{"id":11103,"date":"2008-09-21T00:00:00","date_gmt":"2008-09-21T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:47:23","modified_gmt":"2017-09-15T19:47:23","slug":"tony-eterno","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/tony-eterno\/","title":{"rendered":"Tony Eterno"},"content":{"rendered":"<p>Est\u00e1 com um jeit\u00e3o triste o domingo na Praia das Pitangueiras, no Guaruj\u00e1. <\/p>\n<p>Aparentemente, n\u00e3o h\u00e1 nada de anormal. At\u00e9 um solzinho maneiro surgiu l\u00e1 pelas duas da tarde. Mesmo assim, as pessoas caminham cabisbaixas. Falam em tom mais baixo e se comportam com discri\u00e7\u00e3o. Ou eu muito me engano ou at\u00e9 as crian\u00e7as brincam sem a euforia habitual!<\/p>\n<p>Vejo um surfista nativo chorando, sem qualquer constrangimento, ali no cal\u00e7ad\u00e3o \u00e0 beira do mar, em frente ao que aqui chamam de Feirinha. N\u00e3o consigo entender o que o mo\u00e7o diz entre solu\u00e7os em meio a uma roda de pessoas, que se mostram interessadas na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O que d\u00e1 para ouvir \u00e9:<\/p>\n<p>&#8212; Ele fez a coisa certa. Ele fez a coisa certa&#8230;<\/p>\n<p>S\u00f3 ent\u00e3o reparo nos cartazes e faixas que falam em \u201csaudades dos amigos\u201d, \u201cexemplo de solidariedade\u201d, e uma que anuncia \u201cTony Eterno\u201d. <\/p>\n<p>Outro cartaz improvisado, feito \u00e0 m\u00e3o, convida a todos para a missa de s\u00e9timo dia \u201cdo amigo Tony Vilela\u201d que se realiza logo mais ao anoitecer.<\/p>\n<p>Nesse momento, ligo a pessoa ao fato. Tony foi uma das not\u00edcias da semana. O rapaz de 32 anos que morreu na manh\u00e3 de domingo passado ao salvar quatro surfistas-turistas de afogamento. Ondas trai\u00e7oeiras e a correnteza n\u00e3o lhe deram qualquer chance, mesmo sendo ele um experiente surfista, conhecedor dos perigos do mar daquela regi\u00e3o. <\/p>\n<p>Seu corpo ficou desaparecido por dias \u2013 e s\u00f3 foi encontrado na quinta-feira, na praia da Enseada, a quil\u00f4metros de onde desapareceu.<\/p>\n<p>Me sinto desconfort\u00e1vel. Desisto da caminhada. E volto sem entender os des\u00edgnios da vida.<\/p>\n<p>Quer dizer que o rapaz estava por ali, posto em sossego, e se lan\u00e7ou ao mar furioso, com sua prancha, quando percebeu que desconhecidos corriam risco de morte? Ele resgatou os rapazes, mas n\u00e3o conseguiu se desvencilhar das ondas e do triste destino.<\/p>\n<p>&#8212; Ele fez a coisa certa&#8230;, diz o amigo entre l\u00e1grimas e causou alguma apreens\u00e3o no distinto p\u00fablico do cal\u00e7ad\u00e3o &#8212; eu, inclusive.<\/p>\n<p>N\u00e3o estamos habituados a tanta generosidade. Para quanta coisa triste que acontece ao nosso redor &#8211; e pede nossa indigna\u00e7\u00e3o e coragem &#8211; fechamos os olhos na maior. Deixamos que a vida se fa\u00e7a \u00e0 merc\u00ea do &quot;venha a n\u00f3s o vosso reino&quot;. <\/p>\n<p>Subo para a sacada do apartamento, desalentado &#8211; inclusive comigo mesmo e minha covardia diante de tantas tolices que imagino ser a tal coisa mais importante do mundo.  Fixo os olhos num ponto qualquer do mar cinzento e agora nebuloso &#8211; e fa\u00e7o uma ora\u00e7\u00e3o silenciosa.<\/p>\n<p>\u00c0 dist\u00e2ncia, vejo a Pitangueiras de sempre. No que resta do inverno, a movimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00edmida, de carros e pessoas. As ondas, as tais ondas que levaram Tony, hoje parecem tranq\u00fcilas, inofensivas a lamber a ilhota. <\/p>\n<p>A voz do surfista chor\u00e3o e choroso volta aos meus ouvidos, e tocam os meus sentidos de homem da cidade grande. Da tal selva de pedra.<\/p>\n<p>Logo vai chegar a Primavera e as cores se tornar\u00e3o mais intensas, e vivas.<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o teremos um her\u00f3i entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>O her\u00f3i que fez a coisa certa e nos deixou como legado a esperan\u00e7a de dias melhores.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que aprenderemos a li\u00e7\u00e3o?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Est\u00e1 com um jeit\u00e3o triste o domingo na Praia das Pitangueiras, no Guaruj\u00e1. <\/p>\n<p>Aparentemente, n\u00e3o h\u00e1 nada de anormal. 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