{"id":10988,"date":"2008-05-28T00:00:00","date_gmt":"2008-05-28T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:50:09","modified_gmt":"2017-09-15T19:50:09","slug":"no-tempo-dos-meus-avos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/no-tempo-dos-meus-avos\/","title":{"rendered":"No tempo dos meus av\u00f3s"},"content":{"rendered":"<p>Meu av\u00f4 \u2013 o pai da minha m\u00e3e \u2013 era chapeleiro num tempo em que os homens tinham mais cabelo \u2013 a polui\u00e7\u00e3o era menor \u2013 e usavam chap\u00e9u&#8230;<\/p>\n<p>Meu outro av\u00f4 \u2013 o pai do meu pai \u2013 era alfaiate nesse mesmo tempo em que os homens usavam chap\u00e9u e vestiam-se com ternos feitos sob medida. Nos trinques.<\/p>\n<p>A eleg\u00e2ncia era uma meta. A moda n\u00e3o era assim vol\u00e1til \u2013 e era imprescind\u00edvel usar um chap\u00e9u de qualidade e trajar-se no rigor bons tecidos, sem exageros.<\/p>\n<p>Era um precioso toque de eleg\u00e2ncia fechar o palet\u00f3 quando o homem se punha de p\u00e9 e, ao sentar-se, desaboto\u00e1-lo com descri\u00e7\u00e3o caprichosamente. Outro momento de delicadeza era a rever\u00eancia que se fazia ao cumprimentar uma dama ou ao passar diante de um santu\u00e1rio. O chap\u00e9u era al\u00e7ado levemente por uma das m\u00e3os e ligeiramente curvava-se a cabe\u00e7a em sinal de respeito.<\/p>\n<p>Os dois moravam no Cambuci. N\u00e3o me consta que o v\u00f4 Rodolfo (que n\u00e3o conheci, morreu meses antes de eu nascer) tivesse a pr\u00f3pria alfaiataria. Mas, era dos bons. J\u00e1 o v\u00f4 Carlito respondia, como mestre, pela chapelaria da Ramenzzoni, importante ind\u00fastria de confec\u00e7\u00e3o masculina paulistana.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito de que mesmo, lembrei dos meus av\u00f4s?<\/p>\n<p>Ah, sim!<\/p>\n<p>Almo\u00e7ava hoje com amigos \u2013 eles, entre os 30 e tantos e 40 e poucos; e eu, pra l\u00e1 de 50. Comentavam uma reportagem da Ilustrada que ainda n\u00e3o li. Em resumo, entendi o seguinte: h\u00e1 um autor americano que detectou que a internet p\u00f5e o planeta nas m\u00e3os dos jovens e eles preferem limitar-se aos chats de bate-papo, aos orkuts e msns da vida. Ou seja, n\u00e3o est\u00e3o nem a\u00ed para o mundo.<\/p>\n<p>Um absurdo, disseram. E desandaram a desandar a rapaziada&#8230;<\/p>\n<p>Fiquei em sil\u00eancio, pensando em todo aquele convers\u00ea.<\/p>\n<p>N\u00e3o que n\u00e3o lhes d\u00ea raz\u00e3o em alguns muitos pontos. Mas, me parece que n\u00e3o podemos ser assim t\u00e3o implac\u00e1veis com quem est\u00e1 se achegando. A cada instante, entramos em um novo ciclo; e conseq\u00fcentemente deixamos o antigo para tr\u00e1s. Mudan\u00e7as, por vezes, radicais. Ocorreu-me ali a id\u00e9ia de que agora, sim, se d\u00e1 o aut\u00eantico conflito entre gera\u00e7\u00f5es. Que, saliento, n\u00e3o \u00e9 mais aquela coisa de pai versus filho; mas, sim, de gente com idade mais correlata, parelha. Uma diferen\u00e7a que n\u00e3o vai al\u00e9m de cinco anos. Valores pessoais, manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, gostos, moda \u2013 esses conceitos variam consideravelmente de um para outro. Por ser algo t\u00e3o recente, t\u00e3o pr\u00f3ximo de n\u00f3s, ainda n\u00e3o podemos avaliar, com precis\u00e3o, o certo e o errado das coisas todas. Embora desde sempre, o certo e o errado, o bem e o mal, a luz e a sombra fossem situa\u00e7\u00f5es previamente identific\u00e1veis.<\/p>\n<p>Hoje n\u00e3o \u00e9 bem assim&#8230;<\/p>\n<p>Quando invocaram minha opini\u00e3o, fui sincero, estava justamente pensando porque os meus av\u00f3s usavam chap\u00e9us e como eles se aguentavam, com gravata e palet\u00f3, em um pa\u00eds tropical e quente como o nosso. <\/p>\n<p>\u00c8 os tempos mudam&#8230; E hoje mudam mais velozmente.<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o foi isso que lhes falei. Disse um prov\u00e9rbio calabr\u00eas que meu pai jurava ter ouvido do meu av\u00f4, o alfaiate:<\/p>\n<p>&#8212; O que eu n\u00e3o entendo, eu estranho. E o que eu estranho; na maioria das vezes, n\u00e3o vale a pena tentar explicar porque passa pelas estranhezas do futuro.<\/p>\n<p>Bem, se estivesse de chap\u00e9u como no tempo do v\u00f4 Carlito, faria a rever\u00eancia respeitosa levantando a aba do meu Ramenzzoni e sairia na maior eleg\u00e2ncia, pisando macio e a fechar o imagin\u00e1rio palet\u00f3 dois bot\u00f5es&#8230;  <\/p>\n<p>C\u00e1 para n\u00f3s, aquela conversa e este post\/cr\u00f4nica s\u00f3 serviram mesmo para lembrar os meus av\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu av\u00f4 \u2013 o pai da minha m\u00e3e \u2013 era chapeleiro num tempo em que os homens tinham mais cabelo \u2013 a polui\u00e7\u00e3o era menor \u2013 e usavam chap\u00e9u&#8230;<\/p>\n<p>Meu outro av\u00f4 \u2013 o pai do meu pai \u2013 era alfaiate nesse mesmo tempo em que os homens usavam chap\u00e9u e vestiam-se com ternos feitos sob medida.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10988","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10988","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10988"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10988\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16937,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10988\/revisions\/16937"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10988"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10988"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10988"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}