tamb\u00e9m que estava dif\u00edcil segurar o romance.<\/p>\n<p>Alguns at\u00e9 diziam.<\/p>\n<p>&#8212; J\u00e1 era&#8230;<\/p>\n<p>Parte 3<\/p>\n<p>Pois ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Assim pens\u00e1vamos todos.<\/p>\n<p>&#8212; Eles j\u00e1 est\u00e3o na prorroga\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tarda e \u00e9 fim de jogo, fim de caso.<\/p>\n<p>Quem poderia contar com as estranhezas do futuro?<\/p>\n<p>Uma bela tarde Paula chega \u00e0 Reda\u00e7\u00e3o com duas novidades que se espalham entre n\u00f3s como rastilho de p\u00f3lvora. S\u00e3o bomb\u00e1sticas. <\/p>\n<p>A primeira.<\/p>\n<p>Vai pedir demiss\u00e3o. Preferiria ser \u2018mandada embora\u2019 assim levantaria o Fundo de Garantia.<\/p>\n<p>Essa grana chegaria num bom momento. Vai precisar e muito.<\/p>\n<p>Em tr\u00eas meses embarca para Paris, onde pretende ficar um tempo. No m\u00ednimo, dois anos. Sua matr\u00edcula fora aceita na Sorbone para um curso de extens\u00e3o em Sociologia Pol\u00edtica \u2013 esta era a segunda novidade.<\/p>\n<p>Felicita\u00e7\u00f5es e l\u00e1grimas marcaram aquela tarde.<\/p>\n<p>Paula foi dispensada do aviso pr\u00e9vio e aquele dia mesmo se despediu da gente.<\/p>\n<p>\u00d3bvio que Bebeto, algo desarvorado com a not\u00edcia, pediu que eu o substitu\u00edsse naquele \u2018fechamento\u2019 e a acompanhou at\u00e9 sua casa, onde \u2013 imaginamos \u2013 discutiriam a rela\u00e7\u00e3o, passariam a r\u00e9gua, fechariam a conta.<\/p>\n<p>Nada disso aconteceu. <\/p>\n<p>O baque da separa\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima \u2013 e inevit\u00e1vel&#8230; Ningu\u00e9m em s\u00e3 consci\u00eancia abriria m\u00e3o de uma oportunidade como a que se apresentava a Paula em meados dos anos 80.<\/p>\n<p>Como dizia, o baque da separa\u00e7\u00e3o fez ressaltar o sentimento que ambos sentiam \u2013e que era real. A partir daquele dia, os \u2018pombinhos\u2019 voltaram a arrulhar como se n\u00e3o houvesse amanh\u00e3. Falavam ao telefone dezenas de vezes ao dia \u2013 e olhe que ainda n\u00e3o havia a comodidade invasiva do celular. N\u00e3o deixaram de se amar uma s\u00f3 noite.<\/p>\n<p>Era bonito de se ver&#8230;<\/p>\n<p>Logo surgiu o dilema para Paula. Vou ou n\u00e3o vou&#8230;<\/p>\n<p>Decidiu ir. <\/p>\n<p>Bebeto tentou dissuadi-la. Haviam se reencontrado. Estavam t\u00e3o bem. Seriam felizes.<\/p>\n<p>Em nenhum segundo, Paula lhe tirou a raz\u00e3o. Em nenhum segundo, ela titubeou:<\/p>\n<p>&#8212; Se tiver que ser, superaremos o tempo e a dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>E assim se fez&#8230;<\/p>\n<p>Um dia antes do embarque, outra vez sobrou para mim a edi\u00e7\u00e3o do jornal. Bebeto estava sem cabe\u00e7a para outra coisa. Ficou junto da amada o tempo todo. Ajudou-a nos \u00faltimos detalhes. Quando afivelou as malas, teve a sensa\u00e7\u00e3o que a parte mais bonita da sua vida ficara trancada l\u00e1 dentro e t\u00e3o cedo n\u00e3o a reencontraria.<\/p>\n<p>Madrugada de sexta para s\u00e1bado \u2013 dia do embarque \u2013 Bebeto levantou-se cuidadosamente e, sem que Paula se desse conta, saiu nas pontas dos p\u00e9s. Amaram-se tudo. Choraram todas as dores. N\u00e3o resistiriam \u2013 ele e ela \u2013 \u00e0 despedida.