{"id":10977,"date":"2008-05-13T00:00:00","date_gmt":"2008-05-13T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:02:04","modified_gmt":"2017-09-14T04:02:04","slug":"velhos-jornalistas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/velhos-jornalistas\/","title":{"rendered":"Velhos jornalistas"},"content":{"rendered":"<p>Na aula de Hist\u00f3ria do Jornalismo Brasileiro, n\u00e3o resisto a provoca\u00e7\u00e3o e pergunto aos estudantes: haveria espa\u00e7o hoje para o jornal Not\u00edcias Populares, que era assumidamente sensacionalista e voltado para as classes C e D? <\/p>\n<p>As respostas s\u00e3o sempre difusas \u2013 mas, na maioria, os futuros jornalistas dizem que n\u00e3o. N\u00e3o haveria mais lugar, nos ditames do jornalismo moderno, para o velho NP que, nos anos 60, criou o discutido \u201cjornalismo fant\u00e1stico\u201d, reportagens inveross\u00edmeis como o \u201cbeb\u00ea-diabo\u201d e o \u201cchupa-cabra\u201d. <\/p>\n<p>Antes de propor o debate, exibo um document\u00e1rio com a hist\u00f3ria e a luta do jornal, fundado em 1962 para fazer frente ao popular\u00edssimo \u00daltima Hora. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que, j\u00e1 no DNA, o Not\u00edcias Populares era um jornal escrachado. Mas, os velhos jornalistas, comandados pelo romeno Jean Mell\u00e9 e depois por Ebrahim Ramadan, cuidavam para n\u00e3o colocar fontes e entrevistados a execra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. <\/p>\n<p>Ramadan, inclusive, usava de um recurso bastante engenhoso para \u2018manchetar\u2019 as edi\u00e7\u00f5es di\u00e1rias do NP. Fazia tr\u00eas ou quatro t\u00edtulos e os submetia \u00e0 vota\u00e7\u00e3o junto aos cont\u00ednuos do jornal. O que vencesse ilustraria a primeira p\u00e1gina no dia seguinte, e em letras garrafais.<\/p>\n<p>Era um modo de estar em sintonia com os leitores, falar a l\u00edngua deles, respeit\u00e1-los \u2013 mas, esclare\u00e7a-se, n\u00e3o eram eles que determinavam o assunto a merecer destaque. <\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos 90, o NP passou por uma ampla reformula\u00e7\u00e3o para enquadr\u00e1-lo aos novos tempos e tentar  dar um equil\u00edbrio ao furor sensacionalista. Uma nova gera\u00e7\u00e3o de profissionais de Imprensa assumiu o comando. <\/p>\n<p>Durou pouco a fase de comedimento. <\/p>\n<p>Empolgada pelas boas tiragens, logo a rapaziada estava fazendo pior. <\/p>\n<p>Lembro que num dado momento do document\u00e1rio, a nova editora do NP, Laura Capriglione, faz um m\u00e9a-culpa e diz mais ou menos o seguinte:<\/p>\n<p>&#8212; Quando receb\u00edamos os boletins de tiragem, era uma festa na reda\u00e7\u00e3o. Sub\u00edamos nas mesas para comemorar. A\u00ed, na edi\u00e7\u00e3o seguinte, aument\u00e1vamos um tom acima na manchete. Carreg\u00e1vamos mesmo. Partimos com tudo para o bizarro e para o sexo. \u00c0s vezes, o jornal era s\u00f3 sexo mesmo&#8230; <\/p>\n<p>Na noite de domingo, o Fant\u00e1stico bateu o recorde de audi\u00eancia \u2013 algo em torno de 33 pontos de m\u00e9dia no Ibope e picos de 43 pontos nos 24 minutos que durou a entrevista, com Ana Carolina Oliveira, a m\u00e3e da menina Isabella. \u00c9 gente pra ded\u00e9u. Dizem que cada ponto equivale a 55, 5 mil domic\u00edlios, s\u00f3 na Grande S\u00e3o Paulo onde se realizou o levantamento&#8230;<\/p>\n<p>Imaginei os jornalistas do Fant\u00e1stico em cima das mesas a comemorar os inigual\u00e1veis \u00edndices de audi\u00eancia, com entrevistas no melhor estilo NP. Com uma diferen\u00e7a. Est\u00e3o ref\u00e9ns da opini\u00e3o p\u00fablica, longe, muito longe do bom jornalismo que apregoavam alguns dos meus velhos camaradas.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou lembrar o ano. Mas, faz tempo que recebi essas li\u00e7\u00f5es que n\u00e3o constam de nenhum livro, comp\u00eandio, tese ou disserta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existia o S\u00e3o Google para consultas imediatas de terceiro grau. <\/p>\n<p>Ali\u00e1s, nem computadores havia nas reda\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>Eram tempos da velha m\u00e1quina de escrever. O fot\u00f3grafo era chamado de \u201clambe-lambe\u201d e o rep\u00f3rter de \u201ccanetinha\u201d. Assim nos divert\u00edamos enquanto cort\u00e1vamos a cidade atr\u00e1s de uma \u201cmat\u00e9ria\u201d que virasse primeira p\u00e1gina no dia seguinte. T\u00ednhamos hora para entrar \u2013 ali por volta das 13 h, nunca para sair.