{"id":11109,"date":"2008-09-27T00:00:00","date_gmt":"2008-09-27T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:47:23","modified_gmt":"2017-09-15T19:47:23","slug":"a-luta-5","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-luta-5\/","title":{"rendered":"A luta (5)"},"content":{"rendered":"<p>Youtube \u00e9 uma coisa, jornalismo \u00e9 outra.<\/p>\n<p>CQC \u00e9 besteirol, jornalismo \u00e9 papo de responsa.<\/p>\n<p>Por isso, ainda e sempre que poss\u00edvel, mais uma colabora\u00e7\u00e3o do nosso blog \u00e0 discuss\u00e3o sobre a legitimidade da forma\u00e7\u00e3o epec\u00edfica para exerc\u00edcio da profiss\u00e3o de jornalistas&#8230;<\/p>\n<p>JORNALISTAS E SUA FORMA\u00c7\u00c3O<\/p>\n<p>por Eug\u00eanio Bucci<\/p>\n<p>Na quarta-feira da semana passada houve um ato p\u00fablico na Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes, em Bras\u00edlia. Est\u00e1 no site do Sindicato dos Jornalistas de S\u00e3o Paulo: &quot;Mais de duzentas pessoas, entre dirigentes sindicais, profissionais, professores e estudantes de jornalismo de todo o Pa\u00eds, participaram hoje (17\/9), em Bras\u00edlia, de um ato p\u00fablico em defesa da forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica em jornalismo e da regulamenta\u00e7\u00e3o profissional da categoria.&quot; Segundo a nota, a inten\u00e7\u00e3o dos manifestantes foi &quot;sensibilizar os ministros (do Supremo Tribunal Federal) que devem julgar, ainda este ano, o recurso extraordin\u00e1rio (RE\/511961), a\u00e7\u00e3o que questiona a constitucionalidade da legisla\u00e7\u00e3o que regulamenta a profiss\u00e3o no Brasil&quot;.<\/p>\n<p>Embora a imprensa fale pouco do tema, \u00e9 grande a expectativa em torno do julgamento. Trata-se de saber se a exig\u00eancia do diploma de jornalista para os que trabalham na imprensa imp\u00f5e ou n\u00e3o uma barreira ao direito de livre express\u00e3o, assegurado na Constitui\u00e7\u00e3o. Por que s\u00f3 diplomados em Jornalismo podem ser empregados em jornais? Quanto a isso, o Pa\u00eds espera a decis\u00e3o do Supremo Tribunal Federal.<\/p>\n<p>Mas o debate n\u00e3o fica s\u00f3 a\u00ed. H\u00e1 outras frentes em que os destinos da profiss\u00e3o de jornalista est\u00e3o em jogo. Citemos duas. No \u00e2mbito do Minist\u00e9rio do Trabalho, um grupo de trabalho pretende redigir um projeto para a regulamenta\u00e7\u00e3o da atividade. A segunda frente est\u00e1 no Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Recentemente, o ministro Fernando Haddad lan\u00e7ou a id\u00e9ia de constituir uma comiss\u00e3o para discutir as diretrizes da forma\u00e7\u00e3o dos cursos de Jornalismo, identificando e delimitando com maior clareza os conhecimentos pr\u00e1ticos e te\u00f3ricos que precisam ser dominados pelos que concluem a gradua\u00e7\u00e3o. A partir da\u00ed, o ministro espera abrir uma nova possibilidade para a forma\u00e7\u00e3o de jornalistas, sem preju\u00edzo dos cursos que j\u00e1 existem: &quot;A comiss\u00e3o far\u00e1 uma an\u00e1lise das perspectivas de graduados em outras \u00e1reas, mediante forma\u00e7\u00e3o complementar, poderem fazer jus ao diploma&quot; (Folha de S.Paulo, 17\/9\/2008).<\/p>\n<p>Desde logo, fica bem claro que essa discuss\u00e3o n\u00e3o se confunde com a outra, sobre exig\u00eancia &#8211; ou n\u00e3o &#8211; de diploma para que algu\u00e9m seja empregado na \u00e1rea, o que \u00e9 assunto para o Minist\u00e9rio do Trabalho. Ela cuida especificamente das diretrizes da forma\u00e7\u00e3o. Sua pauta \u00e9 educacional, n\u00e3o trabalhista. Seu objetivo \u00e9 estudar a possibilidade de que gente como cientistas sociais ou economistas, por exemplo, possa, por meio de um curso mais breve, algo em torno de dois anos, habilitar-se a ter um emprego regular em ve\u00edculos de informa\u00e7\u00e3o. A iniciativa, como se v\u00ea, n\u00e3o amea\u00e7a nem refor\u00e7a a exig\u00eancia do diploma.