{"id":10987,"date":"2008-05-27T00:00:00","date_gmt":"2008-05-27T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:50:09","modified_gmt":"2017-09-15T19:50:09","slug":"taiguara","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/taiguara\/","title":{"rendered":"Taiguara"},"content":{"rendered":"<p>Entrevistei Taiguara duas vezes, como disse ontem.<\/p>\n<p>O cantor voltava do primeiro auto-ex\u00edlio e tentava retomar a carreira vitoriosa at\u00e9 meados dos anos 70. J\u00e1 n\u00e3o era mais o mesmo int\u00e9rprete promissor que apareceu, anos antes, na noite paulistana, no famoso templo da bossa-nova Jo\u00e3o Sebasti\u00e3o Bar.<\/p>\n<p>Nas duas vezes em que nos encontramos, vestia uma esp\u00e9cie de farda bege e trazia um travo de tristeza no olhar. Tive a impress\u00e3o de que falava sem muita convic\u00e7\u00e3o de ser ouvido, como fora tempos atr\u00e1s, sobre os novos trabalhos.<\/p>\n<p>N\u00e3o era mais o cantor rom\u00e2ntico e, suponho, poucos se interessavam em ouvir o revolucion\u00e1rio&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Na primeira entrevista, conversamos no sagu\u00e3o de um modesto hotel nas imedia\u00e7\u00f5es da Esta\u00e7\u00e3o da Luz. O cantor\/compositor fez quest\u00e3o de ressaltar a expectativa de que o Pa\u00eds, enfim, retomasse o caminho da redemocratiza\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Viv\u00edamos o tempo da anistia pol\u00edtica, do fim da censura, da abertura lenta, gradual e restrita \u2013 fim dos 70, in\u00edcio dos 80.<\/p>\n<p>A segunda vez foi uma coletiva \u2013 e surreal. Os rep\u00f3rteres encontraram Taiguara nas depend\u00eancias da Copacabana. N\u00e3o tenho bem certeza se era esta mesmo a gravadora. Lembro, no entanto, que o m\u00fasico entremeava as respostas \u00e0s perguntas dos jornalistas com idas ao piano, onde se punha a declamar versos das m\u00fasicas censuradas pela ditadura que ora se esva\u00eda, mas continuava atenta.<\/p>\n<p>Parecia entrar em um del\u00edrio musical e discursivo.<\/p>\n<p>Estranhamos&#8230;<\/p>\n<p>Depois em conversa sobre o fato na reda\u00e7\u00e3o, algu\u00e9m me cutucou:<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o era del\u00edrio, n\u00e3o. Ele queria ver qual de voc\u00eas teria coragem de publicar os versos censurados.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Uruguaio de nascimento, Taiguara pertenceu \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de ouro da MPB \u2013 Chico, Gil, Caetano, Milton, Elis e tins e bens e tais. Tamb\u00e9m foi um dos primeiros a se destacar. Passou pela era dos festivais, emplacando, pelo menos, tr\u00eas grandes can\u00e7\u00f5es (\u201cModinha\u201d e \u201cHelena, Helena, Helena\u201d, como int\u00e9rprete nos festivais da Tupi) e \u201cUniverso no Seu Corpo\u201d, como autor e int\u00e9rprete, no Festival Internacional da Can\u00e7\u00e3o, da Globo. <\/p>\n<p>Viveu um momento de enorme sucesso como cantor rom\u00e2ntico. A obra prima \u201cHoje\u201d marca o auge da sua carreira. No entanto, foram suas convic\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que o levaram para dois auto-ex\u00edlios. Viajou pela Europa e \u00c1frica, pois dizia n\u00e3o poder cantar num Pa\u00eds sem o m\u00ednimo de liberdade e respeito ao seu povo.<\/p>\n<p>Implac\u00e1vel. A m\u00eddia o esqueceu.<\/p>\n<p>Depois, n\u00e3o soubemos entend\u00ea-lo&#8230;<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Taiguara morreu em 96. Aos 50 anos<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevistei Taiguara duas vezes, como disse ontem.<\/p>\n<p>O cantor voltava do primeiro auto-ex\u00edlio e tentava retomar a carreira vitoriosa at\u00e9 meados dos anos 70. 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