{"id":10971,"date":"2008-05-13T00:00:00","date_gmt":"2008-05-13T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:50:10","modified_gmt":"2017-09-15T19:50:10","slug":"alta-patente","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/alta-patente\/","title":{"rendered":"Alta patente"},"content":{"rendered":"<p>Aconteceu na Reda\u00e7\u00e3o daquele importante jornal de bairro num tempo em que todos, que a conheceram, sentem saudades. Menos um certo capit\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>O senhor de cabelos grisalhos assumira, dia antes, o comando regional da Pol\u00edcia Militar. Como era praxe nessas ocasi\u00f5es, um dos primeiros atos oficiais da nova autoridade era fazer uma visita \u00e0 Reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eis que, no dia e hora aprazados pela assessoria da PM, o homem chaga com toda a pompa e circunstancia. Estava nos trinques. Farda impec\u00e1vel, passos firmes, barriga para dentro, peito para fora e o quepe em uma das m\u00e3os, junto ao peito. Um porte digno das mais altas patentes.<\/p>\n<p>Foi recebido por mim \u2013 ent\u00e3o, diretor de Reda\u00e7\u00e3o \u2013 e por alguns representantes de entidades locais, os tais l\u00edderes comunit\u00e1rios. <\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Feitas as apresenta\u00e7\u00f5es formais \u2013 diria at\u00e9 que em um tom solene \u2013 chamei uma de nossas rep\u00f3rteres para entrevist\u00e1-lo sobre os novos projetos. A quest\u00e3o da seguran\u00e7a sempre est\u00e1 na ordem do dia. <\/p>\n<p>Encaminhei a todos para um espa\u00e7o no outro extremo da Reda\u00e7\u00e3o, especialmente arranjado para essas ilustres visitas. <\/p>\n<p> Ali\u00e1s, vale dizer, a Reda\u00e7\u00e3o ocupava o primeiro andar de um dos casar\u00f5es de uma movimentada avenida. N\u00e3o havia paredes, nem divis\u00f5es. Trabalh\u00e1vamos em mesas justapostas que permitia certa integra\u00e7\u00e3o entre os rep\u00f3rteres. Por isso, mesmo sob a sinfonia das m\u00e1quinas de escrever, pudemos ouvir a conversa \u2013 ou, parte dela.<\/p>\n<p>O comandante era um cricri. A cada pergunta que ele respondia, devolvia \u00e0 rep\u00f3rter outras perguntas:<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea anotou tudo o que eu lhe disse? Anotou direitinho? Olha l\u00e1, hein&#8230;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>V\u00edamos a jornalista sorrir sem gra\u00e7a e, tudo bem, seguir o bate-papo como se nada tivesse ouvido. <\/p>\n<p>&#8212; Olha l\u00e1, hein&#8230; Conhe\u00e7o como funciona a imprensa.<\/p>\n<p>Que belo comandante foram nos arranjar!<\/p>\n<p>\u00d3bvio que a mo\u00e7a n\u00e3o demorou em dar por encerrada a entrevista.<\/p>\n<p>Comemoramos silenciosamente. J\u00e1 estava dando nos nervos o jeito sabich\u00e3o do homem.<\/p>\n<p>&#8212; Olha l\u00e1, hein&#8230; Quer mandar o texto para eu ler antes de publicar?<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m respondeu a \u00faltima das suas inconvenientes quest\u00f5es. Ent\u00e3o, como se nada houvesse, o militar se despediu de todos e foi embora escada abaixo&#8230;<\/p>\n<p>Inevit\u00e1vel a saraivada de improp\u00e9rios e imita\u00e7\u00f5es que a turba fez assim que o militar saiu. Foi incontrol\u00e1vel. At\u00e9 os representantes entraram na bagun\u00e7a. A rep\u00f3rter era a mais alucinada. Paramos de trabalhar para fazer coro aos seus reclamos.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos no auge da fuzarca a debochar e rir e soltar toda nossa ira e rep\u00fadio, quando ouvimos uma voz estranha, mas n\u00e3o t\u00e3o estranha assim:<\/p>\n<p>&#8212; Hum, hum&#8230;Com licen\u00e7a. Esqueci meu quepe.<\/p>\n[Texto publicado no livro &quot;Meus Caros Amigos \u2013 Cr\u00f4nicas sobre jornalistas, bo\u00eamios e paix\u00f5es&quot;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aconteceu na Reda\u00e7\u00e3o daquele importante jornal de bairro num tempo em que todos, que a conheceram, sentem saudades. 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