{"id":11086,"date":"2008-09-05T00:00:00","date_gmt":"2008-09-05T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:47:26","modified_gmt":"2017-09-15T19:47:26","slug":"o-sapateador","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-sapateador\/","title":{"rendered":"O sapateador"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o sou de lembrar o que sonho. Na verdade, at\u00e9 hoje pela manh\u00e3, se me perguntassem, diria que n\u00e3o lembro nada do que sonho. Quando acordo, s\u00f3 tenho n\u00edtida a sensa\u00e7\u00e3o de quebradeira pelo corpo pesado. Como se um trator houvesse me atropelado noite adentro. Sensa\u00e7\u00e3o que, ali\u00e1s, s\u00f3 se dissipa ap\u00f3s a primeira chuverada do dia, preferencialmente de \u00e1gua fria.  <\/p>\n<p>Hoje, por\u00e9m, acordei diferente. Sentia-me leve e feliz. <\/p>\n<p>Vou lhes contar o que sonhei. Talvez, voc\u00eas, meus caros cinco ou seis leitores, me ajudem a desvendar se algum significado nisso tudo.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Foi assim.<\/p>\n<p>No sonho sonhado, sei l\u00e1 o porqu\u00ea precisava descer uma longa escadaria. Os degraus eram estreitos, de cimento escuro. Estavam molhados e um filete de \u00e1gua clara escorria e formava pequenas po\u00e7as ao longo do trajeto. <\/p>\n<p>N\u00e3o me dei conta de como cheguei ali. Mas, me pareceu, n\u00e3o ter alternativa outra sen\u00e3o seguir em frente. Foi o que fiz. Primeiro, temeroso, com cuidados extremos. Medo de despinguelar escada abaixo. Inseguran\u00e7a natural a quem n\u00e3o sabe aonde vai e porque vai. Dava o passo, firmava o p\u00e9 no ch\u00e3o e s\u00f3 depois me arriscava a prosseguir. Lentamente. <\/p>\n<p>\u00c0 medida que caminhava fui ganhando confian\u00e7a e alguma velocidade. <\/p>\n<p>Logo, uma m\u00fasica inaud\u00edvel \u2013 mas que eu, e desconfio que s\u00f3 eu, sentia &#8211; ritmou meus passos, cada vez mais acelerados e incontrol\u00e1veis. No saltar entre um degrau e outro era como se uma estranha dan\u00e7a se apoderasse de mim. Um sapatear divertido e alucinado, especialmente quando alcan\u00e7ava uma daquelas po\u00e7as. <\/p>\n<p>Fartava-me em, com os p\u00e9s, espirrar \u00e1gua para todos os lados.  <\/p>\n<p>Ri a valer dos meus malabarismos.  Tanto que cheguei a torcer para que a escadaria nunca tivesse fim. Saboreava uma sensa\u00e7\u00e3o deliciosa. De alegria plena.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se j\u00e1 lhes disse em posts anteriores, mas vida a fora fui \u2013 e sou \u2013 o chamado \u2018p\u00e9-na-parede\u2019. Que \u00e9 o inverso do que o meu pai, um not\u00e1vel dan\u00e7arino, chamava de \u2018p\u00e9 de valsa\u2019. Traduzindo: sempre fui o cara que se recostou a um canto do sal\u00e3o, apoiado em uma das pernas, com express\u00e3o de poucos amigos e indiferente aos rodopios dos casais na pista.<\/p>\n<p>Da\u00ed, o \u00eaxtase e a surpresa em reconhecer em mim tamanha habilidade.<\/p>\n<p>E eu, ranheta que sou, que sempre questionei o prazer da dan\u00e7a \u2013 com observa\u00e7\u00f5es tolas, tipo: \u201cComo a pessoa pode encontrar a felicidade ao levantar os dois dedos indicadores e cair no samba?\u201d \u2013, nem pedi satisfa\u00e7\u00e3o a mim mesmo por tamanha  e indescrit\u00edvel alegria.<\/p>\n<p>N\u00e3o recordo como a hist\u00f3ria acabou. Mas, como disse, acordei leve e feliz. N\u00e3o exagero em dizer que me senti um Geny Kelly ou um Fred Astaire. Longe de mim tal conclus\u00e3o. Mas, lhes garanto, aprendi duas li\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>A primeira: tenho a sincera impress\u00e3o de que deixei escapar alguns bons momentos da vida por n\u00e3o saber dan\u00e7ar. <\/p>\n<p>A segunda: n\u00e3o dormir com a TV ligada, pelo menos enquanto estiver programado para ir ao ar, a cada intervalo comercial, aquele an\u00fancio chatinho do rapaz que tem compuls\u00e3o por sapatear nos momentos mais ins\u00f3litos&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sou de lembrar o que sonho. Na verdade, at\u00e9 hoje pela manh\u00e3, se me perguntassem, diria que n\u00e3o lembro nada do que sonho. 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