{"id":11016,"date":"2008-06-22T00:00:00","date_gmt":"2008-06-22T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2018-03-29T20:21:42","modified_gmt":"2018-03-29T20:21:42","slug":"noticias-do-brasil-as-relacoes-entre-jornalismo-e-a-historia-do-pais","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/noticias-do-brasil-as-relacoes-entre-jornalismo-e-a-historia-do-pais\/","title":{"rendered":"Not\u00edcias do Brasil &#8211; As rela\u00e7\u00f5es entre jornalismo e a hist\u00f3ria do pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>por Elisa Marconi e Francisco Bicudo<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Muito vem se falando sobre os 200 anos da chegada da fam\u00edlia real portuguesa ao Brasil. De fato, a data \u00e9 mais que relevante, um marco na nossa hist\u00f3ria, j\u00e1 que Dom Jo\u00e3o VI promoveu mudan\u00e7as significativas na ent\u00e3o col\u00f4nia, que alteraram radicalmente o contexto pol\u00edtico, econ\u00f4mico, social e cultural daquele tempo, que ajudaram a consolidar os ideais de independ\u00eancia e a dar contornos mais n\u00edtidos \u00e0 perspectiva de uma identidade nacional.<\/p>\n<p>Entre os tantos feitos de 1808, est\u00e3o a abertura dos portos \u00e0s na\u00e7\u00f5es amigas, a cria\u00e7\u00e3o do Jardim Bot\u00e2nico do Rio de Janeiro e uma s\u00e9rie de reformas urbanas e arquitet\u00f4nicas que mudaram a paisagem carioca. Contudo, um dos fatos mais importantes e menos comentados \u00e9 que, junto com a corte, aportou em solo nacional a imprensa brasileira. Um equipamento sofisticado para a \u00e9poca, capaz de imprimir muitas p\u00e1ginas, com tipos ingleses, veio na bagagem real e logo come\u00e7ou a ser usado por aqui, dando origem a uma nova fase no projeto de na\u00e7\u00e3o tupiniquim.<\/p>\n<p>Segundo a historiadora Ana Luiza Martins, a nobreza portuguesa n\u00e3o tinha, a princ\u00edpio, nenhuma inten\u00e7\u00e3o de fundar a m\u00eddia nacional, havia mesmo era uma necessidade burocr\u00e1tica de imprimir seus documentos e de fazer chegar a Portugal impressos e documentos oficiais. Mirou numa coisa, acertou em outra. At\u00e9 porque a Coroa teve de correr atr\u00e1s do preju\u00edzo, j\u00e1 que em junho de 1808 Hip\u00f3lito Jos\u00e9 da Costa lan\u00e7a, em Londres, o Correio Braziliense, jornal de oposi\u00e7\u00e3o que fazia severas cr\u00edticas ao projeto dominador portugu\u00eas; como contraponto e espa\u00e7o aberto ao jornalismo oficial, surge em setembro A Gazeta do Rio de Janeiro. A r\u00e9gia imprensa acabou por inaugurar a era da comunica\u00e7\u00e3o em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Rodolfo Martino, coordenador do curso de jornalismo da Universidade Metodista de S\u00e3o Paulo (UMESP), acredita que esse sil\u00eancio a respeito do bicenten\u00e1rio da imprensa brasileira n\u00e3o se deve a nenhum preconceito ou excesso de zelo para n\u00e3o cometer ultrajes ou auto-elogios. \u201c\u00c9 um h\u00e1bito dos jornalistas do Brasil, \u00e9 uma caracter\u00edstica da nossa imprensa falar muito da vida dos outros e muito pouco ou quase nada da nossa pr\u00f3pria vida\u201d. O jornalista, segundo Martino, costuma manter essa conversa sobre a profiss\u00e3o, sobre seus procedimentos e seu papel dentro das reda\u00e7\u00f5es ou nas rodas de conversas com os pares, mas encontra alguma dificuldade em tornar isso p\u00fablico. \u201cEstamos sempre t\u00e3o ligados numa realidade maior da cidade, do pa\u00eds ou do planeta que dificilmente falamos desse proceder di\u00e1rio\u201d, explica.