{"id":10981,"date":"2008-05-21T00:00:00","date_gmt":"2008-05-21T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:50:09","modified_gmt":"2017-09-15T19:50:09","slug":"tiao-das-mulas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/tiao-das-mulas\/","title":{"rendered":"Ti\u00e3o das Mulas"},"content":{"rendered":"<p>Foi como se tivesse feito um curso intensivo sobre a vida. Aconteceu num feriado de Corpus Christi, como o de amanh\u00e3, S\u00f3 que na virada do s\u00e9culo, em 2000. Fui pautado para realizar uma reportagem sobre a Trilha do Ouro no Parque da Serra da Bocaina, na divisa de S\u00e3o Paulo e o Rio de Janeiro. <\/p>\n<p>Eu e o rep\u00f3rter-fotogr\u00e1fico Robson Fernandjes fomos designados para acompanhar um grupo de eco-turistas que fariam o trajeto a p\u00e9 pelo mais antigo caminho cal\u00e7ado por pedras em plagas brasileiras. Era por essa rota em meio \u00e0 mata que caravanas de mulas, tocadas por tropeiros, levavam o outro de Minas para as embarca\u00e7\u00f5es portuguesas (ou inglesas) em Paraty ou Angra dos Reis. Hoje, a trilha \u00e9 uma atra\u00e7\u00e3o tur\u00edstica e as mulas s\u00e3o o \u00fanico transporte poss\u00edvel, dada as peculiaridades da estrada. S\u00f3 que os animais n\u00e3o carregam mais metais e pedras preciosas. Levam, sim, as mochilas coloridas das diversas tribos urbanas que se travestem em Indiana Jones.<\/p>\n<p>Foram quatro dias de caminhadas pelo lugar que \u00e9 tombado pelo Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico. Dormimos duas noites em casas da caboclada. Em conversas ao redor da fogueira fiquei sabendo do dilema que vive este grot\u00e3o do Brasil. <\/p>\n<p>Os &#8216;voadores&#8217; &#8212; ou seja o pessoal que voa de asa delta &#8212; compram terrenos ali para veranear e deixam o mato crescer &#8212; salve o verde. Os bocaneiros, matutos que nunca sa\u00edram do lugar e moram em pequenos ranchos, fazem uma agricultura de sobreviv\u00eancia. Os mo\u00e7os da cidade logo os denunciam para o IBAMA por desmatamento. Os fiscais v\u00e3o l\u00e1 e os multam em 2, 3, 5 mil reais. Dinheiro que, diga-se, n\u00e3o ganharam e nunca v\u00e3o ganhar na vida. <\/p>\n<p>&#8212; Minha vida est\u00e1 aqui antes da terra virar parque.<\/p>\n<p>Foi assim que, naquela ocasi\u00e3o, Sebasti\u00e3o Henrique de Lima, o nome de batismo de Ti\u00e3o das Mulas, come\u00e7ou a relatar a sua hist\u00f3ria e um pouco da hist\u00f3ria do Parque Nacional da Bocaina, onde mora desde que nasceu. <\/p>\n<p>Ti\u00e3o era agricultor e tinha ent\u00e3o 32 anos. Tirava um dinheirinho extra no fim do m\u00eas desde que passou a acomodar grupo de turistas em sua casa de paredes varadas \u00e0 beira do rio Mambucaba. Outro refor\u00e7o vinha do candear de mulas carregadas de mochilas at\u00e9 o fim da trilha. <\/p>\n<p>Ele me deu um depoimento tocante que transformei em reportagem e hoje transcrevo aqui.<\/p>\n<p>Leiam!<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>OS ANFITRI\u00d5ES NA SERRA DA BOCAINA <\/p>\n<p>N\u00e3o tenho estudo, n\u00e3o, mo\u00e7o. <\/p>\n<p>Como vou viver fora daqui? <\/p>\n<p>Foi meu av\u00f4, que ainda hoje \u00e9 vivo e tem 77 anos, quem ajudou a erguer a Fazenda Central. Meus pais nasceram aqui, como eu e meus irm\u00e3os. Como meus filhos. <\/p>\n<p>N\u00e3o tem como sair daqui, n\u00e3o. Para onde vou? S\u00e3o Jos\u00e9 (do Barreiro)? S\u00e3o Paulo? <\/p>\n<p>N\u00e3o temos nada a fazer por l\u00e1. Sempre fomos do ro\u00e7ado, da cria\u00e7\u00e3o. N\u00e3o entendo os homens do Ibama &#8211; pensam que vamos destruir tudo: sujar a \u00e1gua dos rios, derrubar as \u00e1rvores, acabar com o palmito. Justamente n\u00f3s que sempre vivemos aqui e s\u00f3 sabemos viver do que essa terra nos d\u00e1. N\u00e3o tem cabimento. <\/p>\n<p>Eles ficam bravos, falam que n\u00e3o pode isso, n\u00e3o pode aquilo. E cascam multas na gente. N\u00e3o pode nem arar a terra que eles chegam mandando desfazer o que a gente fez. <\/p>\n<p>S\u00f3 porque levantei minha casinha l\u00e1 pelos lados do Vale dos Pinos, j\u00e1 levei 11 multas. Quando fiz a cozinha deram uma de R$ 2 mil. Depois aumentei os c\u00f4modos, veio outra de R$ 5 mil. Imagina se tenho como pagar essas danadas?<br \/>\nNem penso nisso.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o advogado disse que tenho direito de ficar aqui. Minha fam\u00edlia est\u00e1 aqui antes da terra virar parque. Ent\u00e3o, podemos ficar e pronto. Para ser sincero, somos os primeiros a querer preservar a mata. S\u00f3 plantamos o que \u00e9 para a gente comer &#8211; e para alguma troca. A gente tamb\u00e9m faz um queijo e cuida do gado. \u00c9 pouco, mas d\u00e1 para ir levando. Nada que possa prejudicar o lugar onde a gente vive e onde os filhos da gente v\u00e3o viver. Ainda mais agora que estamos dando pouso e alimento para os turistas, a gente quer manter tudo nos conformes. \u00c9 um dinheirinho a mais que entra. <\/p>\n<p>At\u00e9 minha mulher Estelina gostou da novidade. Ela nem se importa de cozinhar para esse punhado de gente. A casa fica movimentada. Acaba com o nosso isolamento &#8211; e, de quebra, d\u00e1 para pensar melhor na vida. O dinheiro? N\u00e3o \u00e9 muito, mas ajuda. Aos poucos, vamos levantando a casa, melhorando o jeito de viver. Temos que pensar num jeito dos filhos terem uma vida melhor do que essa que vivemos. <\/p>\n<p>** A \u00edntegra da reportagem Serra da Bocaina &#8211; Nas Trilhas de Um Velho Para\u00edso foi publicada em setembro de 2000 no Jornal da Tarde e est\u00e1 disponibilizada, neste site, no \u00edcone REPORTAGENS.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi como se tivesse feito um curso intensivo sobre a vida. Aconteceu num feriado de Corpus Christi, como o de amanh\u00e3, S\u00f3 que na virada do s\u00e9culo, em 2000. 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