{"id":11020,"date":"2008-06-27T00:00:00","date_gmt":"2008-06-27T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:01:43","modified_gmt":"2017-09-14T04:01:43","slug":"operacao-portugal","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/operacao-portugal\/","title":{"rendered":"Opera\u00e7\u00e3o Portugal *"},"content":{"rendered":"<p>O Minist\u00e9rio das Boas Maneiras e do Bom Tom informa:<\/p>\n<p>ESTE POST N\u00c3O \u00c9 RECOMEND\u00c1VEL A MENORES DE 14 ANOS.[<br \/>\nPODE CONTER UM QUASE PALAVR\u00c3O NO FINAL.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Recomenda\u00e7\u00e3o feita, comecemos nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Aviso logo que pertencia aos quadros redacionais do jornal onde ocorreu o fato \u2013 de ingl\u00f3ria mem\u00f3ria \u2013 mas, que fique claro!, n\u00e3o foi meu o vacilo.<\/p>\n<p>Confesso que assustei um tantinho quando tudo aconteceu.<\/p>\n<p>Mas, hoje, quando lembro, dou muita risada.<\/p>\n<p>Seguinte&#8230;<\/p>\n<p>I.<\/p>\n<p>Numa bela tarde de um dia qualquer, chegou \u00e0 mesa do editor uma chamada OP. <\/p>\n<p>Para os leigos no jarg\u00e3o das reda\u00e7\u00f5es, OP significa Opera\u00e7\u00e3o Portugal. <\/p>\n<p>N\u00e3o me perguntem o por qu\u00ea. <\/p>\n<p>Chamam assim as mat\u00e9rias de cunho publicit\u00e1rio ou que tenham algum interesse n\u00e3o-jornal\u00edstico, encomendadas por algum figur\u00e3o ou pelo departamento comercial ou pelo dono do jornal que n\u00e3o deixa de ser um figur\u00e3o. A diferen\u00e7a \u00e9 que o figura paga os nossos sal\u00e1rios; por isso, n\u00e3o vale a pena contrariar<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Querem ver os mecanismos que nos levam a uma OP?<\/p>\n<p>A conhecida da irm\u00e3 da namorada do filho do dono do jornal escreveu um livro sobre \u201cDicas de Como Ser a Conhecida da Irm\u00e3 da Namorada do Filho do Dono do Jornal e Ser Feliz\u201d. A\u00ed chega uma OP na mesa do editor vinda diretamente da secret\u00e1ria do filho do dono do jornal para que se \u201ccubra o lan\u00e7amento dessa importante obra\u201d.<\/p>\n<p>No jornal do dia seguinte, pode at\u00e9 sair apenas umas cinco ou seis linhas em Notas, num canto qualquer do caderno de cultura. Mas, \u00e9 indispens\u00e1vel a presen\u00e7a do rep\u00f3rter e do fot\u00f3grafo na noite de aut\u00f3grafos. Para dar aquele status de celebridade \u00e0 mo\u00e7oila e espocar alguns flashs na fu\u00e7a da dita-cuja e de seus convidados, incluindo a\u00ed o filho do dono do jornal.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Me dizem hoje que as reda\u00e7\u00f5es andam enxutas. E o rep\u00f3rter est\u00e1 livre da sina. <\/p>\n<p>Mas, o fot\u00f3grafo e os BLs s\u00e3o indispens\u00e1veis.<\/p>\n<p>Tecla sater: <\/p>\n<p>BL quer dizer \u201cbanho de luz\u201d. <\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca em que as c\u00e2meras n\u00e3o eram digitais \u2013 portanto, usava-se filme \u2013, era uma esp\u00e9cie de divers\u00e3o com os chamados \u2018papagaios de pirata\u2019 sair dando flashs em todos os presentes, mas sem filme na m\u00e1quina. Eles ficavam felizes e na manh\u00e3 seguinte corriam \u00e0s bancas para ver se sa\u00edra a foto que, na verdade, nunca existiu.<\/p>\n<p>Mas, voltemos \u00e0 nossa hist\u00f3ria para n\u00e3o me perder em reminisc\u00eancias.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Esclare\u00e7a-se. Eram mais comuns as pautas de algum anunciante. Para encher a bola do cara e assim, com o ego devidamente lustrado, anunciar mais e mais.