{"id":11111,"date":"2008-09-29T00:00:00","date_gmt":"2008-09-29T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:47:22","modified_gmt":"2017-09-15T19:47:22","slug":"machado-de-assis","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/machado-de-assis\/","title":{"rendered":"Machado de Assis"},"content":{"rendered":"<p>Sei que n\u00e3o \u00e9 de bom tom. Eu mesmo, quando flagro essas situa\u00e7\u00f5es em jornais e revistas, fa\u00e7o severas cr\u00edticas aos colunistas e que tais que repetem um artigo do passado como se fosse algo novo, com umas mexidas aqui e outra ali.<\/p>\n<p>J\u00e1 \u2018peguei\u2019 alguns medalh\u00f5es que usam esse t\u00edbio recurso \u2013 n\u00e3o vou declinar nomes aqui porque n\u00e3o \u00e9 do meu feitio.<\/p>\n<p>\u00c9 bem verdade que h\u00e1 uns mais talentosos que outros. Fazem uma introdu\u00e7\u00e3o explicando os motivos do repeteco e coisa e tal. Outros v\u00e3o na cara de pau mesmo. Trocam o t\u00edtulo, d\u00e3o uma atualizada no abre, outra mais adiante \u2013 e mandam ver.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda os esquecidos e\/ou distra\u00eddos que contam a mesma hist\u00f3ria v\u00e1rias vezes.<\/p>\n<p>Ao longo de mais de 600 posts e quase 20 anos de coluna que assinei semanalmente na imprensa escrita, n\u00e3o resisti \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m j\u00e1 ca\u00ed nessa esparrela. Os motivos s\u00e3o v\u00e1rios. Desde uma natural pregui\u00e7a que me acompanha desde sempre \u00e0 falta de tempo e organiza\u00e7\u00e3o que, por vezes, me deixa sentado \u00e0 beira do caminho, como diriam Roberto e Erasmo.<\/p>\n<p>R\u00e9u confesso, vou piorar as coisas ao lhes confessar a minha imod\u00e9stia. \u00c9 que, em determinadas ocasi\u00f5es, gosto tanto de uma hist\u00f3ria que resolvo lhe dar mais uma chance&#8230; <\/p>\n<p>\u00c9 o caso de hoje com o post\/cr\u00f4nica \u201cSomos Todos Rubi\u00e3o\u201d que publiquei aqui em setembro do ano passado e aproveito para replic\u00e1-la a seguir \u2013 e na home do nosso site \u2013 com este sincero esclarecimento&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 minha modesta homenagem ao centen\u00e1rio de morte do escritor Machado de Assis que hoje se reverencia&#8230;<\/p>\n<p>SOMOS TODOS RUBI\u00c3O<\/p>\n<p>Meu grau de dispers\u00e3o bate recordes inimagin\u00e1veis \u00e0s segundas. Depois de um fim-de-semana, ent\u00e3o, me sinto um trapo. <\/p>\n<p>N\u00e3o me recomendaria a qualquer tarefa.  <\/p>\n<p>Se por acaso, fosse me dado o of\u00edcio de tomar conta de duas tartarugas, estou certo que uma delas escaparia. N\u00e3o seria surpresa que as duas me dessem um desconsertante vaiv\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>Colaboram para tanto e tamanho, este belo dia de sol, a rec\u00e9m-chegada primavera, a id\u00e9ia ainda que long\u00ednqua de uma viagem no fim de ano. <\/p>\n<p>Ser\u00e1 que exagero?<\/p>\n<p>\u00c9 certo, por\u00e9m, que nesta segunda tenho companhia singular \u2013 e adequadas, penso, \u00e0s cerim\u00f4nias que reverenciam o centen\u00e1rio da morte do escritor Machado de Assis. S\u00e3o as personagens do romance Quincas Borba, que li vorazmente entre s\u00e1bado e domingo. Escrito em 1891, impressionou-me a atualidade de todas elas. Inclusive do fil\u00f3sofo, que d\u00e1 nome ao livro e morre logo nos primeiros cap\u00edtulos. Antes, por\u00e9m, consagra duas imorredouras verdades, ditas ao amigo e herdeiro Rubi\u00e3o, o verdadeiro protagonista da trama.<\/p>\n<p>\u201cFilosofia \u00e9 uma coisa. Morrer de verdade \u00e9 outra\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAo vencedor, as batatas\u201d.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Como lhes explicar?<\/p>\n<p>Sei que Rubi\u00e3o, Sofia, Palha, Carlos Maria, Dona Fernanda, Maria Benedita, o major, Camacho e o c\u00e3o a quem o dono lhe deu o pr\u00f3prio nome antes de ir-se desta para melhor, Quincas Borba \u2013 pois todos eles est\u00e3o a instar-me uma melhor compreens\u00e3o de seus atos e do que o destino lhes reservou.<\/p>\n<p>Pergunto-me, com alguma apreens\u00e3o, se essas inquieta\u00e7\u00f5es s\u00e3o deles ou est\u00e3o em mim e urgem respostas?