{"id":11025,"date":"2008-06-30T00:00:00","date_gmt":"2008-06-30T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:01:20","modified_gmt":"2017-09-14T04:01:20","slug":"a-taca-do-mundo-e-nossa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-taca-do-mundo-e-nossa\/","title":{"rendered":"A Ta\u00e7a do Mundo \u00e9 nossa *"},"content":{"rendered":"<p>Juro que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples entender.<\/p>\n<p>Para um garoto de sete anos, que est\u00e1 no primeiro ano do Grupo Escolar Oscar Thompson, \u00e9 preciso dar o devido desconto. Gosto muito do pai, mas \u00e0s vezes ele me confunde.<\/p>\n<p>Primeiro, ele me garantiu que na vida a gente pode tudo. Pode mudar de religi\u00e3o, de partido pol\u00edtico, de nacionalidade, de marca de carro, de gosto, de opini\u00e3o; at\u00e9 de mulher, que \u00e9 bom e saud\u00e1vel.<\/p>\n<p>Essa parte a m\u00e3e n\u00e3o gostou \u2013 e at\u00e9 gritou l\u00e1 da cozinha:<\/p>\n<p>&#8212; Aldoooo!!!<\/p>\n<p>O pai sorriu daquele jeito dele, meio malandro; deu uma piscadinha para mim e concluiu: <\/p>\n<p>&#8212; A gente s\u00f3 n\u00e3o pode virar bandeira. Trocar de time de futebol, nunca.<\/p>\n<p>O pai \u00e9 palmeirense \u2013 palestrino, como gosta de dizer. E eu tamb\u00e9m, n\u00e9?. <\/p>\n<p>Para ele, o centro-avante Mazzola \u00e9 o melhor jogador do mundo.<\/p>\n<p>&#8212; Chuta tudo: tiro de meta, falta, p\u00eanalti&#8230; Bate escanteio e cabeceia.<\/p>\n<p>Puxa vida, nem o Flash Gordon faz tanta coisa ao mesmo tempo \u2013 e olha que o Flash Gordon \u00e9 o her\u00f3i no seriado de domingo no cinema. <\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Mas, se o pai falou&#8230;<\/p>\n<p>Est\u00e1 certo que o pai, \u00e0s vezes, quase sempre, exagera.<\/p>\n<p>Mas, pai \u00e9 pai.<\/p>\n<p>Por isso, mesmo que fiquei confuso.<\/p>\n<p>Agora, ele deu de torcer por um time chamado \u201cSele\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ele, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Todo mundo que eu conhe\u00e7o torce para essa tal de sele\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que v\u00e3o acabar os palmeirenses, corintianos, s\u00e3o-paulinos, portugueses? <\/p>\n<p>Que sem gra\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Sem gra\u00e7a, sim. <\/p>\n<p>A grande divers\u00e3o dos garotos da rua Muniz de Souza \u00e9 o futebol. Jogamos bola, da manh\u00e3 at\u00e9 \u00e0 noite. Na cal\u00e7adas, no campinho, no barranc\u00e3o do Jardim da Aclima\u00e7\u00e3o. Com bolas de meia, de borracha, de capot\u00e3o. Bobinho, controle, gol a gol, chutar-rebater e driblar, rach\u00e3o. N\u00e3o importa hora, local, tipo de jogo \u2013 queremos mesmo jogar futebol.<\/p>\n<p>Entre um jogo e outro, uma brincadeira e outra, nosso assunto \u00e9&#8230; futebol. E a\u00ed a grande divers\u00e3o \u00e9 provocar o outro. Dizer que meu time era melhor do que o do outro. Que o Mazzola \u00e9 melhor que o Luizinho, que o Luizinho \u00e9 melhor que o Canhoteiro e por a\u00ed temos assunto sem fim.<\/p>\n<p>Agora se todos torcerem por um time s\u00f3 ser\u00e1 um t\u00e9dio. Chat\u00edssimo.<\/p>\n<p>N\u00e3o haver\u00e1 raz\u00e3o para bate-bocas e pancadarias que, \u00e0s vezes, tal e qual o pai, eu tamb\u00e9m exagero.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Por falar em pai. Ele bem que tentou me explicar.<\/p>\n<p>&#8212; A sele\u00e7\u00e3o representa a P\u00e1tria.<\/p>\n<p>N\u00e3o ajudou muito. <\/p>\n<p>Explico.