<\/p>\n<p>Foi uma dessas OPs que chegara naquele dia. <\/p>\n<p>Dizia o seguinte em termos gerais:<\/p>\n<p>\u201cFazer uma entrevista com a esteticista Fulana de Tal, rua X, n\u00famero Y, \u00e0s tantas horas. Sem Falta. Ela vai falar sobre a inaugura\u00e7\u00e3o recente e o funcionamento da Cl\u00ednica Estica e Puxa (nome fict\u00edcio, claro). Teremos a \u00faltima p\u00e1gina inteira (o jornal era tabl\u00f3ide) dedicada \u00e0 empresa. Levar fot\u00f3grafo. Importante: n\u00e3o usar \u201cchap\u00e9u\u201d de Informe Publicit\u00e1rio.\u201d<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>\u00d3bvio que ningu\u00e9m quis fazer a tal mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>Rep\u00f3rteres entravam e sa\u00edam \u2013 e o editor tentava alici\u00e1-los. Primeiro, tipo chef\u00e3o mesmo. Na base da imposi\u00e7\u00e3o. Com as negativas sucessivas, ele aliviava. No fim, estava quase implorando. <\/p>\n<p>Mas, o pessoal continuava convicto:<\/p>\n<p>&#8212; Quer mandar embora, manda. Mas, n\u00e3o vou fazer.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Diante de tantas recusas, o editor at\u00e9 pensou em improvisar. Se a tal cl\u00ednica tivesse um folder ou qualquer outro material publicit\u00e1rio, ele mesmo daria uma requentada no texto e mandaria ver.<\/p>\n<p>Como se dizia \u00e0 \u00e9poca, se n\u00e3o tem tu, vai tu mesmo&#8230;<\/p>\n<p>Mas, para a salva\u00e7\u00e3o de todos, at\u00e9 porque o clima j\u00e1 estava ficando tenso, apareceu um abnegado redator de variedades. <\/p>\n<p>Abnegado, at\u00e9 a p\u00e1gina dois. <\/p>\n<p>Para se livrar do roteir\u00e3o das atra\u00e7\u00f5es do fim de semana, o cara topava fazer a mat\u00e9ria comercial. <\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Convencer os fot\u00f3grafos foi mais tranq\u00fcilo. <\/p>\n<p>Bastou dizer que haveria mulher na parada, todos se assanharam. Imaginaram as mo\u00e7as de biqu\u00ednis fazendo bronzeamento artificial ou mesmo deitada nas camas sendo massageadas e outras situa\u00e7\u00f5es t\u00e3o sum\u00e1rias quanto. <\/p>\n<p>Como disse, todos se assanharam. Mas foi um s\u00f3 o escolhido.<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>A dupla din\u00e2mica partiu para a her\u00f3ica e jabazenta jornada. <\/p>\n<p>Hora e meia depois, estavam de volta. <\/p>\n<p>Calados partiram, calados chegaram.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos empenhados em nossos afazeres \u2013 e ningu\u00e9m mais se deu conta da OP da \u00faltima p\u00e1gina. Alguns at\u00e9 saudaram:<\/p>\n<p>&#8212; Uma p\u00e1gina a menos para \u2018fechar\u2019.<\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>O rapaz fez o texto sem maiores ang\u00fastias, esperou que as fotos chegassem, enfiou tudo num envelope amarronzado \u2013 e mandou para o comercial. Que iria desenhar a p\u00e1gina.<\/p>\n<p>Faria o lay-out, como gostavam de dizer.<\/p>\n<p>P\u00e1gina rabiscada no diagrama, foi para o past-up (s\u00f3 os antiguinhos saber\u00e3o do que estou falando) para ser montada. Ningu\u00e9m dando a m\u00ednima para a dita-cuja. <\/p>\n<p>Na Reda\u00e7\u00e3o, diz\u00edamos:<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 an\u00fancio. A Publicidade que cuide!<\/p>\n<p>A Publicidade rebatia:<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 mat\u00e9ria. Coisa da Reda\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio gr\u00e1fico berrava aqui e acol\u00e1.