{"id":11089,"date":"2008-09-05T00:00:00","date_gmt":"2008-09-05T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2018-03-29T20:30:02","modified_gmt":"2018-03-29T20:30:02","slug":"yo-soy-cubano-retalhos-da-ilha","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/yo-soy-cubano-retalhos-da-ilha\/","title":{"rendered":"Yo soy cubano &#8211; Retalhos da Ilha"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>por Ill\u00eania Negrin<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Sexta-feira, dia 20 de julho, fim da minha segunda viagem a Cuba, que durou um m\u00eas. Estava ansiosa para chegar ao aeroporto Jos\u00e9 Mart\u00ed, em Havana. Ainda n\u00e3o sabia como faria para me livrar daquele ovo \u2013 sim, um ovo, botado por uma galinha cubana, com clara e gema dentro \u2013 que eu carregava numa sacola de pl\u00e1stico. Um ovo. Havia depositado nele todas as minhas ang\u00fastias. Talvez ele fosse a garantia do meu sucesso. Temia que meu lugar no v\u00f4o n\u00e3o fosse confirmado \u2013 a Cubana de Aviaci\u00f3n era desorganizada, o fato de ter passado tr\u00eas horas na fila dias antes para confirmar a volta n\u00e3o garantia meu assento no avi\u00e3o \u2013 e n\u00e3o tinha mais dinheiro nenhum, caso precisasse ficar por mais alguns dias. Mas, esse era apenas um dos problemas que me atormentavam. Na verdade, estava em p\u00e2nico.<\/p>\n<p>Tinha medo de que a emigra\u00e7\u00e3o revistasse minha bagagem de m\u00e3o e confiscasse as 20 fitas cassetes com as entrevistas que havia feito. N\u00e3o tinha autoriza\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para fazer um livro \u2013 o governo mant\u00e9m sob r\u00edgido controle a entrada de jornalistas estrangeiros na ilha \u2013 e n\u00e3o teria como explicar a presen\u00e7a delas ali. Perderia um m\u00eas de trabalho duro, em que tive de entrevistar cubanos \u00e0s escondidas. Muitos n\u00e3o quiseram dar entrevistas com medo de sofrerem algum tipo de san\u00e7\u00e3o. Outros concordaram em falar, mas pediram que o nome ou sobrenome fosse omitido. E houve tamb\u00e9m quem quisesse cobrar para dar o depoimento.<\/p>\n<p>Na minha primeira semana em Cuba, um funcion\u00e1rio do Minist\u00e9rio do Interior me procurou na casa de Marta, amiga que me hospedou em Santiago, para investigar o que eu estava fazendo. As not\u00edcias correram e, por mais que tivesse mantido certa discri\u00e7\u00e3o, alguns informantes j\u00e1 sabiam que algu\u00e9m havia conversado com Hayd\u00e9e, uma contra-revolucion\u00e1ria declarada, que fez duras cr\u00edticas ao regime fidelista. Interrogada pelo senhor de farda, neguei que estava fazendo entrevistas e insistia que estava na ilha \u00e0 passeio. Fingi que estava sendo sincera, ele fingiu acreditar em mim e ficou o dito pelo n\u00e3o-dito. Depois disso, a inseguran\u00e7a tornou-se minha fiel companheira de viagem. E se meu nome estivesse na lista negra da Imigra\u00e7\u00e3o, que me surpreenderia assim que mostrasse o passaporte para sair do pa\u00eds? Eu era mais uma clandestina, como muitos cubanos que ganhavam a vida na ilegalidade.<\/p>\n<p>O ovo seria a salva\u00e7\u00e3o, disse Eduardo, amigo sincero (uma esp\u00e9cie de \u201cpai-de-santo\u201d cubano) que decidiu me ajudar. Recomendou que eu passasse o ovo, untado com manteiga especial fornecida por ele, por todo o corpo, antes do banho. Que o levasse comigo e, antes de entrar pela porta do aeroporto, o jogasse para tr\u00e1s e pedisse com f\u00e9. \u201cElegu\u00e1, dono dos caminhos, que com esse ovo se rompa todo o mal que me persegue\u201d. Que n\u00e3o me preocupasse, porque em Cuba era normal atirar ovos pela cal\u00e7ada do aeroporto, ningu\u00e9m estranharia. E assim foi feito. \u00c0s 18 horas daquela sexta-feira, o ovo espatifou-se no ch\u00e3o e Elegu\u00e1 tornou-se meu c\u00famplice. Duas horas mais tarde, passei pelo corredor da Imigra\u00e7\u00e3o, cheio de sorrisos de homens e mulheres de verde que faziam o controle de embarque. \u201cTenga um buen viaje\u201d, desejou uma senhora simp\u00e1tica, depois de olhar o passaporte, sem notar que eu tremia \u2013 de al\u00edvio.\u201d<\/p>\n<p>*<em> Trecho de abertura de Yo Soy Cubano \u2013 Retalhos da Ilha, livro-reportagem apresentado pela jornalista Illenia Negrin como Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso de Jornalismo na Universidade Metodista de S\u00e3o Paulo. Orientei o projeto ao lado da professora doutora Ver\u00f2nica Patricia Aravena Cort\u00eas. Foi minha primeira orienta\u00e7\u00e3o e justamente a uma querid\u00edssima e talentosa amiga que h\u00e1 tempos n\u00e3o vejo.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em><strong>por Ill\u00eania Negrin<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Sexta-feira, dia 20 de julho, fim da minha segunda viagem a Cuba, que durou um m\u00eas. 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