<\/p>\n<p>Ainda domingo passado o Santos do Cambuci jogou contra um time chamado P\u00e1tria. Foi uma partida dif\u00edcil, mas o Santos ganhou e n\u00e3o vi nenhum desses jogadores em campo.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o, n\u00e3o. A sele\u00e7\u00e3o \u00e9 formada pelos melhores jogadores de cada clube e representa o nosso pa\u00eds, o Brasil, num torneio que se disputa de quatro em quatro anos e se chama Copa do Mundo. Participam 16 pa\u00edses e quem ganha fica com o t\u00edtulo de melhor do mundo, entendeu?<\/p>\n<p>Balan\u00e7o a cabe\u00e7a para mostrar para o pai que n\u00e3o sou t\u00e3o boc\u00f3 assim. Digo que tem l\u00e1 suas vantagens torcer por uma equipe com um ataque formado por Cl\u00e1udio, Luizinho, Mazzola, \u00canio Andrade e Canhoteiro. <\/p>\n<p>O pai sorri.<\/p>\n<p>&#8212; Melhor ainda. Pois a sele\u00e7\u00e3o re\u00fane jogadores do Rio de Janeiro tamb\u00e9m. Didi, Joel, Vav\u00e1, Dida e um tal de Garrincha.<\/p>\n<p>&#8212; D\u00e1 para fazer um bom time, n\u00e9, pai?<\/p>\n<p>&#8212; O melhor, filho, o melhor&#8230;<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Bastou come\u00e7ar os jogos para ver que o pai tinha raz\u00e3o. A cada partida, \u00e9 uma festa. Uma alegria. Todas as casas t\u00eam um r\u00e1dio sintonizado no jogo \u2013 e as pessoas parecem todas irmanadas. Como se fossem da mesma fam\u00edlia, na noite da v\u00e9spera de Natal. At\u00e9 as mulheres se entusiasmam como futebol.<\/p>\n<p>Na escola, a professora, dona Izabel, trouxe um livr\u00e3o chamado Atlas, repleto de mapas. Mostrou para n\u00f3s quais s\u00e3o os advers\u00e1rios do Brasil: \u00c1ustria, Inglaterra e R\u00fassia. Pelo tamanho deles em compara\u00e7\u00e3o ao nosso, achei que ganhar\u00edamos f\u00e1cil dos dois primeiros e a tal da R\u00fassia me pareceu problema. <\/p>\n<p>&#8212; O futebol n\u00e3o tem l\u00f3gica.<\/p>\n<p>Foi a primeira vez que ouvi essa frase.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 que a professora tem raz\u00e3o.<\/p>\n<p>O Brasil ganhou da \u00c1ustria (3&#215;0), empatou com a min\u00fascula Inglaterra (0x0) e derrotou a R\u00fassia (2&#215;0), com um baile de Garrincha, que o pai falou que era driblador, que fazia mais gra\u00e7as com a bola do que o Vagabundo Carlitos com a bengala. <\/p>\n<p>Meu av\u00f4 tamb\u00e9m tem esse apelido \u2013 Carlitos, mas n\u00e3o usa bengala e vive cantando \u2018Luar do Sert\u00e3o\u2019.<\/p>\n<p>Ah! O pai falou tamb\u00e9m de um menino que joga no Santos, chamado Pel\u00e9.<\/p>\n<p>Nas conversas da escola, do bar Ast\u00f3ria (quando vou ver o pai jogar Patr\u00e3o-e-Sotto), da barbearia do Seu At\u00edlio, at\u00e9 da quitanda da Dona Am\u00e9lia, as pessoas est\u00e3o felizes e apreensivas. S\u00f3 falam na tal Copa do Mundo e se perguntam:<\/p>\n<p>&#8212; Ser\u00e1 que agora vai?<\/p>\n<p>A\u00ed lembram que em 1950, ano em que nasci, a Copa do Mundo foi disputada no Rio de Janeiro e o Brasil perdeu no \u00faltimo jogo para o Uruguai (2&#215;1). Algumas ficam com os olhos vermelhos quando lembram. Outras perdem a voz. H\u00e1 quem abaixe a cabe\u00e7a e tente mudar de assunto.<\/p>\n<p>Mais de uma vez, escutei a frase:<\/p>\n<p>&#8212; O brasileiro tem complexo de vira-lata. Principalmente no futebol. Treme quando chega a hora da decis\u00e3o.<\/p>\n<p>Dizem que foi um jornalista chamado N\u00e9lson Rodrigues que fez essa triste compara\u00e7\u00e3o. Nessa hora, eu tento desconversar e lhes digo o que aprendi na escola:<\/p>\n<p>&#8212; Futebol n\u00e3o tem l\u00f3gica.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Vou ser sincero.