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia mais motivo para se exporem a tanto.<\/p>\n<p>Passou a chave por debaixo da porta \u2013 n\u00e3o voltaria \u00e0quele apartamento, \u00e0quela rua, \u00e0quela parte da cidade. Com a chave, um bilhete e os versos da can\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Bosco e Aldir Blanc: <\/p>\n<p>\u201cVida \u00e9 fazer todo sonho brilhar.\u201d<\/p>\n<p>PARTE 4<\/p>\n<p>Nem sei se a Menina do Cabelo Vermelho ainda me acompanha nesta hist\u00f3ria. Que ali\u00e1s s\u00f3 voltou \u00e0 minha mente quando a jovem me confessou de suas inquieta\u00e7\u00f5es entre ir para Londres como engendrou ou retomar o antigo namoro&#8230;<\/p>\n<p>Lembrei da hist\u00f3ria de Paula e Bebeto que hoje, quatro posts depois, prometo terminar.<\/p>\n<p>Continuemos, pois.<\/p>\n<p>Quando Paula acordou naquela manh\u00e3 e leu o bilhete sentiu-se sem ch\u00e3o. Entendeu o tamanho da encrenca e a decis\u00e3o de partir n\u00e3o lhe pareceu t\u00e3o nobre assim. <\/p>\n<p>&#8212; Danem-se o que todos v\u00e3o pensar.<\/p>\n<p>O impulso de sair atr\u00e1s de Bebeto foi incontrol\u00e1vel. <\/p>\n<p>Era o que faria n\u00e3o fosse a invas\u00e3o de familiares e amigos que acorreram ao apartamento para desfrutar daqueles \u00faltimos momentos antes da viagem. Todos estavam dispostos a lhe ajudar nos \u2018finalmentes\u2019 antes do embarque. Todos vieram lhe desejar felicidades ressaltar a oportunidade \u00fanica em sua vida: morar em Paris, estudar na Sorbone. Que menina de sorte!<\/p>\n<p>Tudo o que Paula queria, naqueles instantes, era saber de Bebeto \u2013 que, de resto, para o grupo ali era coisa do passado.<\/p>\n<p>&#8212; Ainda bem que voc\u00ea se livrou daquele traste, disse-lhe o pai.<\/p>\n<p>Paula baixou os olhos e foi sentar-se perto do aparelho do telefone.<\/p>\n<p>Enquanto isso, Bebeto olhava o mar. <\/p>\n<p>Sa\u00edra sem destino do apartamento. Olhos inchados da noite mal dormida, dirigiu sem rumo pela cidade. At\u00e9 que afoitamente deixou-se levar pela estrada que lhe apareceu pela frente e o levou at\u00e9 o Litoral.<\/p>\n<p>Tinha certeza que, se ficasse em S\u00e3o Paulo, n\u00e3o se controlaria. Correria para o aeroporto, perderia o controle, faria cena para impedir a partida da mo\u00e7a. Tentou se conscientizar: no fundo ela tinha raz\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Vai ser bom para os dois, conformou-se.<\/p>\n<p>No aeroporto, rodeada pela turma, Paula sorria sem gra\u00e7a. Ansiosa, olhava para os lados e, at\u00e9 o \u00faltimo momento, esperou por Bebeto. Se ele aparecesse, tinha a convic\u00e7\u00e3o: n\u00e3o teria partido.<\/p>\n<p>Mas, Bebeto s\u00f3 soube disso meses depois. Ele pr\u00f3prio foi para Paris reencontrar Paula e jurar amor eterno. Foram dias maravilhosos, mas Paula &#8211; que menina! &#8211; preferiu ficar&#8230; <\/p>\n<p>(* A cr\u00f4nica foi originalmente postada com o t\u00edtulo de J\u00e1 Era&#8230; em quatro epis\u00f3dios, de 18 a 21 de abril.)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Menina de Cabelos Vermelhos (ou Levemente Avermelhados, de acordo com seus humores e amores) me contou. Teve uma reca\u00edda e foi encontrar-se duas vezes com o ex ou quase-futuro. 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