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 ainda um outro motivo para que a imprensa n\u00e3o esteja se revisitando como deveria. Existe uma esp\u00e9cie de pacto entre os conglomerados da comunica\u00e7\u00e3o, segundo Martino, que justifica que um \u00f3rg\u00e3o n\u00e3o fale de outro, evitando provocar situa\u00e7\u00f5es constrangedoras. \u201cSeria muito esquisito ver o jornal Estado de S. Paulo enaltecendo a import\u00e2ncia da Folha de S. Paulo no epis\u00f3dio das Diretas J\u00e1, em 1984, por exemplo; ou a Globo reconhecer o papel da editora Abril na queda do ex-presidente Collor\u201d, defende o jornalista.<\/p>\n<p>Hist\u00f3ria da imprensa no Brasil<\/p>\n<p>Com intuito de ajudar a superar ao menos em parte essa lacuna, as id\u00e9ias relacionadas ao nascimento, ao desenvolvimento e ao papel dos jornais, revistas, emissoras de r\u00e1dio e de TV e at\u00e9 mesmo dos sites e blogs est\u00e3o no livro Hist\u00f3ria da Imprensa no Brasil, rec\u00e9m-lan\u00e7ado pela Editora Contexto. Ana Luiza Martins \u00e9 uma das organizadoras da obra, ao lado de T\u00e2nia Regina de Luca. As duas s\u00e3o doutoras em Hist\u00f3ria pela Universidade de S\u00e3o Paulo e h\u00e1 muito tempo v\u00eam utilizando o material que sai na imprensa como fontes de forma\u00e7\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas as autoras sentiam falta de uma obra ao mesmo tempo ampla e profunda sobre o tema. Como seria uma tarefa \u00e1rdua as duas sozinhas darem conta dos 200 anos de hist\u00f3ria e de toda a diversidade de manifesta\u00e7\u00f5es do jornalismo do pa\u00eds, optaram por convidar especialistas no assunto e encomendar artigos sobre momentos importantes da m\u00eddia na hist\u00f3ria do Brasil. O resultado \u201c\u00e9 um livro bastante abrangente e reflexivo, e que se vale de informa\u00e7\u00f5es modernas e especializadas para cada momento hist\u00f3rico abordado\u201d, de acordo com Ana Luiza.<\/p>\n<p>Assim, cada cap\u00edtulo retrata um tempo espec\u00edfico e as rela\u00e7\u00f5es da imprensa com esse contexto. \u201cEu, por exemplo, escrevi sobre a imprensa do tempo do Imp\u00e9rio, que era uma imprensa pol\u00edtica e que sofria censura. Mas a partir de 1821, pouco depois da abertura dos Portos, o cen\u00e1rio muda e come\u00e7a a haver uma prolifera\u00e7\u00e3o muito rica dos jornais\u201d. Do marco inicial aos dias de hoje, Hist\u00f3ria da Imprensa no Brasil distribui seus textos por tr\u00eas grandes fases: os tempos imperiais, a euforia da Rep\u00fablica e o panorama dos \u00faltimos 50 anos.<\/p>\n<p>Os textos de Ana Luiza e T\u00e2nia fazem parte do primeiro bloco, mas elas destacam que na segunda fase encontram-se artigos preciosos, seja por sua atualidade ou seu ineditismo. \u00c9 o caso de \u201cDiversifica\u00e7\u00e3o e segmenta\u00e7\u00e3o dos impressos\u201d, da tamb\u00e9m historiadora Ilka Stren Cohen, que revela como o s\u00e9culo XIX foi variado em termos de publica\u00e7\u00f5es. \u201cOs p\u00fablicos desses jornais e revistas eram bem espec\u00edficos. Havia publica\u00e7\u00f5es para mulheres, para literatos, para oper\u00e1rios, enfim&#8230; todo mundo era contemplado\u201d, adianta a autora. Outra p\u00e9rola desse segmento \u00e9 o texto \u201cImprensa, cultura e anarquismo\u201d, do professor de Teoria Liter\u00e1ria da Unicamp, Ant\u00f4nio Arnoni Prado. Trata-se de um desses artigos para virar refer\u00eancia quando o assunto \u00e9 a imprensa anarquista brasileira.