{"id":11041,"date":"2008-07-11T00:00:00","date_gmt":"2008-07-11T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:00:35","modified_gmt":"2017-09-14T04:00:35","slug":"tucanei-a-bossa-nova","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/tucanei-a-bossa-nova\/","title":{"rendered":"Tucanei a bossa nova *"},"content":{"rendered":"<p>Meus amigos e, principalmente, meus inimigos&#8230;<\/p>\n<p>Vou lhes dizer com todas as letras.<\/p>\n<p>Desde priscas eras, eu &quot;tucanei&quot; em termos de bossa-nova.<\/p>\n<p>N\u00e3o seria agora \u2013 aos 57 anos de idade, eu; e nas comemora\u00e7\u00f5es dos cinquentinha dela \u2013 que iria roer a corda e dizer que sempre a amei de paix\u00e3o.<\/p>\n<p>Gosto, mas n\u00e3o me enrosco.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar quando ouvi \u201cChega de Saudade\u201d pela primeira vez no r\u00e1dio de casa, achei divertida a hist\u00f3ria dos \u201cpeixinhos a nadar no mar\u201d. <\/p>\n<p>Considerem que tinha sete anos, por favor.<\/p>\n<p>Sei que nomes como Caetano, Gil, Chico e outros tantos costumam dizer que a audi\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Gilberto foi um divisor de \u00e1guas e cousa e lousa e maripousa.<\/p>\n<p>Mas, h\u00e1 que se compreender: eles eram um tantinho mais idosos que eu. Tinham l\u00e1 seus quinze, dezesseis anos e, al\u00e9m de tudo, eram \u2013 e s\u00e3o \u2013 g\u00eanios. <\/p>\n<p>Eu, registre-se, sempre fui \u201cum menino de mentalidade mediana\u201d.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, inesquec\u00edvel para mim foi a primeira vez que ouvi uma m\u00fasica de Jorge Ben. Foi \u201cChove Chuva\u201d, com aquela introdu\u00e7\u00e3o refinada e os versos simples a pontuar um ritmo que n\u00e3o era bossa, n\u00e3o era samba, n\u00e3o era jazz. E era um pouco de tudo ou de tudo um pouco. Mas, principalmente j\u00e1 trazia a indel\u00e9vel marca de outro g\u00eanio da MPB.<\/p>\n<p>A molecada estava reunida em frente \u00e0 venda do seo Jos\u00e9, quando o r\u00e1dio tocou a can\u00e7\u00e3o. Lembro do Darci, que era mais velho que n\u00f3s e sa\u00eda como batuqueiro da Imp\u00e9rio do Cambuci, a nos intimar que prest\u00e1ssemos aten\u00e7\u00e3o na batida do viol\u00e3o, diferente de tudo o que j\u00e1 t\u00ednhamos ouvido.<\/p>\n<p>Mas, o que me impressionou foi a letra.<\/p>\n<p>T\u00e3o simples, t\u00e3o direta&#8230;<\/p>\n<p>Uma sensa\u00e7\u00e3o que aumentou ainda mais, semanas depois quando ouvi \u201cPor Causa de Voc\u00ea, Menina\u201d.<\/p>\n<p>\u201cMas, voc\u00ea passa e n\u00e3o me olha.<br \/>\nMas, eu olho pra vox\u00ea.<br \/>\nVoc\u00ea, n\u00e3o me diz nada.<br \/>\nMas eu digo pra vox\u00ea.<br \/>\nVoc\u00ea por mim n\u00e3o chora.<br \/>\nMas eu choro por vox\u00ea\u201d<\/p>\n<p>Havia at\u00e9 uma pol\u00eamica sobre a interpreta\u00e7\u00e3o de Benjor. Diziam que ele tinha a l\u00edngua presa porque dizia \u2018vox\u00ea\u2019, e n\u00e3o voc\u00ea no fim de cada verso. <\/p>\n<p>Eu nem liguei. Adorei a m\u00fasica e os versos.<\/p>\n<p>Era tudo o que eu queria dizer para Ligia &#8212; e ela n\u00e3o dava a m\u00ednima para mim.<\/p>\n<p>Eu tinha onze anos&#8230; <\/p>\n<p>Parte 2<\/p>\n<p>Desconfio que o post de ontem sobre a bossa-nova ficou incompleto. Escrevi que \u201ctucanei\u201d em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 bossa-nova e depois me pus comentar as primeiras can\u00e7\u00f5es de Benjor. De resto, me impressionaram mais do que a apari\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Gilberto.<\/p>\n<p>Que os ilustres f\u00e3s do mito me perdoem. Mas, n\u00e3o vou mentir.