{"id":10994,"date":"1981-07-10T00:00:00","date_gmt":"1981-07-10T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-13T19:13:59","modified_gmt":"2017-09-13T19:13:59","slug":"gonzaguinha-sempre-e-sempre-recomecar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/gonzaguinha-sempre-e-sempre-recomecar\/","title":{"rendered":"Gonzaguinha. Sempre e sempre recome\u00e7ar"},"content":{"rendered":"<p>Luiz Gonzaga J\u00fanior est\u00e1 com novo disco na pra\u00e7a. Tem um t\u00edtulo longo e curioso: Coisa Mais Maior de Grande\/Pessoa. \u00c9 o nono elep\u00ea de uma carreira irrepreens\u00edvel. E mais do que isso: o novo e elaborado trabalho de um cantor\/compositor popular, famoso. E de insuspeitas virtudes que, mesmo com todo esse sucesso, s\u00e3o amplamente reconhecidas pela cr\u00edtica e pelo p\u00fablico. Grande p\u00fablico, acrescente-se.<\/p>\n<p>Para quem h\u00e1 alguns anos era implacavelmente rotulado como maldito, herm\u00e9tico, dif\u00edcil, trata-se, \u00e9 ineg\u00e1vel, de uma verdadeira proeza. Ou n\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8212; Nada disso, replica Gonzaguinha. Minha carreira teve uma seq\u00fc\u00eancia natural. O r\u00f3tulo me foi colocado de fora para dentro. Agora, meu tempo, sim, foi um tempo maltido &#8211; de 68 a 74 n\u00e3o foi l\u00e1 muito agrad\u00e1vel. Mas, a\u00ed melhorou, n\u00e9 (ironiza). A partir de 77\/78 veio a tal da abertura &#8211; essa mesma que pro\u00edbe a Joan Baez de cantar&#8230;<\/p>\n<p>Lembro de Gonzaguinha ainda estudante, vencedor do Festival Universit\u00e1rio carioca. Foi em 66 com &#8220;O Trem&#8221;. Tr\u00eas anos depois estava em S\u00e3o Paulo diante da hostil e ululante plat\u00e9ia do festival da Record. O rapaz magro, num mal ajambrado smoking cantou &#8220;Moleque&#8221;. Ficou com a melhor letra \u2013 apesar das vaias. Vaias que, por sinal, n\u00e3o foram condescendentes sequer com a m\u00fasica vencedora, \u201cSinal Fechado&#8221; &#8211; a obra prima de Paulinho da Viola.<\/p>\n<p>Surpreso?<\/p>\n<p>Nem tanto. Surpresa maior, confessa, revelou-se em 76 quando chegou ao quarto elep\u00ea. Parecia uma coisa inating\u00edvel na ocasi\u00e3o. Agora, nessa fria tarde de inverno paulistano. Gonzaguinha recorda tranq\u00fcilo hospedado em um bom hotel. Est\u00e1 \u00e0 espera dos rep\u00f3rteres para a habitual coletiva de lan\u00e7amento. Show em S\u00e3o Paulo, ele garante, s\u00f3 em outubro.<\/p>\n<p>Ainda surpreso? Insisto.<\/p>\n<p>\u2014 Continuo sim. Mas de outra maneira.<\/p>\n<p>Entendo logo: \u00e9 a deixa para falar do novo elep\u00ea: Coisa Mais Maior de Grande\/Pessoa.<\/p>\n<p>\u2014 Repare o tanto da minha surpresa. Considero esse disco de leitura dif\u00edcil. Tem faixas continuas. Ao todo, s\u00e3o 19 musicas. \u00c9 uma esp\u00e9cie de texto corrido sobre o tema base: a pessoa. Sua assimila\u00e7\u00e3o pelo p\u00fablico vai ser mais, demorada. Tem mais. Foi lan\u00e7ado antes da divulga\u00e7\u00e3o nas r\u00e1dios e jornais &#8211; o que complicou o que j\u00e1 parecia complicado. Mesmo assim, h\u00e1 outro motivo para surpresa. O disco vendeu 