{"id":11003,"date":"2008-06-11T00:00:00","date_gmt":"2008-06-11T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:48:51","modified_gmt":"2017-09-15T19:48:51","slug":"a-chuva-o-cara-e-a-chuteira","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-chuva-o-cara-e-a-chuteira\/","title":{"rendered":"A chuva, o cara e a chuteira"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei explicar como aconteceu.<\/p>\n<p>A bola sobrou para mim que jogava de lateral esquerdo. <\/p>\n<p>Estava ali, um pouco al\u00e9m da linha que divide o meio campo. O valente ponta-direita, que me dera um trabalho danado durante o jogo inteiro, esquecera de me acompanhar. Imagino o cansa\u00e7o dele pelo meu. <\/p>\n<p>S\u00f3 havia uma diferen\u00e7a. Eu era novo no clube e no time, a gloriosa It\u00e1lia \u2013 que, \u00e0quela altura da partida, empatava em zero a zero com Portugal pela Copa das Na\u00e7\u00f5es. Um resultado que n\u00e3o nos interessava em nada. <\/p>\n<p>N\u00e3o nos levaria \u00e0 outra fase da competi\u00e7\u00e3o. A Espanha j\u00e1 estava classificada depois de derrotar a sofr\u00edvel equipe dos \u00e1rabes \u2013 na verdade, um catado de jogadores daquela regi\u00e3o e outros que n\u00e3o se encaixaram em time algum.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>A bola sobrou para mim depois de uma grande confus\u00e3o na \u00e1rea lusa. Um bate-rebate danado. Faltavam poucos minutos para o fim da partida e chovia. Uma chuva aben\u00e7oada, eu diria. Sempre gostei de jogar na chuva. Nunca fui exatamente um estilista, mas um zagueiro seguro que sabia sair jogando de quando em vez.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou usar esse espa\u00e7o para ficar contando prosa e dizer que era isso e aquilo que nunca fui. Tamb\u00e9m n\u00e3o vou deixar barato para que voc\u00eas me tirem de perna dura. N\u00e3o fiz feio nos times em que joguei \u2013 a come\u00e7ar pelo Santos do Cambuci, comandado pelo Jo\u00e3o Bicudo e passando por outros n\u00e3o menos renomados como o Estrela dos Bo\u00eamios, a sele\u00e7\u00e3o do Col\u00e9gio Nossa Senhora da Gl\u00f3ria, o Huracan do Glic\u00e9rio (uniforme mais lindo que j\u00e1 vi na vida \u2013 camisas gren\u00e1s, cal\u00e7\u00f5es pretos e mei\u00e3o cinza), o Bras\u00edlia, o Independ\u00eancia at\u00e9 chegar onde estava naquela noite de chuva forte.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>E a bola sobrou para mim; eu o lateral esquerdo improvisado da It\u00e1lia, terra dos meus av\u00f3s para quem meu pai torcia em todos os mundiais. A camisa azul, o distintivo. Estava orgulhoso de mim mesmo por estar ali, naquele campo barrento, naquele preciso instante.<\/p>\n<p>Preciso lhes dizer que j\u00e1 n\u00e3o era um garoto quando aconteceu.<\/p>\n<p>E a bola sobrou para mim. T\u00e3o ou mais cansado que o ponta advers\u00e1rio. N\u00e3o lhe dei tr\u00e9gua um segundo durante todo o jogo. Colei no cara que devia igualar-se comigo na idade. Talvez tenha exagerado em alguns carrinhos. Mas, compreendam, n\u00e3o podia dar vacilo, era novo no time e queria levar a It\u00e1lia \u00e0 final. <\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>E a bola, como disse, sobrou para mim&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o sei explicar como aconteceu&#8230;<\/p>\n<p>Do jeito que veio, eu a escorei com a trava da chuteira Diadora, leg\u00edtima italiana emprestada do meu amigo Rub\u00e3o. O pontinha n\u00e3o fez f\u00e9, e n\u00e3o me acompanhou. Ent\u00e3o, dei dois ou tr\u00eas passos \u00e0 frente e enfiei o p\u00e9 direito por baixo da \u2018bichinha\u2019. <\/p>\n<p>Estava na lateral, como disse, entre a risca da grande \u00e1rea e o meio de campo.Bati forte porque a lama a deixara pesada. Nem acreditei quando ela come\u00e7ou a subir na dire\u00e7\u00e3o do canto esquerdo goleiro. Tinha muita gente na frente do homem de camisa colorida. Ainda por cima, sei l\u00e1 o que imaginou, ele deu dois passos a frente.<\/p>\n<p>V. <\/p>\n<p>A bola subiu, subiu&#8230; <\/p>\n<p>Eu a olhei esperan\u00e7oso a girar em sua \u00f3rbita imprevis\u00edvel numa noite de chuva.<\/p>\n<p>Eu a olhei a encantar-me como quem v\u00ea, pela primeira vez, a mulher dos sonhos e se revela ali o mist\u00e9rio de amar.<\/p>\n<p>E n\u00e3o mais a vi.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>S\u00f3 me dei conta do que acontecera pela alegria dos meus, pelos abra\u00e7os que recebi, pela festa sob chuva. E, principalmente, pelos gritos que vinham da pequena arquibancada. <\/p>\n<p>Eram do amigo Rub\u00e3o, mais feliz do que eu:<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 gooool, \u00e9 gooool&#8230; O Rodolf\u00e3o \u00e9 o cara. Mas, a chuteira \u00e9 minha&#8230;<\/p>\n<p>* Nota do autor:<br \/>\nA referida Copa das Na\u00e7\u00f5es \u00e9 (ou era) realizada todos os anos pelo Clube Atl\u00e9tico Ypiranga, entre seus associados boleiros que se dividem (iam) em sele\u00e7\u00f5es de pa\u00edses, de acordo com a descend\u00eancia de cada um.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei explicar como aconteceu.<\/p>\n<p>A bola sobrou para mim que jogava de lateral esquerdo. <\/p>\n<p>Estava ali, um pouco al\u00e9m da linha que divide o meio campo.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-11003","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11003","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11003"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11003\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16923,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11003\/revisions\/16923"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11003"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11003"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11003"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}