{"id":11082,"date":"2008-08-28T00:00:00","date_gmt":"2008-08-28T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:00:07","modified_gmt":"2017-09-14T04:00:07","slug":"a-noitada","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-noitada\/","title":{"rendered":"A noitada *"},"content":{"rendered":"<p>Era uma dessas sextas ensolaradas de uma esta\u00e7\u00e3o qualquer de um impreciso ano do passado algo remoto. Jornal nas ruas, a Reda\u00e7\u00e3o resolveu comemorar mais uma semana de vida mais do que vivida. <\/p>\n<p>A bem da verdade, bastava o Nasci dizer \u201cvamos\u201d \u2013 e l\u00e1 \u00edamos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos pela padaria da esquina da rua Bom Pastor com a Lucas \u00d3bes. A primeira parada justificava-se por dois motivos: beber umas e outras e olhar a filha do portuga, a bela Marina, que vez ou outra dava o ar de sua gra\u00e7a por ali e ajudava o pai e a m\u00e3e no sacro of\u00edcio de dar de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede.<\/p>\n<p>Explico logo que o meu pessoal, nessa hora, tinha sede. Muita sede.<\/p>\n<p>Eu, n\u00e3o. Como meus cinco ou seis leitores sabem, s\u00f3 tomo Coca Light. Talvez nesses esmaecidos tempos, minha prefer\u00eancia variava entre a Coca normal e a Ginni \u2013 quem se lembra? J\u00e1 os meus camaradas derrubavam legal d\u00fazias de cervejas que rebatiam com goladas de cacha\u00e7a ou de uma bebida estranha, chamada stainegger. <\/p>\n<p>L\u00e1, r\u00edamos e cont\u00e1vamos nossas prosas vividas ou inventadas \u2013 importante era o enredo \u2013 at\u00e9 que, inevit\u00e1vel, batesse uma \u201cfominha esperta\u201d que nos levava a algum restaurante onde fic\u00e1vamos at\u00e9 o dono nos expulsar. Naquela noite, se bem me lembro, foi O Rei do Frango Assado, ali na rua Padre Marchetti, pr\u00f3ximo \u00e0 avenida Nazar\u00e9.<\/p>\n<p>Alguns debandavam no meio da jornada. Uns j\u00e1 n\u00e3o se ag\u00fcentavam em p\u00e9. Outros come\u00e7avam a regular a grana e tamb\u00e9m ficavam pelo caminho. E havia os que n\u00e3o tinham coragem de acompanhar a horda de breacos. Eram os sensatos.<\/p>\n<p>No primeiro grupo, o dos tran\u00e7a-pernas, nunca me inclui. No segundo, o dos durangos, tamb\u00e9m n\u00e3o. Tinha um acerto com os mais chegados e rate\u00e1vamos a parte de quem atravessava um momento dif\u00edcil. Nunca tive voca\u00e7\u00e3o para her\u00f3i. Mas, nessa noite, mesmo um tanto atarantado, eu fui&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, penso que n\u00e3o aconteceu nada do que aconteceu ali naquele fim de noite de sexta e in\u00edcio da madrugada de s\u00e1bado. Foi surreal. Tenho a impress\u00e3o de que posso ter inventado; mas, juro, n\u00e3o inventei, n\u00e3o. <\/p>\n<p>Aconteceu.<\/p>\n<p>Vou tentar descrever o cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>O enorme sal\u00e3o do tradicional restaurante vazio e \u00e0s escuras. Ou melhor, quase vazio e quase \u00e0s escuras. S\u00f3 havia ilumina\u00e7\u00e3o em dois pontos. \u00c0 esquerda de quem entrasse ali \u00e0quela hora, veria uma fileira de gar\u00e7ons junto ao balc\u00e3o e o caixa, contrariados, aflitos e silenciosos. Ao fundo, quebrava a penumbra a luz sobre a mesa onde se encontravam meia-d\u00fazia de \u2018gatos pingados\u2019. Eu, inclusive.<\/p>\n<p>O pessoal da Casa j\u00e1 havia tentado de tudo para abreviar nossa estadia por ali. Em outras palavras, os senhores ali queriam mesmo era nos expulsar e fechar o recinto. Tiraram as toalhas das mesas, subiram as cadeiras, andaram em rodopios retirando os pratos da nossa mesa; os copos, n\u00e3o, pois n\u00e3o os larg\u00e1vamos.<\/p>\n<p>Chegaram a dizer \u2013 golpe baixo \u2013 que o chopp havia acabado.<\/p>\n<p>&#8212; Que venha cerveja, ent\u00e3o, saudou o Nasci.<\/p>\n<p>Vieram duas garrafas prontamente sorvidas e a\u00ed \u2013 outro golpe baixo \u2013 passaram a nos servir cerveja quente. O que, diga-se, s\u00f3 aumentou a ira do Nasci que, \u00e0 essa hora, discorria sobre os filmes do Truffaut que ele nunca assistiu.<\/p>\n<p>N\u00e3o t\u00ednhamos no\u00e7\u00e3o das horas. Nos divert\u00edamos \u2013 e ponto.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelas tantas apareceu um senhor de express\u00e3o amarfanhada, como se o tivessem tirado da cama. Tinha cara de poucos amigos e j\u00e1 entrou bronqueando com os funcion\u00e1rios. Algu\u00e9m dali havia ligado para o tal, o dono do restaurante, e agora ouvia o serm\u00e3o. Ali\u00e1s, todos ouviam.