{"id":11176,"date":"2008-11-28T00:00:00","date_gmt":"2008-11-28T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:45:50","modified_gmt":"2017-09-15T19:45:50","slug":"a-enchente","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-enchente\/","title":{"rendered":"A enchente"},"content":{"rendered":"<p>A \u00e1gua se infiltrava pelos v\u00e3os das t\u00e1buas do assoalho e pelos ralos do ch\u00e3o da cozinha e do banheiro. Aos poucos, a casa toda come\u00e7ava a ser inundada pelo l\u00edquido pegajoso, de cor barrenta. A m\u00e3e n\u00e3o sabia o que fazer. Procurou as crian\u00e7as. O filho ca\u00e7ula que estava \u00e0 janela vendo a rua transformar-se num grande rio, ela colocou sobre a mesa de costura e, j\u00e1 com l\u00e1grimas nos olhos, mandou que n\u00e3o sa\u00edsse dali. A menina do meio, segurando uma boneca maior que ela, correu e usou uma cadeira para imitar o irm\u00e3o encima do tampo. Faltava Doroti, a maiorzinha, que estava no port\u00e3o quando a chuva come\u00e7ou a cair. S\u00f3 agora ela se dera conta de n\u00e3o saber onde andava a menina. <\/p>\n<p>J\u00e1 com as \u00e1guas pelas canelas, procurou pelos c\u00f4modos do velho casar\u00e3o. Passou pelos dois quartos, pelo que chamavam de hall, pela sala, pela cozinha. Olhou no quartinho dos fundos, no banheiro. Correu para o quintal. <\/p>\n<p>S\u00f3 a\u00ed entendeu o que acabara de acontecer.<\/p>\n<p>O estrondo que ouvira minutos atr\u00e1s foi provocado pelo transbordamento no inofensivo c\u00f3rrego que passava atr\u00e1s da casa. A for\u00e7a das \u00e1guas derrubara o muro e, agora, a mulher via \u00e0 sua frente que a enchente chegava at\u00e9 quase o topo da escada de 16 degraus. As \u00e1guas tomavam toda a extens\u00e3o do quintal e invadiam o por\u00e3o.  N\u00e3o paravam de subir.<\/p>\n<p>A cadela Branquinha j\u00e1 n\u00e3o fazia jus ao nome. Nadava enlameada em dire\u00e7\u00e3o ao que restou da murada. Latia, esgani\u00e7ava como se quisesse alertar sobre algo. Dif\u00edcil de precisar o qu\u00ea nessas horas.<\/p>\n<p>Um pensamento horr\u00edvel lhe passou pela cabe\u00e7a. <\/p>\n<p>A correnteza. A correnteza levara a menina&#8230;<\/p>\n<p>Sentiu um aperto no peito, uma vertigem.<\/p>\n<p>E agora?<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Quando voltou a si, a mulher estava na casa da m\u00e3e, na parte alta da rua \u2013 livre da inunda\u00e7\u00e3o. O marido ao lado lhe segurava uma das m\u00e3os enquanto o m\u00e9dico lhe tomava o pulso da outra. Continuava l\u00edvida, e n\u00e3o conseguia articular uma palavra sequer. Teve vontade de voltar a desmaiar, perder a consci\u00eancia, dormir. Tudo para n\u00e3o saber o pior.<\/p>\n<p>Os olhos procuraram o teto, uma forma de fugir. Pensou em fech\u00e1-los. Mas, logo reconheceu a voz mais do que amada.<\/p>\n<p>&#8212; M\u00e3e, m\u00e3e&#8230; Estou aqui, estou aqui.<\/p>\n<p>Como um aut\u00f4mato, levantou-se abruptamente para ver a menina nos bra\u00e7os da vizinha. Sorridente, as tran\u00e7as desfeitas, o ar de sapeca.<\/p>\n<p>A alegria e o salto foram tamanhos que, outra vez, sentiu o aperto no peito, a vertigem&#8230;<\/p>\n<p>Desmaiou.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Desta feita, ficou sem sentidos por apenas alguns instantes. Logo voltou a si e soube, pelo marido, de toda hist\u00f3ria. Ele chegara a tempo de lhe socorrer antes que tombasse nas \u00e1guas. Fora direto para a casa da sogra no barco dos bombeiros e nos bra\u00e7os do seu her\u00f3i. A cadela Branquinha era assustada por instinto e ra\u00e7a. E a menina, na hora da chuva, assustou-se e correu para a casa da vizinha que ainda n\u00e3o havia sido tomada pelas \u00e1guas.<\/p>\n<p>&#8212; E a nossa casa? \u2013 perguntou aflita. <\/p>\n<p>&#8212; Est\u00e1 que \u00e9 uma lama s\u00f3. Amanh\u00e3 a gente v\u00ea o que sobrou. Por enquanto, descansa que eu cuido das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Ficamos por algumas semanas na casa do v\u00f4 Carlito e da v\u00f3 Ign\u00eas. O pai e a m\u00e3e, mais alguns amigos e o tio Neno, iam todos os dias na nossa casa \u201cpara limpar e tirar o cheiro de barro\u201d. A m\u00e3e voltava desolada. S\u00f3 se acalmava quando o pai lhe pedia paci\u00eancia. O dono da f\u00e1brica onde trabalhava iria trocar os m\u00f3veis e prometera lhe dar os antigos. Para minhas irm\u00e3s, tanto fazia viver em uma casa ou em outra. Estavam mais perto da escola e sempre inventavam uma brincadeira boba; boneca, casinha, costureira, essas coisas de meninas.<\/p>\n<p>Eu era o \u00fanico que estava ansioso por voltar. <\/p>\n<p>Tinha um bom motivo: rever Cidinha, a menina que morava ao lado. Tinha a minha idade, 5 para 6 anos; cabelos claros e, querem saber?, me chamava de \u201cnamorado\u201d&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00e1gua se infiltrava pelos v\u00e3os das t\u00e1buas do assoalho e pelos ralos do ch\u00e3o da cozinha e do banheiro. 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