{"id":10955,"date":"2008-04-27T00:00:00","date_gmt":"2008-04-27T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:50:12","modified_gmt":"2017-09-15T19:50:12","slug":"dia-de-decisao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/dia-de-decisao\/","title":{"rendered":"Dia de decis\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>A cena escapou ao tatibitati das sess\u00f5es no Congresso. N\u00e3o sei se voc\u00eas, meus caros cinco ou seis leitores, se recordam.<\/p>\n<p>O ex-ministro Jos\u00e9 Dirceu estava depondo sobre o poss\u00edvel envolvimento no esc\u00e2ndalo do mensal\u00e3o. Era arg\u00fcido por parlamentares em tom incisivo, mas dentro dos tais padr\u00f5es de civilidade que a Casa imp\u00f5e. At\u00e9 que chegou a vez do ent\u00e3o deputado e inimigo visceral Roberto Jefferson. Estava na primeira fila, portanto h\u00e1 apenas alguns metros de Dirceu. Os olhos esbugalharam-se, a express\u00e3o se fez amea\u00e7adora e a voz parece ter sa\u00eddo da mais profunda caverna da alma.<\/p>\n<p>&#8212; Temo pelo que possa vir a acontecer toda vez que encontro Vossa Excel\u00eancia. Sua desfa\u00e7atez revira os meus instintos mais prim\u00e1rios&#8230;<\/p>\n<p>Creio que nunca as retic\u00eancias encaixaram t\u00e3o bem a uma frase. N\u00e3o guardei as palavras exatas. Mas lembro do \u201cVossa Excel\u00eancia\u201d, dos \u201cinstintos mais prim\u00e1rios\u201d e de que temi por um tr\u00e1gico final.<\/p>\n<p>Na hora em que assisti \u00e0 cena, lembrei de que j\u00e1 havia ouvido algo parecido em algum lugar. Mas, seguramente, em outro contexto. Uma \u2018buscazinha\u2019 nos velhos recortes de jornais que guardo \u2013 e l\u00e1 estava uma fala similar do cantor\/compositor Gilberto Gil. Ele acabara de compor uma can\u00e7\u00e3o sobre um boleiro famoso \u00e0 \u00e9poca, um misto de futebolista, intelectual e m\u00e9dico, o meio-campista do Botafogo, Afonsinho. <\/p>\n<p>O samba era em forma de carta e come\u00e7ava assim: <\/p>\n<p>\u201cPrezado amigo, Afonsinho.<br \/>\nEu continuo aqui mesmo<br \/>\naperfei\u00e7oando o imperfeito<br \/>\ndando um tempo, dando um jeito,<br \/>\nesperando a perfei\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Numa das tantas entrevistas, um dos rep\u00f3rteres perguntou a Gil se gostava de futebol. Havia uma certa ousadia na indaga\u00e7\u00e3o e explico o porqu\u00ea. Durante os anos 70, o esporte mais popular do Pa\u00eds foi estigmatizado junto \u00e0 intelig\u00eancia nativa. Diziam os intelectuais que o futebol servia \u201caos interesses dos militares\u201d, era um instrumento \u201cde aliena\u00e7\u00e3o das massas\u201d, \u201co \u00f3pio do povo\u201d.<\/p>\n<p>Como de costume, Gil foi sincero. Respondeu na linha de Roberto Jefferson. Gostava, sim \u2013 e muito. Era Bahia ou Vit\u00f3ria, n\u00e3o lembro. Mas, preferia n\u00e3o acompanhar o dia-a-dia do Planeta Bola. Primeiro, porque viajava muito. Depois, porque mexia com suas \u201cemo\u00e7\u00f5es mais prim\u00e1rias\u201d.<\/p>\n<p>Quem diria? <\/p>\n<p>Um ponto quase comum entre Gil, Jefferson e eu.<\/p>\n<p>Pois \u00e9. <\/p>\n<p>Nessa manh\u00e3 de domingo, h\u00e1 algumas horas da primeira partida das finais do Paulist\u00e3o 2008, n\u00e3o tenho cabe\u00e7a para outra coisa. N\u00e3o consigo fazer nada \u2013 ver TV, ouvir m\u00fasica, ler um livro \u2013 que n\u00e3o seja pensar na decis\u00e3o. <\/p>\n<p>Devem ser as tais emo\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias que o poeta falou.<\/p>\n<p>\u201cQuando surge o alvi-verde imponente<br \/>\nno est\u00e1dio onde a luta o aguarda&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Longe de mim parecer com o deputado. Toc, toc, toc.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cena escapou ao tatibitati das sess\u00f5es no Congresso. 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