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou lembrar as palavras, mas o teor me \u00e9 inesquec\u00edvel. N\u00e3o queria o estabelecimento aberto at\u00e9 \u00e0quela hora. J\u00e1 havia avisado. Quest\u00e3o de seguran\u00e7a. Se desse algum problema, mandaria todos embora por justa causa. Ainda porque n\u00e3o conseguiam se livrar \u201cde um bando de b\u00eabados\u201d.<\/p>\n<p>Indignado com as palavras do homem, que sei l\u00e1 como ouviu mesmo etilicamente nas alturas, Nasci levantou-se e, no mesmo tom, vociferou:<\/p>\n<p>&#8212; Gar\u00e7om, a conta! Vamos embora, essa espelunca n\u00e3o \u00e9 digna da nossa presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Sa\u00edmos temerosos. <\/p>\n<p>O que deu no Nasci? <\/p>\n<p>Para onde foi o proverbial bom-humor?<\/p>\n<p>&#8212; Para o Bixiga, meus caros. Vamos para o Bixiga, l\u00e1 os bares nunca fecham.<\/p>\n<p>O bom-humor estava ali &#8211; ali\u00e1s de onde nunca saiu. N\u00f3s \u00e9 que est\u00e1vamos sem rumo&#8230; <\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se voc\u00eas j\u00e1 ouviram a voz da raz\u00e3o. Ou se, por vias das d\u00favidas, colocaram a m\u00e3o na consci\u00eancia. N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>\u00c0quela \u00e9poca, em que era jovem e inconseq\u00fcente, talvez imaginasse que essas express\u00f5es populares fossem apenas invencionices de Dona Yolanda, minha m\u00e3e, que vivia a repeti-las aos meus ouvidos &#8211; at\u00e9 porque, como disse, eu era jovem e inconseq\u00fcente.<\/p>\n<p>N\u00e3o que lhe desse grandes motivos. Me considero at\u00e9 hoje um cara pacato, comedido at\u00e9; pois, como disse nos posts anteriores, s\u00f3 tomo Coca Light. Nem de cerveja eu gosto.<\/p>\n<p>Enfim&#8230; <\/p>\n<p>Sei l\u00e1 por qual motivo, sei que ponderava sobre a \u201cvoz da raz\u00e3o\u201d e a \u201cm\u00e3o na consci\u00eancia\u201d quando entrei no meu carro pronto a escapar da pr\u00f3xima \u201cparadinha\u201d que o Nasci anunciara.<\/p>\n<p>Qual o qu\u00ea?<\/p>\n<p>Quando dei por mim o velho Del Rey estava tomado por tr\u00eas marmanjos. O Nasci, \u00f3bvio, no posto de co-piloto a redesenhar nossa rota:<\/p>\n<p>&#8212; Mudan\u00e7a de planos. A essa hora, no Bixiga s\u00f3 tem b\u00eabados. Vamos para o Riviera.<\/p>\n<p>N\u00e3o conhecia. Fiquei conhecendo naquela noite o bar que existia (ser\u00e1 que ainda existe?) na avenida Consola\u00e7\u00e3o esquina com a avenida Paulista, do outro lado da cal\u00e7ada dos cines Belas Artes. Soube tamb\u00e9m que o estabelecimento de longa fama na boemia paulistana n\u00e3o fechava e me preparei para a longa jornada noite adentro.<\/p>\n<p>Vou ser sincero. <\/p>\n<p>N\u00e3o posso lhes contar muita coisa do que aconteceu ali. Pela en\u00e9sima vez, Nasci contava dos tempos em que perdeu um concurso para protagonista de uma novela de r\u00e1dio. Ficaram \u00e0 frente dele dois \u2018canastr\u00f5es\u2019 que atendiam pelos nomes de Tarc\u00edsio Meira e Francisco Cuoco. Foi nesse ponto que adormeci ap\u00f3s recostar a cadeira \u00e0 parede. S\u00f3 acordei dia claro com os amigos rindo a valer. <\/p>\n<p>Pensei que debochavam do meu sono fora de hora e lugar. <\/p>\n<p>Mas, eles me contaram o motivo das sonoras gargalhadas.<\/p>\n<p>Minutos depois que chegamos, um senhor se aproximou da turma e se p\u00f4s a ouvir as hist\u00f3rias do Nasci. Fazia cara de interessado. Ofereceu uma rodada de cerveja para a turma, outra e mais outra. S\u00f3 a\u00ed teve coragem de dizer o motivo de tanta cortesia. Estava varado de vontade de fumar. N\u00e3o havia mais cigarros para vender no bar. S\u00f3 restava a nossa mesa e ele se aproximou. Percebeu que o Nasci tinha um isqueiro que girava entre os dedos enquanto falava. <\/p>\n<p>Era o sinal.<\/p>\n<p>Depois de se enturmar a troco sabemos do qu\u00ea, fez a pergunta:<\/p>\n<p>&#8212; O amigo a\u00ed tem um cigarro para me oferecer?<\/p>\n<p>O Nasci, naquele seu inimit\u00e1vel estilo, respondeu:<\/p>\n<p>&#8212; Ih, rapaz, vou ficar lhe devendo. S\u00f3 fumo cachimbo&#8230;<\/p>\n<p>E mostrou o cachimbo holand\u00eas que a turma do jornal lhe deu num final de ano.<\/p>\n<p>Era dia claro quando sa\u00edmos do bar, onde nunca mais voltei.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era uma dessas sextas ensolaradas de uma esta\u00e7\u00e3o qualquer de um impreciso ano do passado algo remoto. 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