{"id":11058,"date":"2008-08-08T00:00:00","date_gmt":"2008-08-08T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2018-03-29T20:26:16","modified_gmt":"2018-03-29T20:26:16","slug":"diploma-em-jornalismo-uma-exigencia-que-interessa-a-sociedade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/diploma-em-jornalismo-uma-exigencia-que-interessa-a-sociedade\/","title":{"rendered":"Diploma em Jornalismo. Uma exig\u00eancia que interessa \u00e0 sociedade"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>por Beth Costa<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O principal argumento, entre os tantos que se pode levantar para a exig\u00eancia do diploma de curso de gradua\u00e7\u00e3o de n\u00edvel superior para o exerc\u00edcio profissional do jornalismo, \u00e9 o de que a sociedade precisa, tem direito \u00e0 informa\u00e7\u00e3o de qualidade, \u00e9tica, democr\u00e1tica. Informa\u00e7\u00e3o esta que depende, tamb\u00e9m, de uma pr\u00e1tica profissional igualmente qualificada e baseada em preceitos \u00e9ticos e democr\u00e1ticos. E uma das formas de se preparar, de se formar jornalistas capazes a desenvolver tal pr\u00e1tica \u00e9 atrav\u00e9s de um curso superior de gradua\u00e7\u00e3o em jornalismo.<\/p>\n<p>Por isso, de todos os argumentos contr\u00e1rios a esta exig\u00eancia, o que culpa a regulamenta\u00e7\u00e3o profissional e o diploma em jornalismo pela falta de liberdade de express\u00e3o na m\u00eddia talvez seja o mais ing\u00eanuo, o mais equivocado e, dependendo de quem o levante, talvez seja o mais distorcido, neste caso propositalmente.<\/p>\n<p>Qualquer pessoa que conhe\u00e7a a profiss\u00e3o sabe que qualquer cidad\u00e3o pode se expressar por qualquer m\u00eddia, a qualquer momento, desde que ouvido. Quem impede as fontes de se manifestar n\u00e3o \u00e9 nem a exig\u00eancia do diploma nem a regulamenta\u00e7\u00e3o, porque \u00e9 da ess\u00eancia do jornalismo ouvir infinitos setores sociais, de qualquer campo de conhecimento, pensamento e a\u00e7\u00e3o, mediante crit\u00e9rios como relev\u00e2ncia social, interesse p\u00fablico e outros. Os limites s\u00e3o impostos, na maior parte das vezes, por quem restringe a express\u00e3o das fontes \u2013seja pelo volume de informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edvel, seja por hor\u00e1rio, tamanho, edi\u00e7\u00e3o (afinal, n\u00e3o cabe tudo), ou por interesses ideol\u00f3gicos, mercadol\u00f3gicos e similares.<\/p>\n<p>O problema est\u00e1, no caso, mais na pr\u00f3pria l\u00f3gica temporal do jornalismo e nos projetos pol\u00edtico-editoriais. Nunca \u00e9 demais repetir, tamb\u00e9m, que qualquer pessoa pode expor seu conhecimento sobre a \u00e1rea em que \u00e9 especializada. Por isso, existem tantos artigos, na m\u00eddia, assinados por m\u00e9dicos, advogados, engenheiros, soci\u00f3logos, historiadores. E h\u00e1 tanto debate sobre os problemas de tais \u00e1reas. Al\u00e9m disso, nos long\u00ednquos recantos do pa\u00eds existe a figura do provisionado, at\u00e9 que surjam escolas pr\u00f3ximas. Deve-se destacar, no entanto, que o n\u00famero de escolas cobre, hoje, quase todo o territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>Diante disso, \u00e9 de se perguntar como e por que confundir o cerceamento \u00e0 liberdade de express\u00e3o e a censura com o direito de os jornalistas terem uma regulamenta\u00e7\u00e3o profissional que exija o m\u00ednimo de qualifica\u00e7\u00e3o? Por que favorecer o poder desmedido dos propriet\u00e1rios das empresas de comunica\u00e7\u00e3o, os maiores benefici\u00e1rios da n\u00e3o-exig\u00eancia do diploma, os quais, a partir dela, transformam-se em donos absolutos e algozes das consci\u00eancias dos jornalistas e, por conseq\u00fc\u00eancia, das consci\u00eancias de todos os cidad\u00e3os?