<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca do lan\u00e7amento de \u2018Chega de Saudade\u2019, havia um programa na TV Record nas noites de s\u00e1bado, apresentado por Randal Juliano. Chamava-se Astros do Disco, era uma esp\u00e9cie de parada de sucesso em que todos acreditavam. N\u00e3o existiam play-back e v\u00eddeo-tape. Os cantores viviam a mesma expectativa que o p\u00fablico, pois obrigatoriamente iam l\u00e1 defender suas can\u00e7\u00f5es, caso estivessem entre as mais vendidas e mais tocadas nas r\u00e1dios. Como disse ontem, achei bacana a can\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o e torcia para que aparecesse entre as mais mais. Minha preferida, no entanto, era para \u201cSereno\u201d, um dolente samba-can\u00e7\u00e3o, cantado por Paulo Molen. Falava de um homem apaixonado que fazia confidencias amorosas ao tal \u201csereno da madrugada\u201d. Havia levado um p\u00e9 na bunda da amada e, na letra, perambulava pela rua, abandonado, \u201ctriste e sozinho\u201d.<\/p>\n<p>Um dramalh\u00e3o para os meus sete anos. <\/p>\n<p>Mas, que fazer? <\/p>\n<p>Sempre fui um cora\u00e7\u00e3o mole&#8230;<\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos 60, quando apareceu a segunda gera\u00e7\u00e3o de bossanovistas, confesso que troquei \u201co barquinho vai e a tardinha cai\u201d para o que se entendia como \u201cm\u00fasica de protesto\u201d, assinadas pelos irm\u00e3os Marcos e Paulo S\u00e9rgio Valle. <\/p>\n<p>\u201cMas, um dia vai chegar<br \/>\nQue o mundo vai saber<br \/>\nN\u00e3o se vive sem se dar<br \/>\nQuem trabalha \u00e9 quem tem<br \/>\nDireito de viver<br \/>\nPois a terra \u00e9 de ningu\u00e9m\u201d<\/p>\n<p>Os versos fortes ganharam, posteriormente, uma vers\u00e3o definitiva na voz de Elis Regina \u2013 e a\u00ed eu capitulei de vez.<\/p>\n<p>At\u00e9 a p\u00e1gina 2, eu diria&#8230;<\/p>\n<p>Porque logo vieram os Beatles e depois a Jovem Guarda, e me foi imposs\u00edvel escapar ao fasc\u00ednio dos tr\u00eas acordes b\u00e1sicos que sustentam o rock. Uma explos\u00e3o de alegria e juventude \u2013 especialmente para n\u00f3s, adolescentes remediados do Cambuci e, ao que consta, para os jovens suburbanos do mundo todo.<\/p>\n<p>Lembro que estudava comigo no antigo curso ginasial um menino talentos\u00edssimo, Francisco de Paula Brand\u00e3o Bisneto. Ele tentava de todas as formas me ensinar a tocar no viol\u00e3o os acordes e harmonias da bossa-nova, das can\u00e7\u00f5es de Tom Jobim, Carlinhos Lyra e outros. Um esfor\u00e7o em v\u00e3o do amigo que tinha um viol\u00e3o da marca Di Giorgio, um luxo inimagin\u00e1vel para n\u00f3s.<\/p>\n<p>Eu, ruim da cabe\u00e7a e doente do p\u00e9, me achava mais pr\u00f3ximo do que cantava o Erasmo:<\/p>\n<p>\u201cUm dia, gatinha manhosa,<br \/>\neu prendo voc\u00ea em meu cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nQuero ver voc\u00ea,<br \/>\nFazer manha ent\u00e3o&#8230;<br \/>\nPresa no meu cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nQuero ver voc\u00ea&#8230;\u201d<\/p>\n<p>O meu amigo, depois de grande, virou artista. Ator, m\u00fasico, personagem infantil \u2013 era o Professor Por\u00f3p\u00f3p\u00f3. <\/p>\n<p>Adotou, ent\u00e3o, o nome de Chiquinho Brand\u00e3o&#8230; <\/p>\n<p>Parte 3<\/p>\n<p>Diz com quem andas<br \/>\ne te direi quem \u00e9s&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se Elis Regina valeu-se da b\u00edblica cita\u00e7\u00e3o para expulsar Benjor \u2013 ainda Jorge Ben, naqueles idos dos 60 \u2013 do elenco do programa Fino da Bossa que comandava ao lado e Jair Rodrigues e do Zimbo Trio, na TV Record. Mas, que ela mandou o Babulina procurar sua turma, mandou&#8230;<\/p>\n<p>Explicam-se as raz\u00f5es.