{"id":11110,"date":"2008-09-28T00:00:00","date_gmt":"2008-09-28T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:47:22","modified_gmt":"2017-09-15T19:47:22","slug":"o-maior-amor-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-maior-amor-do-mundo\/","title":{"rendered":"O maior amor do mundo"},"content":{"rendered":"<p>Eram dois homens a conversar na varanda do apartamento no 15o andar de um pr\u00e9dio em frente ao mar. Chovera a manh\u00e3 toda, agora se dera a estiagem. Nem por isso o tempo abrira e o sol desse o ar da gra\u00e7a de sua cara redonda e bonachona l\u00e1 na linha do horizonte, onde os olhares daqueles dois amigos se encontravam e se perdiam em meio \u00e0 n\u00e9voa e o nada.<\/p>\n<p>Eles foram pr\u00f3ximos nos tempos da universidade e dos primeiros passos na carreira. Depois, a longa e sinuosa estrada da vida deu rumo diferente a cada um deles. Surpresa para ambos reencontrarem-se depois de tantos anos. Estavam ali a convite de outro amigo comum que os convocara para um fim de semana em que comemorariam o 50\u00ba anivers\u00e1rio do anfitri\u00e3o.<\/p>\n<p>Nem um dos dois sabia explicar onde, por que e como se afastaram. Nos primeiros tempos, ainda se falavam. Um telefonava para o outro e o outro para o um. Perguntavam pela fam\u00edlia, pelo novo emprego, pelas perspectivas de a carreira decolar. Brincavam com os resultados dos respectivos times de futebol. Um era corintiano fan\u00e1tico; o outro, um desinteressado s\u00e3o-paulino. Sem motivo ou raz\u00e3o, aos poucos foram perdendo o interesse m\u00fatuo. A conversa rareou at\u00e9 que o t\u00eanue contato entre ambos se desfez.<\/p>\n<p>Ironia nas ironias, com o apartamento lotado de gente conhecida e nem tanto, os dois se viram a s\u00f3s ali naquela varanda. Silenciosos, algo tristes. A observar o vaiv\u00e9m das ondas e, mais ao fundo, a silhueta de um cargueiro a brincar de esconde-esconde com a grossa neblina que se espalhava mar adentro.<\/p>\n<p>Quem os visse, imaginaria serem dois estranhos, sem nada em comum. Como vizinhos que se encontram no elevador e, mal trocam bom-dia, j\u00e1 se p\u00f5em a olhar para o teto ou para o ch\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia o qu\u00ea perguntar. Nem por qu\u00ea. Eram profissionais bem resolvidos, que n\u00e3o chegaram ao topo dos sonhos. Um era casado, tinha duas filhas \u2013 e dava pinta de que nada mais esperava da vida. O outro, ao que corria de boca em boca, se separara, tinha uma vida errante \u2013 e agora andava \u00e0s voltas com problemas de sa\u00fade. Press\u00e3o alta, cora\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o sabia bem ao certo.<\/p>\n<p>Engra\u00e7ado que nenhum dos dois tinha coragem de quebrar o sil\u00eancio. Que, por sua vez, se fazia pesado e insuport\u00e1vel. O casado, ent\u00e3o, tomou a iniciativa para acabar com aquela afli\u00e7\u00e3o. Sem saber bem o que perguntar, tascou a primeira coisa que lhe veio \u00e0 mente:<\/p>\n<p>&#8212; E os amores, como v\u00e3o?<\/p>\n<p>Mal acabou a frase e se arrependeu. J\u00e1 n\u00e3o tinham 20 anos. Certamente n\u00e3o era o in\u00edcio mais adequado. Ainda mais porque sabia que ele chegara s\u00f3 e algu\u00e9m lhe disse de uma paix\u00e3o maluca que terminara recentemente&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Estou s\u00f3, cara. Mas, juro, meu amigo, eu vivi o maior amor do mundo&#8230;<br \/>\n E se p\u00f4s a contar a hist\u00f3ria de um sentimento imprevisto, tresloucado que acabara de viver j\u00e1 na fase, digamos, madura. Falava com tal entusiasmo que, pouco a pouco \u2013 o amigo reparou \u2013 seu olhar recuperava outra vez o brilho do rapaz aventureiro que um dia ambos foram e que, instantes atr\u00e1s, parecia n\u00e3o mais existir.<\/p>\n<p>Do nada, voltaram a ser os velhos e bons camaradas, como se o tempo nunca houvera passado. Se me permitem um palpite, acho que sei o porqu\u00ea. N\u00e3o h\u00e1 nada mais belo para se reinventar a vida do que um jovem sonho de amor. Mesmo que seja sofrido, destrambelhado e um dia acabe.<\/p>\n<p>Desconfio que at\u00e9 o sol se interessou pela hist\u00f3ria. Pois, mesmo timidamente, voltou a brilhar naquela manh\u00e3 em frente ao mar&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eram dois homens a conversar na varanda do apartamento no 15o andar de um pr\u00e9dio em frente ao mar. Chovera a manh\u00e3 toda, agora se dera a estiagem. 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