<\/p>\n<p>A defesa da regulamenta\u00e7\u00e3o profissional e do surgimento de escolas qualificadas remonta ao primeiro congresso dos jornalistas, em 1918, e teve tr\u00eas marcos iniciais no s\u00e9culo 20: a primeira regulamenta\u00e7\u00e3o, em 1938; a funda\u00e7\u00e3o da Faculdade C\u00e1sper L\u00edbero, em 1947 (primeiro curso de jornalismo do Brasil); e o reconhecimento jur\u00eddico da necessidade de forma\u00e7\u00e3o superior, em 1969, aperfei\u00e7oado pela legisla\u00e7\u00e3o de 79. Foi o s\u00e9culo (especialmente na segunda metade) que tamb\u00e9m reconheceu no jornalismo \u2013seja no Brasil, nos Estados Unidos, em pa\u00edses europeus e muitos outros- um ethos profissional. Ou seja, validou socialmente um modo de ser profissional, que tenta afastar a picaretagem e o amadorismo e vincular a atividade ao interesse p\u00fablico e plural, fazendo do jornalista uma pessoa que dedica sua vida a tal tarefa \u2013 e n\u00e3o como um bico.<\/p>\n<p>Com tal perspectiva, evolu\u00edram e se consolidaram princ\u00edpios te\u00f3ricos, t\u00e9cnicos, \u00e9ticos e est\u00e9ticos profissionais, disseminados por diferentes suportes tecnol\u00f3gicos, como televis\u00e3o, r\u00e1dio, jornal, revista, internet. E em diferenciadas fun\u00e7\u00f5es, do pauteiro ao rep\u00f3rter, do editor ao planejador gr\u00e1fico, do assessor de imprensa ao fotojornalista.<\/p>\n<p>Para isso, exige-se profissionais multim\u00eddia que se relacionem com outras \u00e1reas e com a realidade a partir da especificidade profissional; que fa\u00e7am coberturas da Ci\u00eancia \u00e0 Economia, da Pol\u00edtica aos Esportes, da Cultura \u00e0 Sa\u00fade, da Educa\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es agr\u00e1rias com qualifica\u00e7\u00e3o \u00e9tica e est\u00e9tica, incluindo concep\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e instrumental t\u00e9cnico a partir de sua \u00e1rea. Tais tarefas incluem responsabilidade social, escolhas morais profissionais e dom\u00ednio da linguagem especializada, da simples not\u00edcia \u00e0 grande reportagem.<\/p>\n<p>A informa\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica \u00e9 um elemento estrat\u00e9gico das sociedades contempor\u00e2neas. Por isso \u00e9 que o Programa de Qualidade de Ensino da Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos Jornalistas &#8211; debatido, aperfei\u00e7oado e apoiado pelas principais entidades da \u00e1rea acad\u00eamica (como Intercom \u2013 Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunica\u00e7\u00e3o; Abecom &#8211; Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Escolas de Comunica\u00e7\u00e3o; Enecos-Executiva Nacional dos Estudantes de Comunica\u00e7\u00e3o; Comp\u00f3s &#8211; Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Programas de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Comunica\u00e7\u00e3o; e F\u00f3rum de Professores de Jornalismo)\u2013 defende a forma\u00e7\u00e3o tanto te\u00f3rica e cultural quanto t\u00e9cnica e \u00e9tica. Tal forma\u00e7\u00e3o deve se expressar seja num programa de TV de grande audi\u00eancia ou numa TV comunit\u00e1ria, num jornal di\u00e1rio de grande circula\u00e7\u00e3o ou num pequeno de bairro, num site na Internet ou num programa de r\u00e1dio, na imagem fotojornal\u00edstica ou no planejamento gr\u00e1fico.