{"id":10978,"date":"2008-05-15T00:00:00","date_gmt":"2008-05-15T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2018-03-29T20:17:16","modified_gmt":"2018-03-29T20:17:16","slug":"o-exercicio-da-cronica","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-exercicio-da-cronica\/","title":{"rendered":"O exerc\u00edcio da cr\u00f4nica"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Vinicius de Moraes<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Escrever prosa \u00e9 uma arte ingrata. Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; n\u00e3o a prosa de um ficcionista, na qual este \u00e9 levado meio a tapas pelas personagens e situa\u00e7\u00f5es que, azar dele, criou porque quis. Com um prosador do cotidiano, a coisa fia mais fino. Senta-se ele diante de sua m\u00e1quina, acende um cigarro, olha atrav\u00e9s da janela e busca fundo em sua imagina\u00e7\u00e3o um fato qualquer, de prefer\u00eancia colhido no notici\u00e1rio matutino, ou da v\u00e9spera, em que, com as suas artimanhas peculiares, possa injetar um sangue novo. Se nada houver, resta-lhe o recurso de olhar em torno e esperar que, atrav\u00e9s de um processo associativo, surja-lhe de repente a cr\u00f4nica, provinda dos fatos e feitos de sua vida emocionalmente despertados pela concentra\u00e7\u00e3o. Ou ent\u00e3o, em \u00faltima inst\u00e2ncia, recorrer ao assunto da falta de assunto, j\u00e1 bastante gasto, mas do qual, no ato de escrever, pode surgir o inesperado.<\/p>\n<p>Alguns fazem-no de maneira simples e direta, sem caprichar demais no estilo, mas enfeitando-o aqui e ali desses pequenos achados que s\u00e3o a sua marca registrada e constituem um t\u00f3pico infal\u00edvel nas conversas do alheio naquela noite. Outros, de modo lento e elaborado, que o leitor deixa para mais tarde como um convite ao sono: a estes se l\u00ea como quem mastiga com prazer grandes bolas de chicletes. Outros, ainda, e constituem a maioria, &#8220;tacam peito&#8221; na m\u00e1quina e cumprem o dever cotidiano da cr\u00f4nica com uma esp\u00e9cie de desespero, numa atitude ou-vai-ou-racha. H\u00e1 os euf\u00f3ricos, cuja prosa procura sempre infundir vida e alegria em seus leitores e h\u00e1 os tristes, que escrevem com o fito exclusivo de desanimar o gentio n\u00e3o s\u00f3 quanto \u00e0 vida, como quanto \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana e \u00e0s raz\u00f5es de viver. H\u00e1 tamb\u00e9m os modestos, que ocultam cuidadosamente a pr\u00f3pria personalidade atr\u00e1s do que dizem e, em contrapartida, os vaidosos, que castigam no pronome na primeira pessoa e colocam-se geralmente como a personagem principal de todas as situa\u00e7\u00f5es. Como se diz que \u00e9 preciso um pouco de tudo para fazer um mundo, todos estes &#8220;marginais da imprensa&#8221;, por assim dizer, t\u00eam o seu papel a cumprir. Uns afagam vaidades, outros, as espica\u00e7am; este \u00e9 lido por puro deleite, aquele por puro v\u00edcio. Mas uma coisa \u00e9 certa: o p\u00fablico n\u00e3o dispensa a cr\u00f4nica, e o cronista afirma-se cada vez mais como o cafezinho quente seguido de um bom cigarro, que tanto prazer d\u00e3o depois que se come.<\/p>\n<p>Coloque-se por\u00e9m o leitor, o ingrato leitor, no papel do cronista. Dias h\u00e1 em que, positivamente, a cr\u00f4nica &#8220;n\u00e3o baixa&#8221;. O cronista levanta-se, senta-se, lava as m\u00e3os, levanta-se de novo, chega \u00e0 janela, d\u00e1 uma telefonada a um amigo, p\u00f5e um disco na vitrola, rel\u00ea cr\u00f4nicas passadas em busca de inspira\u00e7\u00e3o &#8211; e nada. Ele sabe que o tempo est\u00e1 correndo, que a sua p\u00e1gina tem uma hora certa para fechar, que os linotipistas o est\u00e3o esperando com impaci\u00eancia, que o diretor do jornal est\u00e1 provavelmente co\u00e7ando a cabe\u00e7a e dizendo a seus auxiliares:<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9&#8230; n\u00e3o h\u00e1 nada a fazer com Fulano&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>A\u00ed ent\u00e3o \u00e9 que, se ele \u00e9 cronista mesmo, ele se pega pela gola e diz:<\/p>\n<p>&#8220;Vamos, escreve, \u00f3 mascarado! Escreve uma cr\u00f4nica sobre esta cadeira que est\u00e1 a\u00ed em tua frente! E que ela seja bem-feita e divirta os leitores!&#8221;<\/p>\n<p>E o neg\u00f3cio sai de qualquer maneira.<\/p>\n<p>O ideal para um cronista \u00e9 ter sempre uma os duas cr\u00f4nicas adiantadas. Mas eu conhe\u00e7o muito poucos que o fa\u00e7am. Alguns tentam, quando come\u00e7am, no af\u00e3 de dar uma boa impress\u00e3o ao diretor e ao secret\u00e1rio do jornal. Mas se ele \u00e9 um verdadeiro cronista, um cronista que se preza, ao fim de duas semanas estar\u00e1 gastando a metade do seu ordenado em mandar sua cr\u00f4nica de t\u00e1xi &#8211; e a verdade \u00e9 que, em sua inocente maldade, tem um certo prazer em imaginar o suspiro de al\u00edvio e a correria que ela causa, quando, tal uma filha desaparecida, chega de volta \u00e0 casa paterna.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em><strong>Vinicius de Moraes<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Escrever prosa \u00e9 uma arte ingrata. Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; n\u00e3o a prosa de um ficcionista, na qual este \u00e9 levado meio a tapas pelas personagens e situa\u00e7\u00f5es que,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-10978","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uns-e-outros"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10978","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10978"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10978\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18573,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10978\/revisions\/18573"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10978"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10978"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10978"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}