<\/p>\n<p>Na \u00faltima parte, aparecem os assuntos mais contempor\u00e2neos, do surgimento do r\u00e1dio e da TV ao boom do mercado editorial de revistas segmentadas, passando pela imprensa alternativa que cresceu nos tempos da ditadura militar. Os dois \u00faltimos artigos \u2013 \u201cRevolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e reviravolta pol\u00edtica\u201d, da jornalista Luiza Villam\u00e9a, e \u201cO meio \u00e9 a mensagem, a globaliza\u00e7\u00e3o da m\u00eddia\u201d, do jornalista e soci\u00f3logo Cl\u00e1udio Camargo \u2013 refletem sobre duas quest\u00f5es obrigat\u00f3rias hoje: a globaliza\u00e7\u00e3o da m\u00eddia e os novos meios de comunica\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nicos e digitais, as chamadas new media. Martino avalia que a blogosfera ainda \u00e9 um fen\u00f4meno muito novo e que ainda \u00e9 dif\u00edcil dizer se de fato se trata de jornalismo propriamente dito ou n\u00e3o. Mas, segundo ele, n\u00e3o importa. \u201c\u00c9 um barato, \u00e9 a oportunidade de juntarmos o desejo de informa\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea e online do p\u00fablico e a profundidade, a an\u00e1lise e a cr\u00edtica, desejadas por n\u00f3s jornalistas\u201d, conceitua.<\/p>\n<p>Claro que falar do processo hist\u00f3rico e da constru\u00e7\u00e3o passo a passo da imprensa do pa\u00eds \u00e9 importante e significativo, ainda mais quando se comemora 200 anos de seu nascimento. Mas as autoras explicam que talvez a grande contribui\u00e7\u00e3o do livro seja apontar como a imprensa foi e \u00e9 at\u00e9 hoje um fator importante de constitui\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Para Ana Luiza, \u201co jornalismo esteve presente em todos os momentos importantes do pa\u00eds, seja como observador, seja como protagonista da nossa hist\u00f3ria\u201d e esse papel est\u00e1 bem representado na obra. Martino, que tamb\u00e9m \u00e9 professor de Hist\u00f3ria do Jornalismo Brasileiro na UMESP, enxerga a imprensa da mesma maneira, como colaboradora ou incentivadora de etapas relevantes da hist\u00f3ria do Brasil.<\/p>\n<p>De maneira transversal, o livro Hist\u00f3ria da Imprensa no Brasil tamb\u00e9m discute as rela\u00e7\u00f5es da imprensa com o poder. Na oposi\u00e7\u00e3o ou dando suporte aos atores hegem\u00f4nicos, os jornais, revistas, r\u00e1dios e TVs sempre representaram um sustent\u00e1culo importante para as disputas de projetos pol\u00edticos e de ideologias. Ana Luiza, que tamb\u00e9m trabalha na Secretaria de Cultura do Estado de S\u00e3o Paulo, lembra de dois momentos bem emblem\u00e1ticos. \u201cO primeiro \u00e9 o suic\u00eddio de Get\u00falio Vargas. A imprensa basicamente n\u00e3o deixou alternativa para o presidente\u201d. Ela continua: \u201co outro momento foi o impeachment do presidente Collor. Um dos artigos mostra como a atua\u00e7\u00e3o da Veja e da Isto \u00c9 foram decisivas para o encaminhamento e o desenrolar da hist\u00f3ria\u201d. Martino busca na mem\u00f3ria a hist\u00f3ria do jornalista Hip\u00f3lito Jos\u00e9 da Costa, que escrevia para o primeiro jornal de oposi\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, o Correio Braziliense. \u201cO livro do Laurentino Gomes revela que o Hip\u00f3lito era financiado por Dom Jo\u00e3o VI. Ent\u00e3o at\u00e9 podia fazer oposi\u00e7\u00e3o, mas bater de frente nunca\u201d, brinca, defendendo que, portanto, est\u00e1 no DNA da nossa imprensa essa rela\u00e7\u00e3o mais que intrincada com os agentes do poder.<\/p>\n<p>Para o professor, de um modo geral, a imprensa est\u00e1 mais pr\u00f3xima que afastada dos projetos pol\u00edticos em vigor, mas h\u00e1 casos na hist\u00f3ria do pa\u00eds em que o div\u00f3rcio entre as duas partes fica evidente. N\u00e3o s\u00f3 no exemplo j\u00e1 citado da postura da imprensa anti-getulista que levou ao suic\u00eddio de Vargas, mas segundo ele em um outro momento bem recente aconteceu uma cis\u00e3o significativa. \u201cNa \u00faltima elei\u00e7\u00e3o presidencial, havia uma postura clara da imprensa a favor da realiza\u00e7\u00e3o do segundo turno, que aconteceu, mas que terminou num resultado diferente do que esperavam os grandes conglomerados jornal\u00edsticos. O Lula ganhou\u201d, conta.