<\/p>\n<p>&#8212; Quem vai bater as emendas da \u00faltima p\u00e1gina?<\/p>\n<p>(Tradu\u00e7\u00e3o: revisar para ver se estava tudo nos conformes.)<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m respondia.<\/p>\n<p>X.<\/p>\n<p>O tempo comendo solto. <\/p>\n<p>As p\u00e1ginas fechando e \u2018pobrezinha\u2019 ali \u00e0 espera da libera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>XI.<\/p>\n<p>Preciso dizer?<\/p>\n<p>Mandaram a p\u00e1gina descer para a fotomec\u00e2nica e impress\u00e3o sem checar.<\/p>\n<p>Quem foi?<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje paira o mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>XII.<\/p>\n<p>Claro que o pacote dos originais desapareceu, sem deixar vest\u00edgios.<\/p>\n<p>E, olhem, que n\u00e3o faltaram amea\u00e7as de demiss\u00e3o em massa em todos os departamentos da empresa. Do cont\u00ednuo ao editor, que insistia em dizer que a p\u00e1gina era responsabilidade dos \u201cgravatas\u201d (o pessoal da Publicidade). Do revisor \u2013 que jura ter lido a frase correta \u2013 ao chefe da Publicidade que teimava em culpar os jornalistas.<\/p>\n<p>&#8212; Esses irrespons\u00e1veis! N\u00f3s \u00e9 que pagamos o sal\u00e1rio deles. Sem an\u00fancio, o jornal n\u00e3o sobreviver&#8230;<\/p>\n<p>Um bate-boca inesquec\u00edvel naquela manh\u00e3 de sexta-feira.<\/p>\n<p>XIII.<\/p>\n<p>O inevit\u00e1vel aconteceu.<\/p>\n<p>A dona da Cl\u00ednica Estica e Puxa, acompanhada de dois advogados, chegou chegando ao pr\u00e9dio do jornal. Atropelou os seguran\u00e7as e foi direto para o andar da Diretoria. Trazia uma edi\u00e7\u00e3o do nosso combativo jornal amarfanhada em uma das m\u00e3os e os olhos crispando fogo. Invadiu a sala do manda-chuva e soltou o verbo.<\/p>\n<p>Queria que a edi\u00e7\u00e3o fosse recolhida. Pediria uma indeniza\u00e7\u00e3o milion\u00e1ria. Processaria o jornal, quem escreveu, quem pegou o an\u00fancio, quem revisou, quem imprimiu e quem mais tivesse participa\u00e7\u00e3o naquela \u201ccafajestagem\u201d \u2013 palavra empregada pela senhora que, aparentemente, era de fino trato.<\/p>\n<p>XIV.<\/p>\n<p>O que aconteceu?<\/p>\n<p>Um errinho comum de digita\u00e7\u00e3o, talvez.<\/p>\n<p>L\u00e1 no meio da p\u00e1gina, onde deveria estar escrito:<\/p>\n<p>\u201cNossas fisioterapeutas atendem, sem compromisso, com hora marcada. Venha visit\u00e1-las.\u201d<\/p>\n<p>Saiu:<\/p>\n<p>\u201c Nossas fisioteraputas atendem&#8230;\u201d<\/p>\n<p>XV.<\/p>\n<p>Foi um barraco!<\/p>\n[Texto publicado no livro &quot;Meus Caros Amigos \u2013 Cr\u00f4nicas sobre jornalistas, bo\u00eamios e paix\u00f5es&quot;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Minist\u00e9rio das Boas Maneiras e do Bom Tom informa:<\/p>\n<p>ESTE POST N\u00c3O \u00c9 RECOMEND\u00c1VEL A MENORES DE 14 ANOS.[<br \/>\nPODE CONTER UM QUASE PALAVR\u00c3O NO FINAL.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Recomenda\u00e7\u00e3o feita,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-11020","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11020","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11020"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11020\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13958,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11020\/revisions\/13958"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11020"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11020"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11020"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}