{"id":10956,"date":"2008-04-28T00:00:00","date_gmt":"2008-04-28T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:50:12","modified_gmt":"2017-09-15T19:50:12","slug":"a-pergunta-3","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-pergunta-3\/","title":{"rendered":"A pergunta"},"content":{"rendered":"<p>&#8212; Por que voc\u00ea est\u00e1 fazendo isso?<\/p>\n<p>Ela respondeu quase em tom de s\u00faplica. Do outro lado da linha, a milhares de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, ele n\u00e3o sabia agora o que pensar. N\u00e3o se falavam h\u00e1 semanas, n\u00e3o se viam h\u00e1 um temp\u00e3o (nem sabia precisar, se foi h\u00e1 um m\u00eas ou um ano). Mas, de todas as formas, a imagem dela, o encanto do amor vivido &#8212; e plenamente vivido &#8212; e as asperezas de uma saudade a cada dia maior caminhavam com ele aonde quer que fosse. Perdeu as contas tamb\u00e9m das vezes que tentou a liga\u00e7\u00e3o, sem sucesso. Ora o sinal ca\u00eda, ora o tom impessoal da secret\u00e1ria eletr\u00f4nica lhe informava que estava repleta de recados, sabe-se l\u00e1 de quem. Quando conseguiu o contato, n\u00e3o controlou a emo\u00e7\u00e3o e a pergunta se fez inevit\u00e1vel naquele instante:<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea ainda me ama?<\/p>\n<p>Tolamente, o sim ou n\u00e3o da resposta, ele imaginava definitivo. Acabaria com as incertezas. Que, ali\u00e1s, continuaram ainda mais latentes, ampliadas agora pela enigm\u00e1tica forma com que lhe respondera.<\/p>\n<p>&#8212; Por que voc\u00ea est\u00e1 fazendo isso? Outra hora a gente se fala. Por favor&#8230;<\/p>\n<p>O sinal caiu. Mas seria tolice tentar restabelec\u00ea-lo. Ela ditara as regras de um jogo que, a essa altura e desde sempre, era de se supor perdido. Pior que havia passado a noite em claro, revirando-se na cama a organizar um racioc\u00ednio qualquer. Precisava lhe dizer tudo, organizada e claramente. Queria que ela se convencesse, como agora ele havia se convencido, de que podiam desafiar o mundo com a tal felicidade. Era vital rev\u00ea-la o mais breve poss\u00edvel, retomar a plenitude daquele amor, muito mais solidificado por esse distanciamento que as conting\u00eancias impuseram, mas que saberiam superar. Ser\u00e1? <\/p>\n<p>&#8212; Por que voc\u00ea est\u00e1 fazendo isso?<\/p>\n<p>O que ela quis dizer com essa resposta? <\/p>\n<p>Pensou, pensou e concluiu.<\/p>\n<p>Talvez para que a deixasse em paz. Quer tocar a vida e n\u00e3o ser\u00e1 conveniente que reaparecessem assombra\u00e7\u00f5es de um passado (n\u00e3o t\u00e3o remoto) que deseja esquecer de vez. Ou, no m\u00e1ximo, relembr\u00e1-lo de quando em quando, com ternura e uma ponta de desprendimento. Ah! as loucuras de uma paix\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o eternas. T\u00eam prazo para acabar. <\/p>\n<p>E, para ela,  a-c-a-b-o-u&#8230;<\/p>\n<p>Engoliu seco. T\u00e3o claro tudo. S\u00f3 ele custava a entender. <\/p>\n<p>O que pode querer uma mo\u00e7a hoje?<\/p>\n<p>\u00d3bvio, ela \u00e9 uma pessoa normal, com direito \u00e0s pompas e circunst\u00e2ncias de um casament\u00e3o,  filhos (muitos filhos, sempre disse gostar de crian\u00e7as), apartamento de quatro dormit\u00f3rios, carro importado, Natal com a fam\u00edlia, viagens para o Nordeste e todas as pequenas grandes conquistas da chamada realidade pequeno burguesa.<\/p>\n<p>Compreendeu que essa placidez ele nunca lhe ofereceu. Mas, seria t\u00e3o simples assim esquecer tudo o que viveram?<\/p>\n<p>&#8212; Por que voc\u00ea est\u00e1 fazendo isso? <\/p>\n<p>Sua voz n\u00e3o lhe sa\u00eda da cabe\u00e7a. Assombra e inquieta. Nunca foi um super-her\u00f3i, nem tinha a aspira\u00e7\u00e3o de s\u00ea-lo. Mas, caramba, foram felizes, sim, senhor. E de uma maneira muito especial, muito deles. Criaram um mundo muito particular, de pequenos encantos e grandes prazeres. Lugares e can\u00e7\u00f5es que serviram de cen\u00e1rio e trilha musical para um sentimento pleno, inimagin\u00e1vel antes de conhec\u00ea-la. Ser\u00e1 que s\u00f3 ele viveu essa maravilha de amar e imaginar-se amado? Ele e ela, tamanha unicidade. Imaginava-se eterno nesse sentimento. Pela primeira vez, um amor sereno, feito de risos e verdades. De sonhos que se transformavam em doce realidade. <\/p>\n<p>Estava desconsertado. \u00c9 imposs\u00edvel que algu\u00e9m chute tudo para o espa\u00e7o. E se programe para os novos tempos como um aut\u00f4mato sem mem\u00f3ria e emo\u00e7\u00e3o. Fez-se as trevas. A ordem \u00e9 implodir o Planeta Sonho. Que desperd\u00edcio.  <\/p>\n<p>&#8211;Por que voc\u00ea est\u00e1 fazendo isso? <\/p>\n<p>Isso l\u00e1 \u00e9 jeito de lhe responder. <\/p>\n<p>Como se ele ainda fosse o culpado, o algoz. <\/p>\n<p>Tentou se iludir. <\/p>\n<p>Em v\u00e3o.<\/p>\n<p>Logo entendeu a extens\u00e3o da pergunta e a verdade absoluta que nela se encerrava. <\/p>\n<p>&#8212; Por que voc\u00ea est\u00e1 fazendo isso?<\/p>\n<p>Ela perguntou por perguntar. N\u00e3o quis nem ouvir a resposta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8212; Por que voc\u00ea est\u00e1 fazendo isso?<\/p>\n<p>Ela respondeu quase em tom de s\u00faplica. Do outro lado da linha, a milhares de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, ele n\u00e3o sabia agora o que pensar.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10956","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10956","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10956"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10956\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16968,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10956\/revisions\/16968"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10956"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10956"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10956"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}