{"id":11138,"date":"2008-10-26T00:00:00","date_gmt":"2008-10-26T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:47:18","modified_gmt":"2017-09-15T19:47:18","slug":"justificar-o-injusticavel","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/justificar-o-injusticavel\/","title":{"rendered":"Justificar o injustic\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<p>Votei pela primeira vez para presidente da Rep\u00fablica em 1989. Foi um momento hist\u00f3rico para toda sociedade brasileira. Est\u00e1vamos h\u00e1 quase 30 anos sem eleger nosso principal mandat\u00e1rio em fun\u00e7\u00e3o da ditadura militar, de triste mem\u00f3ria, que aqui se instalou de 1964 a 1985. Por tudo o que vivemos at\u00e9 chegar ali, \u00e0quele momento, a campanha foi muito acirrada, com candidatos de passado relevante \u2013 Ulysses Guimar\u00e3es, Leonel Brizola, Lula, M\u00e1rio Covas, Roberto Freire, Fernando Gabeira, entre outros. A exce\u00e7\u00e3o era justamente Fernando Collor que foi o vencedor e, no dizer do jornalista Mino Carta, \u201co fio desencapado\u201d a quem se agarraram todos os pol\u00edticos que deram sustenta\u00e7\u00e3o ao antigo regime militar. ACM, Maluf, entre outros menos cotados.<\/p>\n<p>No primeiro turno, votei com convic\u00e7\u00e3o em M\u00e1rio Covas que, apurados os votos, acabou em quarto lugar atr\u00e1s de Collor, Lula e Brizola. Na elei\u00e7\u00e3o do segundo turno, fiquei sem candidato. Assustavam-me a origem nebulosa de Collor, o apoio que recebera de figuras anteriormente afinadas com a ditadura, o jeito histri\u00f4nico de expressar-se. Por outro lado, achava que a elei\u00e7\u00e3o de Lula seria um tanto precipitada e, principalmente, os petistas \u00e0quela altura do campeonato eram muito chatos. Arvoravam-se a senhores absolutos da verdade e da \u00e9tica. Quem n\u00e3o estava com eles era amigo do Maluf, era assim que eles pensavam. Para qualquer um, que se julgava minimamente progressista e democr\u00e1tico, n\u00e3o podia haver classifica\u00e7\u00e3o pior.<\/p>\n<p>Resumo da \u00f3pera: resolvi anular o voto. Era minha op\u00e7\u00e3o \u2013 e assim o fiz. Me achei o l\u00facido, o alternativo&#8230;<\/p>\n<p>Que bobagem.<\/p>\n<p>No dia seguinte, na Reda\u00e7\u00e3o, o amigo Fernando Saliba me perguntou em quem eu havia votado. Diante da minha resposta, foi taxativo:<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o voc\u00ea ajudou a eleger o Collor.<\/p>\n<p>Fiz um discurso de hora e tanto tentando justificar o injustific\u00e1vel. \u201cCollorir\u201d, \u00e0 \u00e9poca, n\u00e3o era considerado verbo; era xingamento. Hoje, quase 20 anos depois, reconhe\u00e7o que o Salibeiro tinha raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Por que hoje lhes conto essa hist\u00f3ria?<\/p>\n<p>Simples. Quando cheguei \u00e0 minha zona eleitoral j\u00e1 no meio da tarde, ouvi a conversa de alguns mes\u00e1rios. Diziam que \u201cnada havia para se fazer ali\u201d e que o movimento era baix\u00edssimo. <\/p>\n<p>&#8212; Acho muita gente preferiu justificar e aproveitar o domingo de sol, disse um deles.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que o pessoal pode ter ido votar na ultima hora \u2013 \u00e9 coisa nossa! No entanto, lembrei-me tamb\u00e9m que, ao longo da semana, li e ouvi de gente s\u00e9ria, consciente e esclarecida que n\u00e3o iria votar. As desculpas variavam. Iam do \u201cs\u00e3o farinha do mesmo saco\u201d para classificar os finalistas \u00e0 obrigatoriedade do voto \u2013 \u201cuma anomalia desta legisla\u00e7\u00e3o eleitoral\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se mudaria ou n\u00e3o o resultado das elei\u00e7\u00f5es* se votassem em algum candidato aqueles preferiram anular ou votar em branco ou ainda justificar \u201cs\u00f3 para tirar onda\u201d. Sei que quem desperdi\u00e7a o voto acaba por desmerecer a luta que nos fez chegar at\u00e9 aqui. Pela democracia e por uma na\u00e7\u00e3o mais justa e solid\u00e1ria.<\/p>\n<p>* (Talvez no Rio de Janeiro, sim. Quase deu para o Gabeira)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Votei pela primeira vez para presidente da Rep\u00fablica em 1989. Foi um momento hist\u00f3rico para toda sociedade brasileira. 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