<\/p>\n<p>Seria esse um exemplo de que a imprensa estaria deixando de ser uma formadora de opini\u00e3o com influ\u00eancia sobre a popula\u00e7\u00e3o brasileira? Martino acha que o jornal e o r\u00e1dio j\u00e1 exerceram muito mais eficientemente esse papel de promotores e defensores de determinadas id\u00e9ias, levando a popula\u00e7\u00e3o a tomar aquele ide\u00e1rio como dela. Depois do final dos anos 1970, com o dom\u00ednio da televis\u00e3o sobre os outros ve\u00edculos, a realidade ficou um pouco diferente. \u201cAt\u00e9 a metade da d\u00e9cada de 70, era o jornal e o r\u00e1dio quem propunham os assuntos. Depois disso passou a ser a TV e junto com essa mudan\u00e7a, outra se mostrou\u201d.<\/p>\n<p>Para explicar essa segunda transforma\u00e7\u00e3o, o professor da UMESP avalia que atualmente \u00e9 mais f\u00e1cil que uma novela mobilize os h\u00e1bitos, os pensamentos e os comportamentos da popula\u00e7\u00e3o do que um telejornal.<\/p>\n<p>Ainda na vis\u00e3o de Martino, a grande diferen\u00e7a entre o jornalismo pr\u00e9-televis\u00e3o e o jornalismo de hoje \u00e9 que antes ele era mais expl\u00edcito. O apoio a projetos pol\u00edticos ou econ\u00f4micos, ou at\u00e9 a autoridades ou candidatos, era mais transparente. Por isso, cada ve\u00edculo atendia a um p\u00fablico diferente e se identificava com uma parcela distinta da popula\u00e7\u00e3o. \u201cUm dos poucos momentos em que essa divis\u00e3o foi rompida foi na luta pela redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds a partir de 1978. Ali havia uma sinergia de linhas pol\u00edticas, de camadas da popula\u00e7\u00e3o, de grupos at\u00e9 rivais em favor da democracia. Mas isso \u00e9 raro na hist\u00f3ria\u201d, ensina o professor. E algo se manteve igual de 1808 at\u00e9 hoje?<\/p>\n<p>A resposta de Martino alimenta as esperan\u00e7as dos futuros jornalistas: \u201cO papel da imprensa n\u00e3o mudou. Desde a chegada da imprensa aqui, sua fun\u00e7\u00e3o sempre foi ter responsabilidade com a realidade factual, manter a postura cr\u00edtica e manter a postura de investiga\u00e7\u00e3o e eventual den\u00fancia\u201d, defende. E comenta que \u00e9 interessante ver como cada meio de comunica\u00e7\u00e3o encontra sua maneira de fazer isso. \u201cUns mais sisudos, outros mais debochados, como o Pasquim&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Ana Luiza chama a aten\u00e7\u00e3o dos professores: todos os especialistas que participam de Hist\u00f3ria da Imprensa no Brasil foram orientados a escrever para um p\u00fablico n\u00e3o espec\u00edfico, com linguagem acess\u00edvel, mas sem perder profundidade de an\u00e1lise, de forma que mesmo quem nunca tenha travado contato com as teorias que ligam imprensa e hist\u00f3ria \u00e9 capaz de se deliciar com a obra. Por outro lado, quem j\u00e1 \u00e9 iniciado nesses estudos vai encontrar ali reflex\u00f5es novas e cuidadosas sobre o tema. Nas palavras da historiadora, \u201cestudantes de ensino m\u00e9dio, professores de ensino m\u00e9dio, jornalistas iniciantes, historiadores, todos est\u00e3o contemplados\u201d.<\/p>\n<p>A autora aponta ainda para a extensa sugest\u00e3o de bibliografia que ela e T\u00e2nia fizeram, como mais uma maneira de incentivar os leitores entusiasmados pelo tema. \u201cN\u00e3o dava para abordar tudo, ent\u00e3o preferimos trabalhar bem alguns pontos fundamentais e sugerir novas leituras para quem quiser seguir adiante\u201d, instiga.<\/p>\n<p><em>*<strong>Publicado em Sinpro &#8211; SP On Line<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em><strong>por Elisa Marconi e Francisco Bicudo<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Muito vem se falando sobre os 200 anos da chegada da fam\u00edlia real portuguesa ao Brasil. 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