{"id":10963,"date":"2008-05-05T00:00:00","date_gmt":"2008-05-05T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:50:11","modified_gmt":"2017-09-15T19:50:11","slug":"maio-de-1968","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/maio-de-1968\/","title":{"rendered":"Maio de 1968"},"content":{"rendered":"<p>Uma hist\u00f3ria de 1968 que, sei, o Zuenir Ventura n\u00e3o contou. Vou-lhes contar.<\/p>\n<p>A Tarsila era uma menina bonita. Tinha l\u00e1 seus 16 ou 17 anos, cabelos compridos at\u00e9 a cintura e certo ar de garota descolada \u2013 embora naquele tempo, fim dos anos 60, n\u00e3o se usasse esse termo. Dizia-se \u201cexibida\u201d.<\/p>\n<p>Estud\u00e1vamos num pequeno col\u00e9gio, que hoje n\u00e3o mais existe, chamado IV Centen\u00e1rio, ali na rua Bom Pastor, no bairro do Ipiranga. \u00c9ramos sete jovens rapazes \u2013 reparem no \u201cjovens rapazes\u201d \u2013  numa classe de mais de 40 alunas. Faz\u00edamos Magist\u00e9rio que, ent\u00e3o, atendia pela denomina\u00e7\u00e3o de Normal.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos uma classe divertida \u2013 no fundo, no fundo, acho que poucos de n\u00f3s sab\u00edamos exatamente o que faz\u00edamos ali. Ou o que faz\u00edamos vida afora.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, h\u00e1 que se reconhecer: nada mais adequado, para nos definir, do que a frase do grande professor Cassemiro. <\/p>\n<p>&#8212; S\u00e3o jovens, felizes e inconseq\u00fcentes.<\/p>\n<p>Tarsila fazia por onde escapar desse perfil. Ao menos, tentava. Sempre tinha defini\u00e7\u00f5es na ponta da l\u00edngua. Parecia entender o certo e o errado da vida.<\/p>\n<p>Certa noite \u2013 sim, porque estud\u00e1vamos \u00e0 noite para ficar mais tempo sem fazer nada \u2013 a rapaziada estava reunida a discutir provavelmente coisas de futebol quando Tarsila  interrompe nossa transcendental conversa para nos informar que:<\/p>\n<p>01. n\u00e3o namoraria com o Z\u00e9 Roberto Pereira porque era muito farrista \u2013 leia-se baladeiro \u2013 e gozador.<\/p>\n<p>02. n\u00e3o namoraria nem com o Jo\u00e3o, nem com o Rubens que eram bem mais velhos. Al\u00e9m do que, o Jo\u00e3o era casado.<\/p>\n<p>03. n\u00e3o namoraria o Z\u00e9 Luis porque era noivo e estava ficando careca.<\/p>\n<p>04. n\u00e3o me namoraria porque eu n\u00e3o trabalhava e n\u00e3o era exatamente o seu tipo \u2013 ou seja, feinho, feinho.<\/p>\n<p>05. n\u00e3o namoraria o outro Z\u00e9 Roberto porque, embora bonit\u00e3o, era muito garoto.<\/p>\n<p>06. por fim, n\u00e3o namoraria o Astr\u00e3o porque n\u00e3o queria e pronto.<\/p>\n<p>Isto posto, sorriu para as coleguinhas que a acompanhavam, c\u00famplices e disse:  <\/p>\n<p>&#8212; Vamos!<\/p>\n<p>Estava para sair da roda quando o Z\u00e9 Roberto baladeiro e gozador fez jus \u00e0 fama:<\/p>\n<p>&#8212; \u00d4 Tarsila, deixa de ser exibida. Primeiro, voc\u00ea deveria saber quem de n\u00f3s \u00e9 o louco de querer namorar voc\u00ea? Depois, mulher, ningu\u00e9m lhe perguntou nada&#8230;<\/p>\n<p>Lembrei desta hist\u00f3ria hoje. Um aluno veio me perguntar se sou um \u201cremanescente\u201d de 68 e eu n\u00e3o soube lhe responder. N\u00e3o sei o porqu\u00ea fiquei com a sensa\u00e7\u00e3o que este causo resume o que, n\u00f3s, garotos remediados de um bairro remediado de S\u00e3o Paulo, \u00e9ramos e como viv\u00edamos.<\/p>\n<p>Um pouco l\u00e1, um pouco c\u00e1, gost\u00e1vamos de ter raz\u00e3o em tudo. Ansi\u00e1vamos um mundo ideal. Mais justo, mais solid\u00e1rio. Mas, n\u00e3o t\u00ednhamos consci\u00eancia de tudo o que acontecia ao nosso redor. <\/p>\n<p>\u00c9ramos, sim, o que o professor Cassemiro dizia: \u201cjovens inconseq\u00fcentes\u201d; por\u00e9m, felizes, bem felizes em maio de 1968, o ano que n\u00e3o terminou&#8230;<\/p>\n[Texto publicado no livro \u201cVolteios &#8211;  Cr\u00f4nicas, lembran\u00e7as e devaneios\u201d]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma hist\u00f3ria de 1968 que, sei, o Zuenir Ventura n\u00e3o contou. Vou-lhes contar.<\/p>\n<p>A Tarsila era uma menina bonita. 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