{"id":11099,"date":"2008-09-17T00:00:00","date_gmt":"2008-09-17T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:47:24","modified_gmt":"2017-09-15T19:47:24","slug":"diaferia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/diaferia\/","title":{"rendered":"Diaf\u00e9ria"},"content":{"rendered":"<p>O blog est\u00e1 de luto.<\/p>\n<p>Morreu Louren\u00e7o Diaf\u00e9ria.<\/p>\n<p>Foi um dos grandes de um g\u00eanero jornal\u00edstico genuinamente brasileiro \u2013 a cr\u00f4nica \u2013 que infelizmente parece estar em extin\u00e7\u00e3o. Esse paulistano de 75 anos era, na verdade, um homem do povo que escrevia sobre e para o povo. Por vezes, sa\u00eda \u00e0s ruas, tomava um \u00f4nibus Penha-Lapa e de l\u00e1 trazia o assunto para a cr\u00f4nica do outro dia.<\/p>\n<p>Talvez por isso passou a ser conhecido como o cronista de S\u00e3o Paulo \u2013 uma cidade que, para muitos, n\u00e3o tem alma. Mas que Diaf\u00e9ria t\u00e3o bem sabia retratar. Ele fez um livro sobre os office-boys \u2013 querem personagem mais paulistana?<\/p>\n<p>No entantom seu texto mais conhecido e pol\u00eamico foi publicado na Folha de S. Paulo em 1o. de setembro de 1977: &quot;Her\u00f3i Morto. N\u00f3s&quot; que transcrevo a seguir. <\/p>\n<p>Diaf\u00e9ria n\u00e3o fala da cidade. Faz uma cr\u00f4nica corajosa e contundente a desafiar o &#8216;bom mocismo&#8217; da \u00e9poca da ditadura e, por isso, foi preso e teve a coluna di\u00e1ria suspensa por semanas. Os militares entenderam que o jornalista havia desrespeitado o patrono do Ex\u00e9rcito Nacional e, por conseguinte, a pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>O Supreme Tribunal Federal o inocentou\u2026<\/p>\n<p>Preservou-se o bom senso.<\/p>\n<p>O que o jornalista fez foi, sim, uma homenagem p\u00f3stuma e pertinente ao verdadeiro her\u00f3i nacional.<\/p>\n<p>Leia!<\/p>\n<p>HER\u00d3I MORTO. N\u00d3S. <\/p>\n<p>Louren\u00e7o Diaf\u00e9ria<\/p>\n<p>N\u00e3o me venham com besteiras de dizer que her\u00f3i n\u00e3o existe. Passei metade do dia imaginando uma palavra menos desgastada para definir o gesto desse sargento S\u00edlvio, que pulou no po\u00e7o das ariranhas, para salvar o garoto de catorze anos, que estava sendo dilacerado pelos bichos.<\/p>\n<p>O garoto est\u00e1 salvo. O sargento morreu e est\u00e1 sendo enterrado em sua terra.<\/p>\n<p>Que nome devo dar a esse homem?<\/p>\n<p>Escrevo com todas as letras: o sargento Silvio \u00e9 um her\u00f3i. Se n\u00e3o morreu na guerra, se n\u00e3o disparou nenhum tiro, se n\u00e3o foi enforcado, tanto melhor.<\/p>\n<p>Podem me explicar que esse tipo de hero\u00edsmo \u00e9 resultado de uma total inconsci\u00eancia do perigo. Pois quero que se lixem as explica\u00e7\u00f5es. Para mim, o her\u00f3i -como o santo- \u00e9 aquele que vive sua vida at\u00e9 as \u00faltimas consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>O her\u00f3i redime a humanidade \u00e0 deriva.<\/p>\n<p>Esse sargento Silvio podia estar vivo da silva com seus quatro filhos e sua mulher. Acabaria capit\u00e3o, major.<\/p>\n<p>Est\u00e1 morto.<\/p>\n<p>Um bel\u00edssimo sargento morto.<\/p>\n<p>E todavia.<\/p>\n<p>Todavia eu digo, com todas as letras: prefiro esse sargento her\u00f3i ao duque de Caxias.<\/p>\n<p>O duque de Caxias \u00e9 um homem a cavalo reduzido a uma est\u00e1tua. Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na Pra\u00e7a Princesa Isabel -onde se re\u00fanem os ciganos e as pombas do entardecer- oxidou-se no cora\u00e7\u00e3o do povo. O povo est\u00e1 cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos her\u00f3is de pedestal. Ao povo desgosta o her\u00f3i de bronze, irretoc\u00e1vel e irretorqu\u00edvel, como as enfadonhas li\u00e7\u00f5es repetidas por cansadas professoras que n\u00e3o acreditam no que mandam decorar.<\/p>\n<p>O povo quer o her\u00f3i sargento que seja como ele: povo. Um sargento que d\u00ea as m\u00e3os aos filhos e \u00e0 mulher, e passeie inc\u00f3gnito e desfardado, sem divisas, entre seus irm\u00e3os.<\/p>\n<p>No instante em que o sargento -apesar do grito de perigo e de alerta de sua mulher- salta no fosso das simp\u00e1ticas e ferozes ariranhas, para salvar da morte o garoto que n\u00e3o era seu, ele est\u00e1 ensinando a este pa\u00eds, de her\u00f3is est\u00e1ticos e fundidos em metal, que todos somos respons\u00e1veis pelos espinhos que machucam o couro de todos.<\/p>\n<p>Esse sargento n\u00e3o \u00e9 do grupo do cambalacho.<\/p>\n<p>Esse sargento n\u00e3o pensou se, para ser honesto para consigo mesmo, um cidad\u00e3o deve ser civil ou militar. Duvido, e fa\u00e7o pouco, que esse pobre sargento morto fez revolu\u00e7\u00f5es de bar, na base do u\u00edsque e da farolagem, e duvido que em algum instante ele imaginou que apareceria na primeira p\u00e1gina dos jornais.<\/p>\n<p>\u00c9 apenas um homem que -como disse quando pressentiu as suas \u00faltimas quarenta e oito horas, quando pressentiu o roteiro de sua \u00faltima viagem- n\u00e3o podia permanecer insens\u00edvel diante de uma crian\u00e7a sem defesa.<\/p>\n<p>O povo prefere esses her\u00f3is: de carne e sangue.<\/p>\n<p>Mas, como sempre, o her\u00f3i \u00e9 reconhecido depois, muito depois. Tarde demais.<\/p>\n<p>\u00c9 isso, sargento: nestes tempos cru\u00e9is e embotados, a gente n\u00e3o teve o instante de te reconhecer entre o povo. A gente n\u00e3o distinguiu teu rosto na multid\u00e3o. \u00c9ramos irm\u00e3os, e s\u00f3 descobrimos isso agora, quando o sangue verte, e quanto te enterramos. O her\u00f3i e o santo \u00e9 o que derrama seu sangue. Esse \u00e9 o pre\u00e7o que deles cobramos.<\/p>\n<p>Pod\u00edamos ter estendido nossas m\u00e3os e te arrancando do fosso das ariranhas -como voc\u00ea tirou o menino de catorze anos- mas quer\u00edamos que algu\u00e9m fizesse o gesto de solidariedade em nosso lugar.<\/p>\n<p>Sempre \u00e9 assim: o her\u00f3i e o santo \u00e9 o que estende as m\u00e3os.<\/p>\n<p>E este \u00e9 o nosso grande remorso: o de fazer as coisas urgentes e inadi\u00e1veis -tarde demais.<\/p>\n<p>NOTA DO AUTOR<br \/>\n* Se me permitem uma retifica\u00e7\u00e3o: o jornalismo brasileiro est\u00e1 de luto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O blog est\u00e1 de luto.<\/p>\n<p>Morreu Louren\u00e7o Diaf\u00e9ria.<\/p>\n<p>Foi um dos grandes de um g\u00eanero jornal\u00edstico genuinamente brasileiro \u2013 a cr\u00f4nica \u2013 que infelizmente parece estar em extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-11099","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11099","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11099"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11099\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16836,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11099\/revisions\/16836"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11099"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11099"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11099"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}