<\/p>\n<p>Era garoto \u2013 pouco mais de 20 anos \u2013 e sentia um baita orgulho de ser jornalista. Um orgulho que cresceu ainda mais quando conheci um velho jornalista aposentado. Chamava-se Fl\u00e1vio Xavier de Toledo e, em tempos idos, fora redator do Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro. Era um senhor distinto, elegante que, \u00e0quela altura da vida, morava no pacato bairro do Jardim da Sa\u00fade, zona sul de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, era o motivo do encontro. Ele queria dar uma for\u00e7a para os movimentos populares que reivindicavam melhorias para a regi\u00e3o e, jornalista que era, fez quest\u00e3o de me dizer, a primeira coisa que pensou em fazer foi contatar a imprensa \u201cpara apoiar a causa\u201d.<\/p>\n<p>&#8212; A imprensa, filho, \u00e9 a express\u00e3o do pensamento social.<\/p>\n<p>Achei a frase bonita. Mas, formal demais para quem, como ele, participou da revolu\u00e7\u00e3o que o JB promoveu no jornalismo brasileiro em meados dos anos 50, com a introdu\u00e7\u00e3o do lead, a valoriza\u00e7\u00e3o do planejamento gr\u00e1fico, entre outras conquistas.<\/p>\n<p>Anos 70. A ditadura a impor os r\u00edgidos limites da censura \u00e0 Imprensa. A sociedade desinformada \u2013 e, provavelmente por isso, silenciosa. Os jornais a estampar receitas de bolo e versos de Cam\u00f5es no lugar das reportagens vetadas pelos censores. A resist\u00eancia de artistas, intelectuais, estudantes e bravos jornalistas. <\/p>\n<p>Fl\u00e1vio era um deles. <\/p>\n<p>Com essa iniciativa, queria agrupar os moradores do Jardim da Sa\u00fade em entidades representativas e, a partir da\u00ed, ter mais peso nas decis\u00f5es Era bonito v\u00ea-lo fiel ao sonho da transforma\u00e7\u00e3o social que, \u00e0quela altura, era assunto presente em todas as rodas de profissionais de Imprensa.<\/p>\n<p>Andamos pelo Jardim da Sa\u00fade. Entrevistei moradores e comerciantes sobre os problemas locais e as sugest\u00f5es para resolv\u00ea-los. Alguns se transformaram em l\u00edderes comunit\u00e1rios, como preconizou o jornalista. Lembro ter destacado o trabalho do Plen\u00e1rio da Zona Sul, que tinha como presidente o m\u00e9dico Eduardo Campos Rosmaninho.<\/p>\n<p>Foi uma mat\u00e9ria simples, mas gerou frutos.<\/p>\n<p>Gostei de escrev\u00ea-la.<\/p>\n<p>&#8212; A imprensa, filho, \u00e9 a express\u00e3o do pensamento social. Mas, nunca o jornalista pode ficar ref\u00e9m da opini\u00e3o p\u00fablica&#8230;<\/p>\n<p>Aprendi tanto com o jornalista Fl\u00e1vio Xavier de Toledo. E ainda ganhei de presente um pequeno boton, desses que se usavam na lapela do palet\u00f3.<\/p>\n<p>Era da Ordem dos Velhos Jornalistas.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Passei a usar o \u2018pin\u2019 na lapela da minha jaqueta. N\u00e3o que me considerasse um experiente homem de Imprensa, mas era uma esp\u00e9cie de rever\u00eancia \u00e0queles que me precederam em t\u00e3o nobre miss\u00e3o. Aqueles que conhecia pessoalmente (Fl\u00e1vio, Marques, Z\u00e9 Jofre, Nasci, o cronista esportivo Ari Silva, Vladimir Herzog que foi meu professor na Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes da USP, entre outros) e os que admirava \u00e0 dist\u00e2ncia \u2013 Rubem Braga, Carlos Heitor Cony, Cl\u00e1udio Abramo, Mino Carta, Z\u00e9 Hamilton Ribeiro e Marcos Faermann para ficar s\u00f3 com os obrigat\u00f3rios e n\u00e3o nos enredarmos num listar sem fim de nomes.<\/p>\n<p>Para ser franco, nunca soube se a tal Ordem dos Velhos Jornalistas existia mesmo e que piano tocava nessa dolente valsa da vida. Ali\u00e1s, devo-lhes outra confiss\u00e3o: nunca fui ligado a sindicatos, associa\u00e7\u00f5es, movimentos representativos disso ou daquilo. Sei que h\u00e1 quem veja a\u00ed um deslize da minha parte, mas&#8230; <\/p>\n<p>De qualquer forma, achava bonita a id\u00e9ia de uma Ordem dos Velhos Jornalistas. Era uma esp\u00e9cie de sublima\u00e7\u00e3o. Entendia a Ordem como uma confraria a que pertencessem todos os jornalistas depois perfazerem longos e longos anos de estrada. No fundo, no fundo, meus caros, creio que almejava, um dia l\u00e1 na frente, ser um desses not\u00e1veis, pertencer a esse Conselho de paj\u00e9s que esbanjavam talento, coragem e sapi\u00eancia.