<\/p>\n<p>Depois de um come\u00e7o fulgurante \u2013 emplacou tr\u00eas sucessos insuper\u00e1veis ainda hoje \u2018Mas Que Nada\u2019, \u2018Chove Chuva\u2019 e \u2018Por Causa de Voc\u00ea, Menina\u2019 \u2013 esse carioca do Rio Comprido, amigo de Erasmo e Tim Maia, tornou-se nome nacional. <\/p>\n<p>Em pouco mais de dois anos, gravou quatro elep\u00eas \u2013 Samba Esquema Nova, Sacundim Ben Samba, Ben \u00c9 Samba Bom e Big Ben \u2013 e foi orientado a tentar uma carreira internacional. Por isso, viajou para os Estados Unidos para uma temporada sem data para voltar. <\/p>\n<p>O showbiz made in Usa, diziam, tinha espa\u00e7o para um violonista latino. Benjor podia muito bem ser esse tal na esteira do sucesso de \u2018Mas Que Nada\u2019 em terras ianques, gravada por S\u00e9rgio Mendes e seu quinteto.<\/p>\n<p>Vale ressaltar que o disco Big Ben n\u00e3o foi l\u00e1 muito elogiado \u2013 especialmente pelos cr\u00edticos mais conservadores. Um deles, Walter Silva, o Pica-pau, chegou a vociferar em seu programa de r\u00e1dio, dizendo que Bejor havia se bandeado para o lado do rock.<\/p>\n<p>Outra explica\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Roberto Carlos come\u00e7ava a fazer sucesso e um dos seus hits contava a hist\u00f3ria do homem que matou o homem mau. Benjor n\u00e3o resistiu e fez uma r\u00e9plica desta can\u00e7\u00e3o. Chamou-se \u201cA Hist\u00f3ria do Homem Que Matou o Homem Que Matou o Homem Mau\u201d.<\/p>\n<p>Ca\u00edram de pau no Babulina que, a esta altura, j\u00e1 enfrentava o frio das Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p>De qualquer forma, o tempo em que ficou por l\u00e1 foi suficiente para que o p\u00fablico e o r\u00e1dio e a emergente TV esquecessem o artista. <\/p>\n<p>De volta ao Brasil, teve que retomar a carreira do zero. Estava, inclusive, sem gravadora. Passou, ent\u00e3o, a se apresentar em casas noturnas do Rio e de S\u00e3o Paulo at\u00e9 que foi convidado por Elis a se apresentar em O Fino da Bossa. Na seq\u00fc\u00eancia, acabou ganhando um contrato com a TV Record para fazer parte do cast fixo do programa.<\/p>\n<p>Melhor imposs\u00edvel&#8230;<\/p>\n<p>S\u00f3 que numa dessas idas e vindas dos bastidores da Record, Benjor encontrou Erasmo e Roberto, velhos amigos da Zona Norte do Rio. Eles o convidaram para visit\u00e1-los e se apresentar no programa Jovem Guarda. <\/p>\n<p>Foi o suficiente para Elis se sentir tra\u00edda&#8230;<\/p>\n<p>Benjor deu \u00e1rea e passou a fazer parte da turma da Jovem Guarda \u2013 o que, em \u00faltima an\u00e1lise, deu origem ao que hoje se denomina samba-rock.<\/p>\n<p>Mas, a\u00ed a bossa-nova j\u00e1 havia virado MPB e esta \u00e9 uma outra hist\u00f3ria que fica para uma outra vez. At\u00e9 porque logo em seguida veio o Tropicalismo e, felizmente, p\u00f4s fim a todas as cis\u00f5es da m\u00fasica popular mais rica do mundo&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meus amigos e, principalmente, meus inimigos&#8230;<\/p>\n<p>Vou lhes dizer com todas as letras.<\/p>\n<p>Desde priscas eras, eu &quot;tucanei&quot; em termos de bossa-nova.<\/p>\n<p>N\u00e3o seria agora \u2013 aos 57 anos de idade,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-11041","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11041","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11041"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11041\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13955,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11041\/revisions\/13955"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11041"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11041"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11041"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}