53 mil c\u00f3pias nas primeiras semanas. Uma faixa que esperava s\u00f3 esperava alcan\u00e7ar no final do segundo m\u00eas de execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Gonzaguinha ajeita-se na poltrona. Ap\u00f3ia o rosto sobre as palmas das m\u00e3os e pondera:<\/p>\n<p>\u2014 No fundo, a gente batalha por esse sucesso. O cantor e o compositor esperam por isso. Acho que todo o meu trabalho foi buscando esse, digamos, reconhecimento popular. Individualmente, a coisa come\u00e7ou a tomar vulto em 79 com Explode Cora\u00e7\u00e3o. Mas, antes disso, desde 76, minhas musica, embora cantadas por outros int\u00e9rpretes, v\u00eam acontecendo p\u00f4r ai.<\/p>\n<p>Convalescente de uma tuberculose em 73\/74, ele p\u00f4de conceber e programar sua carreira &#8211; as etapas a serem vencidas. Considerou obviamente todos os obst\u00e1culos. Nesse contexto, gravou Plano de V\u00f4o em 75. A seguir, fez Come\u00e7aria Tudo Outra Vez (76) que representou, segundo afirma, a aplica\u00e7\u00e3o efetiva do que sugeria o disco anterior. O disco deu origem, por seu turno, \u00e0 trilogia: Moleque (77), Recado (78) e Gonzaguinha da Vida (79). Completou o ciclo com De Volta ao Come\u00e7o (80) e j\u00e1 est\u00e1 de novo no in\u00edcio com o atual Coisa Mais Maior de Grande\/Pessoa.<\/p>\n<p>Gonzaguinha apressa-se em explicar. Acho que minha express\u00e3o lhe sugeriu espanto.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 simples: do velho para o novo. \u00c9 do velho que sai o novo. Um elep\u00ea prop\u00f5e o outro e, da mesma forma, est\u00e1 relacionado com o anterior. Como o sol que n\u00e3o se repete nunca. Sempre e sempre recome\u00e7ar.<\/p>\n<p>Na medida em que pode Gonzaguinha reverencia o pai &#8212; Luiz Gonzaga, o rei do Bai\u00e3o. Fala dele com carinho: &#8220;o velho sabe das coisas&#8221;.<\/p>\n<p>\u2014 Apenas segui o exemplo de meu pai, sem ser aquilo que as pessoas queriam que eu fosse. Ca\u00ed na estrada. Sempre percorri o Brasil, de ponta a ponta. Nunca fiquei preso somente ao eixo Rio de Janeiro\/S\u00e3o Paulo. Comecei em 66 e me profissionalizei em 69. Sempre me propus um trabalho a longo prazo.<\/p>\n<p>E valeu? &#8211; pergunto para encerrar.<\/p>\n<p>\u2014 Um dia eu cheguei em muitos lugares. Felizmente sou uma pessoa que p\u00f4de e pode voltar para todos esses lugares. Amanh\u00e3, um prato de comida, uma bebida, um papo. E cada vez mais entre amigos &#8211; por a\u00ed. Se valeu? Meu amigo, e muito bom poder olhar para tr\u00e1s. Ali\u00e1s, todo show que fa\u00e7o come\u00e7a com uma musica que diz: Come\u00e7aria tudo outra vez se preciso fosse (&#8230;) Nada foi em v\u00e3o<\/p>\n<p>** Gonzaguinha morreu em abril de 1991, v\u00edtima de acidente de autom\u00f3vel, quando percorria o interior do Paran\u00e1, fazendo shows.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Gonzaga J\u00fanior est\u00e1 com novo disco na pra\u00e7a. Tem um t\u00edtulo longo e curioso: Coisa Mais Maior de Grande\/Pessoa. \u00c9 o nono elep\u00ea de uma carreira irrepreens\u00edvel. 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