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que eu chegaria l\u00e1?<\/p>\n<p>Era pergunta que fazia aos meus descor\u00e7oados bot\u00f5es.<\/p>\n<p>O implac\u00e1vel conta-gotas do tempo fez a parte que lhe coube, cabe e caber\u00e1. Meus cabelos branquearam, o broche desapareceu e nunca mais ouvi falar da Ordem. O Brasil democratizou-se e os jornalistas abandonaram as m\u00e1quinas de escrever. Viraram multim\u00eddias e cousa e lousa e mariposa&#8230; <\/p>\n<p>Foi no s\u00e9culo passado, algu\u00e9m h\u00e1 de dizer. <\/p>\n<p>Mas, convenhamos, nem faz tanto tempo assim&#8230;<\/p>\n<p>Querem saber? <\/p>\n<p>Ando abestalhado \u2013 mais do que o costumeiro, diga-se \u2013 de ver o jornalismo a ano-luz de dist\u00e2ncia do que apregoavam esses senhores.<\/p>\n<p>Confesso. <\/p>\n<p>Fiquei constrangido ao ver uma rep\u00f3rter de TV tentar interceptar o trajeto da madrasta da menina Isabella no dia da pris\u00e3o, com o microfone em punho. A mo\u00e7a foi jogada longe pela a\u00e7\u00e3o dos policiais que abriam caminho aos trancos e barrancos at\u00e9 a viatura. Fiquei a imaginar que tipo de entrevista ou de declara\u00e7\u00e3o a tal rep\u00f3rter pensou colher ali. Que informa\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica a acusada poderia lhe passar naquele instante de terror? Nenhuma. \u00c8 certo que a jovem rep\u00f3rter televisiva foi pautada por algum editor ou chefe de reportagem. Ambos igualmente \u00e1vidos em transformar o fato jornal\u00edstico num grande evento para satisfazer a morbidez das massas. <\/p>\n<p>Sei bem que Jornais e Jornalistas \u2013 e grafo de prop\u00f3sito em mai\u00fasculas \u2013 n\u00e3o s\u00e3o isentos de erros. Ao contr\u00e1rio. Vivemos no fio da navalha dos prazos de fechamentos da edi\u00e7\u00e3o, das press\u00f5es pol\u00edticas e editoriais \u2013 sim, porque o jornal tem um dono \u2013, dos interesses escusos \u00e0 atividade jornal\u00edstica. A Hist\u00f3ria da Imprensa est\u00e1 recheada de casos assim a se lamentar. Para ficar em dois exemplos recentes e amplamente debatidos, citemos o Caso da Escola Base e o Crime do Bar Bodega; ali\u00e1s, hist\u00f3rias de equ\u00edvocos bem pr\u00f3ximos aos que agora cometem policiais e jornalistas.<\/p>\n<p>O mais grave, por\u00e9m, \u00e9 que estamos cada vez mais mecanizados, rob\u00f3ticos. Sem controle do que fazemos.<\/p>\n<p>A li\u00e7\u00e3o do amigo Fl\u00e1vio anda esquecida. E \u00e9 elementar. Por isso, torno repeti-la aqui:<\/p>\n<p>&#8212; A imprensa, filho, \u00e9 a express\u00e3o do pensamento social. Mas, nunca o jornalista pode ficar ref\u00e9m da opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n[Vers\u00e3o publicada no blog do Uol com o t\u00edtulo &quot;Sobre Jornais e Jornalistas&quot;]\n[Texto tamb\u00e9m publicado no livro &quot;Meus Caros Amigos \u2013 Cr\u00f4nicas sobre jornalistas, bo\u00eamios e paix\u00f5es&quot;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na aula de Hist\u00f3ria do Jornalismo Brasileiro, n\u00e3o resisto a provoca\u00e7\u00e3o e pergunto aos estudantes: haveria espa\u00e7o hoje para o jornal Not\u00edcias Populares, que era assumidamente sensacionalista e voltado para as classes C e D?<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-10977","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10977","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10977"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10977\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13959,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10977\/revisions\/13959"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10977"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10977"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10977"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}