{"id":11105,"date":"2008-09-23T00:00:00","date_gmt":"2008-09-23T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:47:23","modified_gmt":"2017-09-15T19:47:23","slug":"cogita-se","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/cogita-se\/","title":{"rendered":"Cogita-se"},"content":{"rendered":"<p>Nos meus \u00e1ureos e bons tempos de rep\u00f3rter, este era um tempo inteiramente dedicado \u00e0 cobertura das elei\u00e7\u00f5es municipais. Para prefeito e vereador.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se o caro leitor sabe \u2013 porque s\u00e3o detalhes que fazem parte do cotidiano dos jornalistas \u2013, mas o pleito tem caracter\u00edsticas pr\u00f3prias. \u00c8 uma luta mais renhida, mais corpo a corpo em que as disputas s\u00e3o mais viscerais.<\/p>\n<p>Para vereador, o inesquec\u00edvel Nasci dizia que \u201ca coisa toda se aproximava mais da briga de vizinhos\u201d. E n\u00e3o era sem raz\u00e3o, n\u00e3o. Houve um ano que s\u00f3 nos dois quil\u00f4metros de extens\u00e3o da rua Bom Pastor, havia seis candidatos, todos a se entenderem e anunciarem como leg\u00edtimos representantes da popula\u00e7\u00e3o do Ipiranga. Dois dele, inclusive, eram parentes \u2013 cunhados e s\u00f3cios em uma empresa de confec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pressenti a disc\u00f3rdia quando li o an\u00fancio da candidatura de um deles quando o outro j\u00e1 se lan\u00e7ara candidato. Estava preparando os textos \u2013 antes havia essa fun\u00e7\u00e3o nas reda\u00e7\u00f5es, ora exercida pelo editor, ora exercida pelo coppy-desk, ora por um revisor que conhecia profundamente a l\u00edngua portuguesa e o manual do jornal. Ao bater os olhos na nota do incauto colunista, arrepiei: vem por a\u00ed, disse pra mim mesmo.<\/p>\n<p>Liguei para o dono da informa\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>&#8212; Cara, \u00e9 verdadeira essa not\u00edcia?<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 de fonte segura, ele me garantiu.<\/p>\n<p>Fiquei ressabiado. Poderia ser uma armadilha.<\/p>\n<p>&#8212; Quem lhe passou a informa\u00e7\u00e3o \u2013 insisti.<\/p>\n<p>&#8212; O pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>&#8212; Ele sabe das conseq\u00fc\u00eancias?<\/p>\n<p>&#8212; A\u00ed, j\u00e1 \u00e9 outro departamento, desconsiderou o colunista.<\/p>\n<p>Intui certo cinismo na voz do meu interlocutor.<\/p>\n<p>N\u00e3o tive d\u00favidas. Liguei para o pretenso candidato e lhe informei da nota que publicar\u00edamos no dia seguinte.<\/p>\n<p>A resposta foi monossil\u00e1bica:<\/p>\n<p>&#8212; Cogita-se&#8230;<\/p>\n<p>Tentei ser prudente:<\/p>\n<p>&#8212; Vamos publicar a nota amanh\u00e3. A n\u00e3o ser que voc\u00ea desminta.<\/p>\n<p>Adivinhe o que ouvi do outro lado da linha?<\/p>\n<p>&#8212; Cogita-se&#8230;<\/p>\n<p>Foi a minha vez de ser ir\u00f4nico, at\u00e9 para ver se lhe ca\u00eda a ficha:<\/p>\n<p>&#8212; Mas, voc\u00ea ter\u00e1 um advers\u00e1rio pol\u00edtico dentro do pr\u00f3prio escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p>A resposta:<\/p>\n<p>&#8212; Cogita-se&#8230;<\/p>\n<p>\u00d2bvio que o jornal saiu com as breves linhas que se iniciavam exatamente assim: \u201cCogita-se a candidatura de Fulano de Tal para vereador&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u00d3bvio que deu confus\u00e3o na fam\u00edlia e na empresa.<\/p>\n<p>\u00d3bvio que os dois desfizeram a sociedade e se declaram inimigos.<\/p>\n<p>\u00d3bvio que foi uma grande bobagem.<\/p>\n<p>At\u00e9 porque a candidatura do Tal n\u00e3o vingou. <\/p>\n<p>N\u00e3o foi al\u00e9m do enganoso \u201ccogita-se\u201d. <\/p>\n<p>Mas, quer saber, deu um perereco danado e o que falar na regi\u00e3o&#8230;<\/p>\n[Texto publicado no livro &quot;Meus Caros Amigos \u2013 Cr\u00f4nicas sobre jornalistas, bo\u00eamios e paix\u00f5es&quot;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos meus \u00e1ureos e bons tempos de rep\u00f3rter, este era um tempo inteiramente dedicado \u00e0 cobertura das elei\u00e7\u00f5es municipais. 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