{"id":11081,"date":"2008-09-01T00:00:00","date_gmt":"2008-09-01T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:48:29","modified_gmt":"2017-09-15T19:48:29","slug":"arredores","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/arredores\/","title":{"rendered":"Arredores"},"content":{"rendered":"<p>Onde colocar a m\u00e3o durante a palestra.<br \/>\nIsto pode comprometer toda a sua apresenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Li o recado na home do UOL hoje pela manh\u00e3. N\u00e3o lembro o nome do autor que, ao que consta, deve entender e muito do riscado. Perdoem-me se n\u00e3o o cito aqui, mas a verdade \u00e9 que quero lhes dizer da saudade que me bateu quando lembrei as aulas de Orat\u00f3ria, do curso ginasial (para os mais novos, equivalente a quinta, sexta, s\u00e9tima e oitava s\u00e9ries) do Col\u00e9gio Nossa Senhora da Gl\u00f3ria, onde estudei l\u00e1 nos antigamente.<\/p>\n<p>Se bem me lembro, as aulas eram aos s\u00e1bados pela manh\u00e3. E todos n\u00f3s, os alunos, t\u00ednhamos que preparar uma apresenta\u00e7\u00e3o e, se chamados pelo professor, ir \u00e0 frente da sala, subir no tablado que dava para o quadro negro e exibir nossos dotes de orador.<\/p>\n<p>O professor fazia uma chamada aleat\u00f3ria. Por isso, t\u00ednhamos que estar preparados com a poesia, a hist\u00f3ria, o discurso \u2013 como diz\u00edamos \u00e0 \u00e9poca \u2013 \u201cna ponta da l\u00edngua\u201d. Quem fosse bem, tinha at\u00e9 dois pontos a mais na m\u00e9dia da disciplina L\u00edngua Portuguesa. O que convenhamos era um grande neg\u00f3cio. Ou para entrar no \u201cquadro de honra\u201d do m\u00eas que se conseguia com nota superior a 7. Ou para salvar a m\u00e9dia e chegar a 5.   <\/p>\n<p>Era uma chance e tanto&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Eu particularmente tinha um repert\u00f3rio razo\u00e1vel, calcado em algumas hist\u00f3rias do livro Antologia da L\u00edngua Portuguesa. <\/p>\n<p>Uma poesia de Casemiro de Abreu: <\/p>\n<p>\u201cOh! Que saudades que eu tenho<br \/>\nDa aurora da minha vida<br \/>\nDa minha inf\u00e2ncia querida<br \/>\nQue os tempos n\u00e3o trazem mais (&#8230;)\u201d<\/p>\n<p>Outra que falava de um c\u00e3o chamado Plut\u00e3o, n\u00e3o lembro autor:<\/p>\n<p>\u201cNegro, com os olhos em brasa<br \/>\nBom, fiel e brincalh\u00e3o<br \/>\nEra a alegria da casa<br \/>\nO corajoso Plut\u00e3o (&#8230;)\u201d<\/p>\n<p>Mas, o meu grande sucesso era uma hist\u00f3ria intitulada \u201cOs \u00daltimos Dias de Pomp\u00e9ia\u201d. Me desculpem a imod\u00e9stia. Fiz uma apresenta\u00e7\u00e3o impec\u00e1vel. Narrei a desventura de outro c\u00e3ozinho &#8212; justo eu que mudo de cal\u00e7ada s\u00f3 de ver um animal desse por perto &#8212; que preferiu morrer petrificado sob as lavas do Ves\u00favio a abandonar o menino, seu dono e senhor.<\/p>\n<p>Como v\u00eaem, sempre fui um contador de hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Bem, deixemos de lado as minhas proezas. Porque o motivo dessas linhas \u00e9 tamb\u00e9m \u2013 e, confesso, principalmente \u2013 a lembran\u00e7a de um grande amigo daqueles idos tempos. N\u00e3o houve como n\u00e3o lembrar o Ada\u00edlton, o mineiro Ada\u00edlton, quando hoje li a not\u00edcia.<\/p>\n<p>Vou lhes contar.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o era l\u00e1 muito enfronhado na gram\u00e1tica, nem an\u00e1lise sint\u00e1tica. Estava com o ano comprometido. Precisava tirar 10 naquele m\u00eas para ir para exame. Fez aulas particulares. Passou dias e noites entre os livros. Mas, na prova, s\u00f3 conseguiu 8 \u2013 o que era uma m\u00e9dia e tanto, mas pouco para as necessidades do amigo.<\/p>\n<p>N\u00e3o deu outra. <\/p>\n<p>Ada\u00edlton decorou as 18 taludas estrofes do \u00e9pico poema \u201cNavio Negreiro\u201d e, naquela manh\u00e3 de s\u00e1bado, apresentou-se como volunt\u00e1rio ao professor. Todos n\u00f3s aplaudimos a coragem do bom mineiro \u2013 valente m\u00e9dio-volante da sele\u00e7\u00e3o do Gl\u00f3ria. Aplaudimos porque recitar Castro Alves era um gesto de coragem e, depois, porque nos livraria de sermos interpelado pelo professor e poder\u00edamos guardar nossa r\u00e9cita para a semana seguinte \u2013 o que por si s\u00f3 era um al\u00edvio.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Para resumir, o velho e bom Ada\u00edlton atropelou Castro Alves. N\u00e3o esqueceu uma v\u00edrgula sequer. Foi naquela toada, sem muito \u00eanfase, olhando para o teto a lembrar cada palavra que o poeta baiano escreveu&#8230;<\/p>\n<p>Mesmo assim, n\u00e3o conseguiu os dois pontos.<\/p>\n<p>Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Das 18 estrofes, divididas em quatro partes, passou, no m\u00ednimo, umas dez a co\u00e7ar a virilha e os arredores&#8230;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Onde colocar a m\u00e3o durante a palestra.<br \/>\nIsto pode comprometer toda a sua apresenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Li o recado na home do UOL hoje pela manh\u00e3. 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