{"id":11060,"date":"2008-08-09T00:00:00","date_gmt":"2008-08-09T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2018-03-29T20:28:26","modified_gmt":"2018-03-29T20:28:26","slug":"viva-o-diploma","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/viva-o-diploma\/","title":{"rendered":"Viva o diploma"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>por Muniz Sodr\u00e9<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Em fevereiro de 2007, a Newspaper Association of America anunciou, durante sua conven\u00e7\u00e3o anual em Las Vegas, o lan\u00e7amento de uma campanha nacional para incutir no p\u00fablico leitor a id\u00e9ia de que o jornal do futuro ser\u00e1 uma \u201cmultiplataforma de informa\u00e7\u00e3o\u201d, o que implica na pr\u00e1tica a jun\u00e7\u00e3o empresarial e cultural do papel com a Web. Da\u00ed, slogans do tipo \u201ca Internet \u00e9 a melhor coisa que poderia acontecer aos jornais\u201d.<\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 essa tamb\u00e9m a melhor coisa que poderia acontecer aos jornalistas?<\/p>\n<p>Esta quest\u00e3o tem alguma pertin\u00eancia para o atual debate sobre a exig\u00eancia de diploma universit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Em princ\u00edpio, \u00e9 preciso debater a hip\u00f3tese de que essa nova face da informa\u00e7\u00e3o p\u00fablica possa p\u00f4r em crise a pr\u00f3pria identidade do jornalismo cl\u00e1ssico como media\u00e7\u00e3o discursiva e como funcionalidade espec\u00edfica de um grupo profissional. Disto um claro sintoma \u00e9 a quest\u00e3o levantada por um arauto da chamada cibercultura: \u201cSeria ainda necess\u00e1rio, para se manter atualizado, recorrer a esses especialistas da redu\u00e7\u00e3o ao menor denominador comum que s\u00e3o os jornalistas cl\u00e1ssicos?\u201d<\/p>\n<p>A resposta, de certo modo, come\u00e7a a ser dada pelos grandes conglomerados do jornalismo impresso, por meio da progressiva convers\u00e3o empresarial do papel \u00e0 eletr\u00f4nica. Nada impede que o jornalismo troque de suporte preferencial, uma vez que os conte\u00fados informativos, na medida da independ\u00eancia de sua forma t\u00e9cnica, podem passar de um suporte para outro, sem alterar substancialmente a sua natureza. A despeito do potencial midi\u00e1tico da Internet, a digitaliza\u00e7\u00e3o em si mesma n\u00e3o \u00e9 um medium, e sim um processo t\u00e9cnico (inform\u00e1tico).<\/p>\n<p>Veja-se o livro: mesmo digitalizado continua a ser \u201clivro\u201d, isto \u00e9, a organizar seq\u00fcencialmente os conte\u00fados de acordo com a milenar forma c\u00f3dice (codex), embora ainda sejam grandes as dificuldades de leitura de textos extensos na tela do computador. Da\u00ed, as hibridiza\u00e7\u00f5es formais, j\u00e1 praticadas por alguns jornais, entre a escrita tradicional e a escrita para a tela do computador, oferecendo ao p\u00fablico a op\u00e7\u00e3o de leitura jornal entre resumos e textos maiores.<\/p>\n<p>Ainda o livro: tamb\u00e9m n\u00e3o se pode passar por cima da evid\u00eancia de que, em nossa modernidade, a forma c\u00f3dice (escrita unidirecional, p\u00e1ginas organizadas em cadernos e costuradas), depois chamada livro, imp\u00f4s-se aos usos e aos esp\u00edritos como locus do conhecimento centrado, da leitura que constitui pastoralmente a cidadania, da produ\u00e7\u00e3o do sentido e do real medidos pela escala do humanismo.<\/p>\n<p>O mesmo se d\u00e1 com o jornal. Pode trocar de suporte t\u00e9cnico, pode mesmo existir na complementa\u00e7\u00e3o dos suportes (papel e eletr\u00f4nica), mas continua impelido, como forma moderna e democr\u00e1tica da comunica\u00e7\u00e3o, pela ideologia humanista que garante a cidadania. Eventuais descaminhos n\u00e3o podem elidir a evid\u00eancia de que a imprensa brasileira, por exemplo, jamais deixou, em seus 200 anos de exist\u00eancia de estar presente, como parte essencial, nas causas que ajudaram a dar \u00e0 Na\u00e7\u00e3o a sua face atual \u2013 a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura (de cuja campanha participou a maioria dos jornais provinciais) e a cria\u00e7\u00e3o da rep\u00fablica. O jornalismo, no Brasil e no resto do mundo, reflete as quest\u00f5es p\u00fablicas decisivas para os rumos da Na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como conceber hoje o funcionamento dessa institui\u00e7\u00e3o \u201cquase-p\u00fablica\u201d, geradora da informa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria ao cidad\u00e3o para o pleno funcionamento da democracia, sem uma forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, especializada, de jornalistas? Informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mero produto, nem servi\u00e7o: \u00e9 o pr\u00f3prio solo da sociedade em que vivemos, \u00e9 o campo onde joga o cidad\u00e3o. Se a garantia dessa forma\u00e7\u00e3o adequada se espelha hoje no diploma, viva o diploma.<\/p>\n<p><em>* Muniz Sodr\u00e9<\/em><br \/>\n<em> Presidente da Funda\u00e7\u00e3o Biblioteca Nacional e professor, doutor em Comunica\u00e7\u00e3o pela Sorbonne, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Texto enviado pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Munic\u00edpio do Rio de Janeiro.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em><strong>por Muniz Sodr\u00e9<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Em fevereiro de 2007, a Newspaper Association of America anunciou, durante sua conven\u00e7\u00e3o anual em Las Vegas, o lan\u00e7amento de uma campanha nacional para incutir no p\u00fablico leitor a id\u00e9ia de que o jornal do futuro ser\u00e1 uma \u201cmultiplataforma de informa\u00e7\u00e3o\u201d,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-11060","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uns-e-outros"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11060","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11060"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11060\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18580,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11060\/revisions\/18580"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11060"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11060"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11060"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}