{"id":10999,"date":"2008-06-07T00:00:00","date_gmt":"2008-06-07T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:48:53","modified_gmt":"2017-09-15T19:48:53","slug":"na-ponta-da-faca","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/na-ponta-da-faca\/","title":{"rendered":"Na ponta da faca"},"content":{"rendered":"<p>O pai era uma figura\u00e7a. <\/p>\n<p>At\u00e9 o fim da vida \u2013 morreu em 99, aos 82 anos \u2013 teve l\u00e1 suas manias; por vezes, indecifr\u00e1veis aos meus olhos de filho. Outras, por\u00e9m, as cultivo como rel\u00edquias \u2013 uma v\u00e3 tentativa de prender o tempo no casulo da minha saudade.<\/p>\n<p>Copio descaradamente o pai no h\u00e1bito de aparar o bigode e deix\u00e1-lo mais fino, por exemplo. Nunca entendi, por\u00e9m, o m\u00e3o aberta que o pai divertia-se em ser. \u00c0s vezes, ficava n\u00edtido que o estavam passando para tr\u00e1s em alguma negocia\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>E ele nem a\u00ed. <\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o vou ficar mais rico ou menos pobre por isso\u201d, comentava.<\/p>\n<p>Talvez a mais antiga das manias do Velho Aldo que me recordo era a de terminar a noite assistindo a um telejornal, quase interagindo com os apresentadores. N\u00e3o era coisa recente, n\u00e3o. Come\u00e7ou l\u00e1 nos antigamente \u2013 d\u00e9cada de 50 \u2013 quando a TV Tupi encerrava a programa\u00e7\u00e3o com uma edi\u00e7\u00e3o de o Di\u00e1rio de S. Paulo na TV, isto por volta das 22 horas. Para o menino que fui, significava alta madrugada.<\/p>\n<p>Carlos Spera, Jos\u00e9 Carlos de Moraes e Maur\u00edcio Loureiro Gama \u2013 que eu achava parecido com o pai \u2013 comandavam o jornal, bem diferente dos atuais. Poucas imagens externas, quase todas vindas de ag\u00eancias internacionais, e muita fala\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas pioneiros do jornalismo televisivo.<\/p>\n<p>\u00c0 essa \u00e9poca, para mim, televis\u00e3o era um bom lugar para se ver os seriados de mocinhos e bandidos. Os primeiros venciam ap\u00f3s surrar magnificamente os oponentes. Lembro especialmente dos brasileiros Falc\u00e3o Negro e Capit\u00e3o Sete e dos importados Roy Roger e Rintintin. Queria tanto conhec\u00ea-los em carne e osso. Mas eram seres que habitavam os confins da TV Invictus, entre um tubo gigante e v\u00e1lvulas miraculosas.<\/p>\n<p>Mesmo assim, gostava de acompanh\u00e1-lo na \u00e1rdua tarefa di\u00e1ria. Ele discutia, em voz alta e firmemente, os assuntos da noite com os jornalistas e eu&#8230; Bem, eu ficava \u00e0 espera dos meus nacos de queijo. Preciso lhes informar de outro h\u00e1bito do pai. Sempre trazia um peda\u00e7o grande de queijo &#8216;duro&#8217;, cortava em cubos e, em meios aos debates, os devorava na ponta de uma pequena faca.    <\/p>\n<p>Certa noite, est\u00e1vamos l\u00e1 a cumprir o nosso sacrossanto ritual. Quando ouvimos um estrondo assustador como se arrombassem a porta da cozinha. A Branquinha, uma cadela que t\u00ednhamos, se p\u00f4s a latir no quintal. Intu\u00edmos a cena. Eram ladro\u00f5es. Foram segundos de apreens\u00e3o. Logo a m\u00e3e e minhas irm\u00e3s estavam, com suas camisolas impec\u00e1veis, na ala. Todos com o cora\u00e7\u00e3o na m\u00e3o.<\/p>\n<p>O pai tamb\u00e9m aparentava um semblante aparvalhado. Mas, creio, n\u00e3o teve outra alternativa. Empunhou a faquinha \u2013 a tal do queijo, pouco maior que um canivete \u2013e rumou para o imprevis\u00edvel. Enfrentaria os meliantes&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; se meliantes houvesse.<\/p>\n<p>&#8212; Caspita!!! Caiu tudo aqui&#8230;<\/p>\n<p>Corremos para a cozinha. Vimos, ent\u00e3o, em cacos, uma leva de uns 20 azulejos que a umidade descolou da parede e os projetou ruidosamente ao ch\u00e3o. <\/p>\n<p>O velho casario, onde mor\u00e1vamos na Muniz de Souza, j\u00e1 n\u00e3o era o mesmo.<\/p>\n<p>Pois \u00e9.<\/p>\n<p>Foi a primeira e \u00fanica vez que vi um super-her\u00f3i de perto&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pai era uma figura\u00e7a. <\/p>\n<p>At\u00e9 o fim da vida \u2013 morreu em 99, aos 82 anos \u2013 teve l\u00e1 suas manias; por vezes, indecifr\u00e1veis aos meus olhos de filho.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10999","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10999","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10999"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10999\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16927,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10999\/revisions\/16927"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10999"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10999"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10999"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}