<\/p>\n<p>Queria que esse torneio \u2013 como disse o pai, \u201cque \u00e9 diferente de campeonato\u201d \u2013 n\u00e3o acabasse nunca. Estou gostando da farra.<\/p>\n<p>Que venham mais advers\u00e1rios. Venceremos todos.<\/p>\n<p>Quando ganhamos do Pa\u00eds de Gales. Um a zero, mixuruca, mixuruca. Os batuqueiros da Imp\u00e9rio do Cambuci sa\u00edram pelas ruas do Cambuci. Parecia carnaval.<\/p>\n<p>Depois da goleada em cima da Fran\u00e7a (5&#215;2), foi a nossa vez. Eu, o Bet\u00e3o, o Claudinho e o Bilex sa\u00edmos comemorando pelas ruas. Ali\u00e1s, todos comemoravam. Havia cadeiras nas ruas, formando rodas de vizinhos a beber, rir e cantar:<\/p>\n<p>\u201cA Ta\u00e7a do Mundo<br \/>\n\u00e9 nossa&#8230; Com o brasileiro<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 quem possa&#8230;<br \/>\nEeta, esquadr\u00e3o de ouro&#8230;<br \/>\n\u00c9 bom no samba&#8230;<br \/>\n\u00c9 bom no couro&#8230;\u201d<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>29 de junho de 1958.<\/p>\n<p>Um domingo que come\u00e7ou apreensivo, sob a amea\u00e7a de um novo Maracanazzo. <\/p>\n<p>Terminou numa grande festa. <\/p>\n<p>Brasil 5 x Su\u00e9cia 2.<\/p>\n<p>Pela primeira vez o Brasil era CAMPE\u00c3O MUNDIAL DE FUTEBOL.<\/p>\n<p>\u00c0s favas o tal complexo de vira-lata.<\/p>\n<p>O mundo, finalmente, descobriu o Brasil, como diz o jornalista Paulo Planet Buarque, no bel\u00edssimo document\u00e1rio de Jos\u00e9 Carlos Asberg que retrata essa fa\u00e7anha.<\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se voc\u00eas me entender\u00e3o.<\/p>\n<p>Havia uma \u00e1urea de felicidade em toda gente.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve essa comemora\u00e7\u00e3o programada, artificial t\u00e3o comum nos dias atuais.<\/p>\n<p>As pessoas apenas sa\u00edram \u00e0s ruas e pulavam&#8230;<\/p>\n<p>e cantavam e pulavam&#8230; <\/p>\n<p>e sorriam e pulavam&#8230; <\/p>\n<p>Nossa como pulavam!!!<\/p>\n<p>X.<\/p>\n<p>O pai era um desses felizardos.<\/p>\n<p>Nem ligou que Mazzola, depois da Copa, n\u00e3o jogaria mais no Palmeiras; pois vendido ao Milan da It\u00e1lia.<\/p>\n<p>&#8212; Vamos comprar um time todo com esse dinheiro.<\/p>\n<p>Para ele \u2013 e para o mundo &#8211;, o futebol tinha um novo rei:<\/p>\n<p>PEL\u00c9<\/p>\n<p>e um g\u00eanio das pernas tortas:<\/p>\n<p>GARRINCHA.<\/p>\n<p>XI.<\/p>\n<p>O menino tamb\u00e9m estava feliz.<\/p>\n<p>Pela primeira vez, sentia-se um campe\u00e3o.<\/p>\n<p>Gosto bom, de alegria e conquista.<\/p>\n<p>T\u00e3o bom que fez at\u00e9 uma promessa para ele mesmo.<\/p>\n<p>Lembraria daqueles momentos para sempre&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; nem que passassem 50 anos e um dia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Juro que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples entender.<\/p>\n<p>Para um garoto de sete anos, que est\u00e1 no primeiro ano do Grupo Escolar Oscar Thompson, \u00e9 preciso dar o devido desconto.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-11025","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11025","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11025"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11025\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13957,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11025\/revisions\/13957"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11025"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11025"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11025"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}