{"id":11078,"date":"2008-08-29T00:00:00","date_gmt":"2008-08-29T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:48:30","modified_gmt":"2017-09-15T19:48:30","slug":"a-noitada-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-noitada-2\/","title":{"rendered":"A noitada (2)"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0s vezes, penso que n\u00e3o aconteceu nada do que aconteceu ali naquele fim de noite de sexta e in\u00edcio da madrugada de s\u00e1bado. Foi surreal. Tenho a impress\u00e3o de que posso ter inventado; mas n\u00e3o inventei, n\u00e3o. <\/p>\n<p>Aconteceu.<\/p>\n<p>Vou tentar descrever o cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>O enorme sal\u00e3o do tradicional restaurante vazio e \u00e0s escuras. Ou melhor, quase vazio e quase \u00e0s escuras. S\u00f3 havia ilumina\u00e7\u00e3o em dois pontos. \u00c0 esquerda de quem entrasse ali \u00e0quela hora, veria uma fileira de gar\u00e7ons junto ao balc\u00e3o e o caixa, contrariados, aflitos e silenciosos. Ao fundo, quebrava a penumbra a luz sobre a mesa onde se encontravam  meia-d\u00fazia de \u2018gatos pingados\u2019. Eu, inclusive.<\/p>\n<p>O pessoal da Casa j\u00e1 havia tentado para abreviar nossa estadia por ali. Em outras palavras, os senhores ali queriam mesmo era nos expulsar e fechar o recinto. Tiraram as toalhas das mesas, subiram as cadeiras, andaram em rodopios retirando os pratos da nossa mesa; os copos, n\u00e3o, pois n\u00e3o os larg\u00e1vamos.<\/p>\n<p>Chegaram a dizer \u2013 golpe baixo \u2013 que o chopp havia acabado.<\/p>\n<p>&#8212; Que venha cerveja, ent\u00e3o, saudou o Nasci.<\/p>\n<p>Vieram duas garrafas prontamente sorvidas e a\u00ed \u2013 outro golpe baixo \u2013 passaram a nos servir cerveja quente. O que, diga-se, s\u00f3 aumentou a ira do Nasci que, \u00e0 essa hora, discorria sobre os filmes do Truffaut que ele nunca assistiu.<\/p>\n<p>N\u00e3o t\u00ednhamos no\u00e7\u00e3o das horas. Nos divert\u00edamos \u2013 e ponto.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelas tantas apareceu um senhor de express\u00e3o amarfanhada, como se o tivessem tirado da cama. Tinha cara de poucos amigos e j\u00e1 entrou bronqueando com os funcion\u00e1rios. Algu\u00e9m dali havia ligado para o tal, o dono do restaurante, e agora ouvia o serm\u00e3o. Ali\u00e1s, todos ouviam.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou lembrar as palavras, mas o teor me \u00e9 inesquec\u00edvel. N\u00e3o queria o estabelecimento aberto at\u00e9 \u00e0quela hora. J\u00e1 havia avisado. Quest\u00e3o de seguran\u00e7a. Se desse algum problema, mandaria todos embora por justa causa. Ainda porque n\u00e3o conseguiam se livrar \u201cde um bando de b\u00eabados\u201d.<\/p>\n<p>Indignado com as palavras do homem, que sei l\u00e1 como ouviu mesmo etilicamente nas alturas, Nasci levantou-se e, no mesmo tom, vociferou:<\/p>\n<p>&#8212; Gar\u00e7om, a conta! Vamos embora, essa espelunca n\u00e3o \u00e9 digna da nossa presen\u00e7a.<\/p>\n<p> Sa\u00edmos temerosos. <\/p>\n<p>O que deu no Nasci? <\/p>\n<p>Para onde foi o proverbial bom-humor?<\/p>\n<p>&#8212; Para o Bixiga, meus caros. Vamos para o Bixiga, l\u00e1 os bares nunca fecham.<\/p>\n<p>O bom-humor estava ali. N\u00f3s \u00e9 que est\u00e1vamos sem rumo&#8230;<\/p>\n[Texto publicado no livro &quot;Meus Caros Amigos \u2013 Cr\u00f4nicas sobre jornalistas, bo\u00eamios e paix\u00f5es&quot;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0s vezes, penso que n\u00e3o aconteceu nada do que aconteceu ali naquele fim de noite de sexta e in\u00edcio da madrugada de s\u00e1bado. Foi surreal. Tenho a impress\u00e3o de que posso ter inventado;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-11078","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11078","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11078"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11078\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16856,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11078\/revisions\/16856"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11078"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11078"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11078"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}