<\/p>\n<p>Ainda sobre exig\u00eancia do diploma, \u00e9 bom que se saiba que, na pr\u00e1tica, ela ajudou a elevar o padr\u00e3o da profiss\u00e3o no Brasil. Pesa contra ela, no entanto, o fato de ter sido imposta pela ditadura militar (o decreto-lei \u00e9 de 1969) e, agora, surge com for\u00e7a essa alega\u00e7\u00e3o de que ela agride princ\u00edpios constitucionais, d\u00favida que s\u00f3 pode ser dirimida pelo Supremo. De todo modo, n\u00e3o \u00e9 a\u00ed, nessa formalidade abra\u00e7ada por interesses corporativos, que se encontra o \u00e2mago do debate. O que deve falar mais alto, nessa mat\u00e9ria, n\u00e3o \u00e9 a defesa sindical de uma categoria, mas o direito \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, de que todo cidad\u00e3o \u00e9 titular. Essa \u00e9 a pedra de toque. O que se deve buscar n\u00e3o \u00e9 o conforto dos que hoje est\u00e3o empregados, mas o melhor sistema para assegurar qualidade \u00e0 media\u00e7\u00e3o do debate p\u00fablico.<\/p>\n<p>Por isso \u00e9 que se pode afirmar: o ponto dram\u00e1tico repousa sobre a qualidade das faculdades. Onde elas s\u00e3o boas, seus formandos t\u00eam lugar no mercado. Mesmo em pa\u00edses que n\u00e3o disp\u00f5em de nenhuma obrigatoriedade de diploma, como os Estados Unidos, a Alemanha, a Fran\u00e7a e outros, nota-se a prefer\u00eancia dos empregadores por jovens que tenham cursado uma boa escola de Jornalismo. A\u00ed, as faculdades adquiriram autoridade n\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o de uma reserva de mercado, mas pela capacita\u00e7\u00e3o que s\u00e3o capazes de aportar aos estudantes. E no Brasil? O que seria das faculdades se elas n\u00e3o estivessem protegidas pela reserva de mercado? Elas sobreviveriam como est\u00e3o? Ou seriam for\u00e7adas dramaticamente a se aperfei\u00e7oar? Se seriam obrigadas a se aperfei\u00e7oar, por que n\u00e3o cuidar disso desde j\u00e1?<\/p>\n<p>Que ningu\u00e9m se iluda: boas faculdades s\u00e3o fundamentais. Elas n\u00e3o s\u00e3o dispens\u00e1veis, como alguns ainda tentam fazer crer. A presun\u00e7\u00e3o de que o jornalismo \u00e9 um &quot;of\u00edcio que se aprende na pr\u00e1tica&quot; \u00e9 t\u00e3o ing\u00eanua quanto despreparada. Contra isso se levantou, desde o final do s\u00e9culo 19, Joseph Pulitzer. De magnata da m\u00eddia americana, ele se projetou como o principal inspirador do Curso de Jornalismo da Universidade de Col\u00fambia, que s\u00f3 come\u00e7aria a funcionar em 1912, um ano ap\u00f3s a sua morte. Contra o comodismo de seus contempor\u00e2neos, que viam na cria\u00e7\u00e3o da escola uma perda de tempo, Pulitzer afirmava que era necess\u00e1rio transformar aquilo que n\u00e3o passava de um of\u00edcio numa profiss\u00e3o nobre. E acertou. Seu texto em defesa da escola de Col\u00fambia, lan\u00e7ado em 1904, resiste como um pequeno cl\u00e1ssico (The School of Journalism, Seattle: Inkling Books, 2006). Deveria ser lido pelos adeptos da tese de que &quot;jornalismo se aprende na pr\u00e1tica&quot;.<\/p>\n<p>Qualquer um de n\u00f3s, quando vai ao m\u00e9dico, ao advogado ou ao dentista, procura profissionais com bons curr\u00edculos acad\u00eamicos e cient\u00edficos. Mas, quando se trata de servir informa\u00e7\u00e3o ao p\u00fablico, imaginamos que um pr\u00e1tico, sem forma\u00e7\u00e3o, pode dar conta do recado. N\u00e3o pode &#8211; ou n\u00e3o pode mais, a n\u00e3o ser excepcionalmente. A porta para o futuro, tamb\u00e9m nesse caso, est\u00e1 na qualifica\u00e7\u00e3o dos profissionais. Com diploma ou sem diploma, \u00e9 da qualifica\u00e7\u00e3o que depender\u00e1 a consist\u00eancia e a fecundidade do nosso debate p\u00fablico. <\/p>\n<p>* Eug\u00eanio Bucci, jornalista, \u00e9 professor da Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes e pesquisador do Instituto de Estudos Avan\u00e7ados, da USP<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Youtube \u00e9 uma coisa, jornalismo \u00e9 outra.<\/p>\n<p>CQC \u00e9 besteirol, jornalismo \u00e9 papo de responsa.<\/p>\n<p>Por isso, ainda e sempre que poss\u00edvel, mais uma colabora\u00e7\u00e3o do nosso blog \u00e0 discuss\u00e3o sobre a legitimidade da forma\u00e7\u00e3o epec\u00edfica para exerc\u00edcio da profiss\u00e3o de jornalistas&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-11109","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11109","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11109"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11109\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16826,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11109\/revisions\/16826"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11109"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11109"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11109"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}