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que, num Curso de Jornalismo, \u00e9 poss\u00edvel tratar de aspectos essenciais \u00e0s sociedades contempor\u00e2neas e com a complexidade tecnol\u00f3gica que os envolve, incluindo procedimentos \u00e9ticos espec\u00edficos adequados \u2013 do m\u00e9todo l\u00edcito para obter informa\u00e7\u00e3o \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o da imagem fotogr\u00e1fica, do sigilo da fonte ao conflito entre privacidade e interesse p\u00fablico, por exemplo. \u00c9 na escola que h\u00e1 laborat\u00f3rios de telejornalismo, radiojornalismo, fotojornalismo, planejamento gr\u00e1fico, jornal, revista, webjornalismo e outros. A escola pode formar profissionais para atuar em jornalismo &#8211; e n\u00e3o para uma ou outra empresa. Pode formar profissionais capazes de atuar em quaisquer institui\u00e7\u00f5es, setores ou fun\u00e7\u00f5es. \u00c9 a forma\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m permite o debate e novas experi\u00eancias.<\/p>\n<p>As escolas n\u00e3o s\u00e3o culpadas, certamente, pelo fato de algumas empresas reduzirem a atividade profissional a aspectos simples ou simpl\u00f3rios. Por isso, mesmo onde a obrigatoriedade do diploma n\u00e3o existe, como em pa\u00edses europeus, cresce o n\u00famero de escolas de jornalismo. \u00c9 por isso que o Conselho Europeu de Deontologia (dever-ser) do Jornalismo, aprovado em 1993, estipulou, em seu artigo 31, que os jornalistas devem ter uma adequada forma\u00e7\u00e3o profissional. E que surgem, a cada ano, em muitos pa\u00edses, documentos refor\u00e7ando a necessidade de forma\u00e7\u00e3o na \u00e1rea.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de tudo, h\u00e1 uma discuss\u00e3o bastante reducionista, uma esp\u00e9cie de a favor ou contra. Ora, diploma \u00e9 uma palavra. Trata-se, no entanto, de palavra que exprime outras duas: forma\u00e7\u00e3o profissional, atestada por um documento que deve valer seu nome. H\u00e1 um lugar, chamado escola, que sistematiza conhecimentos e os vincula a outras \u00e1reas a partir da sua. A regulamenta\u00e7\u00e3o e a forma\u00e7\u00e3o s\u00e3o o resultado disso, que se manifesta em exig\u00eancias como a do registro pr\u00e9vio para o exerc\u00edcio da profiss\u00e3o. Por isso, a regulamenta\u00e7\u00e3o brasileira para o exerc\u00edcio do jornalismo \u00e9 um avan\u00e7o, n\u00e3o um retrocesso.<\/p>\n<p>O pensar e o fazer jornal\u00edstico, resultados de um ethos profissional \u2013 essencial \u00e0 identidade de categoria e de profiss\u00e3o e socialmente relevante &#8211; n\u00e3o pode voltar atr\u00e1s. A Fenaj defende a forma\u00e7\u00e3o profissional em cursos de jornalismo de gradua\u00e7\u00e3o com quatro anos e, no m\u00ednimo, 2.700 horas-aula, como j\u00e1 apontavam as diretrizes curriculares aprovadas ap\u00f3s in\u00fameros debates e congressos na \u00e1rea.<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o em Jornalismo, que deve ser constante e aprimorada durante toda a vida, \u00e9 a base inicial para o exerc\u00edcio regulamentar da atividade. A tudo isso chamamos profiss\u00e3o Jornalismo. E n\u00e3o nos parece pouco.<\/p>\n<p><em>* Beth Costa,<\/em><br \/>\n<em> Presidente da Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos Jornalistas.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em><strong>por Beth Costa<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O principal argumento, entre os tantos que se pode levantar para a exig\u00eancia do diploma de curso de gradua\u00e7\u00e3o de n\u00edvel superior para o exerc\u00edcio profissional do jornalismo,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-11058","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uns-e-outros"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11058","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11058"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11058\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18579,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11058\/revisions\/18579"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11058"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11058"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11058"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}