<\/p>\n<p>V\u00e1 saber&#8230;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>\u00c9 a terceira vez que repasso a obra. A primeiro que a coloco num patamar de igualdade a Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas \u2013 onde, ali\u00e1s, surge o andarilho Quincas Borba \u2013 e Dom Casmurro, um de meus romances preferidos.<\/p>\n<p>Aos 15\/16 anos, apanhei o livro, de capa dura e verde, na estante da Biblioteca Municipal do Ipiranga. Da narrativa, ficou-me, por motivos \u00f3bvios, o perigoso jogo de sedu\u00e7\u00e3o da bela Sofia a endoidecer os convivas das noites dan\u00e7antes, o desarvorado Rubi\u00e3o e a mim pr\u00f3prio que, como meus leitores bem sabem, tenho uma inequ\u00edvoca tend\u00eancia a ficar imaginando coisas. <\/p>\n<p>Naquela idade, ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Ombros nus, decotes ousados, \u201cera a mais esbelta das mulheres da Corte\u201d.<\/p>\n<p>Todas as mulheres tomaram formas e trejeitos de Sofia a esgrimir o sim e o n\u00e3o e a divertir-se diante de cora\u00e7\u00f5es dilacerados pela d\u00favida.<\/p>\n<p>Registro hist\u00f3rico: achei a personagem parecid\u00edssima com uma certa Ligia que n\u00e3o me sa\u00eda da cabe\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Mas, saltemos essa fase de amores primeiros.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelos 30, quando descobri Fernando Sabino \u2013 outro autor decisivo na minha forma\u00e7\u00e3o \u2013, dei de tornar a ler Machado. Naquela ocasi\u00e3o, n\u00e3o me importou tanto a beleza de Sofia, nem os infort\u00fanios de Rubi\u00e3o. Mas, sim, o proceder velhaco e oportunista de Palha, o venturoso marido de Sofia. Ele negociava com os encantos da mulher. Fartava-se em exibi-la em p\u00fablico, permitia que aventureiros a cortejassem e, muitas vezes, chegassem a situa\u00e7\u00f5es limites. Tudo para abrir espa\u00e7os entre os nobres e os ricos. <\/p>\n<p>Usou do fasc\u00ednio que a mo\u00e7a inspirava em Rubi\u00e3o para tomar-lhe empr\u00e9stimos que, ao que consta no livro, nunca quitou, e outras benesses financeiras.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos no Brasil dos estertores da ditadura, a quest\u00e3o \u00e9tica era soberana. Creio que me deixei levar pelo tom \u00e9pico do momento.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>A leitura do fim-de-semana foi \u00f3tima. Sofia continua lind\u00edssima, uma princesa \u2013 e perigosa. Palha confirmou-se como um velhaco aproveitador e Rubi\u00e3o, um desafortunado. O livro prova isto por a + b. No entanto, nunca antes me veio a id\u00e9ia de como os homens se parecem com Rubi\u00e3o \u2013 para tanto, basta apaixonarem-se. Se v\u00eaem, ent\u00e3o, comio ref\u00e9ns de um sonho por vezes t\u00e3o pr\u00f3ximo de se realizar. Uma realidade quase sempre inveross\u00edmil aos olhos da amada que, \u00e0 moda de Sofia, conduz com maestria o jogo dos amores e da vida. <\/p>\n<p>N\u00e3o sei quem ganha e quem perde, quem ri e quem chora. Na fic\u00e7\u00e3o e na vida real. N\u00e3o me apraz entrar em ju\u00edzos de valor. Tamb\u00e9m n\u00e3o vou al\u00e9m, pois temo lhes estragar o prazer dessa leitura, caso queiram retomar a not\u00e1vel obra de Machado de Assis. Em todo caso, encerro \u00e0 moda do fil\u00f3sofo que morre antes, mas perpassa por todo o livro a \u00fanica verdade inexor\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u201cAo vencedor, as batatas.\u201d<\/p>\n<p>Al\u00e9m do que, mesmo numa modorrenta segunda-feira, n\u00e3o \u00e9 demais ficar atento:<\/p>\n<p>\u201cFilosofia \u00e9 uma coisa. Morrer de verdade \u00e9 outra\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sei que n\u00e3o \u00e9 de bom tom. Eu mesmo, quando flagro essas situa\u00e7\u00f5es em jornais e revistas, fa\u00e7o severas cr\u00edticas aos colunistas e que tais que repetem um artigo do passado como se fosse algo novo,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-11111","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11111","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11111"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11111\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16824,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11111\/revisions\/16824"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11111"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11111"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11111"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}