{"id":11197,"date":"2008-12-14T00:00:00","date_gmt":"2008-12-14T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:45:48","modified_gmt":"2017-09-15T19:45:48","slug":"o-jornalista-e-o-sonhador","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-jornalista-e-o-sonhador\/","title":{"rendered":"O jornalista e o sonhador"},"content":{"rendered":"<p>Quando aportei na reda\u00e7\u00e3o de piso assoalhado em 74, o AI-5 j\u00e1 fizera estrago de mont\u00e3o em diversas \u00e1reas importantes de vida brasileira. A universidade e o jornalismo eram duas das frentes mais afetadas. Eu estudava na USP e ali j\u00e1 sentira que a barra andava pesada, e que n\u00e3o havia escr\u00fapulos nem limites para os caras. Mas, foi no pequeno jornal de bairro que pude conviver com duas figura\u00e7as que sofreram as conseq\u00fc\u00eancias mais diretas do tac\u00e3o do arb\u00edtrio. Marc\u00e3o e Z\u00e9 Jofre andavam pela Gazeta do Ipiranga, mas estrategicamente distante da reda\u00e7\u00e3o. Os dois j\u00e1 haviam andado por diversos jornais paulistanos, onde n\u00e3o tinham mais espa\u00e7o. Eram cartas marcadas. Foram militantes do Partid\u00e3o e agora tocavam sua vida por ali, sem chamar muita aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Marc\u00e3o era uma esp\u00e9cie de consultor da gente. Todas as broncas que surgiam lev\u00e1vamos para ele. Que n\u00e3o s\u00f3 resolvia as paradas como nos ensinava o caminho das pedras. Tinha uma longa estrada como jornalista e bo\u00eamio. Fazia textos bel\u00edssimos. Juntava os assuntos da semana numa cr\u00f4nica bem-humorada e demolidora. N\u00f3s l\u00edamos e depois devolv\u00edamos os originais para que ele os destru\u00edsse.<\/p>\n<p>Antes que reclam\u00e1ssemos, ele, malandro que era, j\u00e1 avisava:<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o \u00e9 esse o caminho, meus caros. Os milicos est\u00e3o de olho na gente. Vacilou e eles fecham o jornal. E a\u00ed?<\/p>\n<p>Para o Marc\u00e3o, o caminho era reorganizar a sociedade que, \u00e0quela \u00e9poca, estava esfacelada e come\u00e7ava a despertar da euforia do \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d. Neste sentido, ele considerava que a imprensa regional exercia um papel preponderante. Seria um dos instrumentos de uni\u00e3o das pessoas, especialmente as que moravam na periferia de S\u00e3o Paulo. Esses novos bairros \u2013 chamados de vilas e jardins \u2013 cresciam vertiginosamente, se urbanizavam e ganhavam vida pr\u00f3pria. Logo surgiriam as entidades representativas, os clubes de servi\u00e7o, as associa\u00e7\u00f5es de moradores, os movimentos populares da Igreja, entre outras manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Se os jornais de bairro soubessem representar essa gente, estariam cumprindo sua fun\u00e7\u00e3o social. Marc\u00e3o dizia que era fundamental que o jornal e a regi\u00e3o se desenvolvessem juntos e juntos amadurecessem o projeto da redemocratiza\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds. <\/p>\n<p>Foi exatamente o que aconteceu em pelo menos cinco ou seis grandes regi\u00f5es de S\u00e3o Paulo que tinham jornais de bairro fortes: Ipiranga, Santo Amaro, Pinheiros, Zona Norte, Vila Prudente e Lapa. <\/p>\n<p>Z\u00e9 Jofre era gr\u00e1fico, de origem. E mais esquentado por natureza. Cearense arretado, gostava de repetir o bord\u00e3o \u201cpatr\u00e3o bom nasce morto\u201d. Escrevia longos artigos num caderno espiral que depois colocava em discuss\u00e3o com a gente. Desconfio que se divertia com a nossa tola arrog\u00e2ncia e ingenuidade.<\/p>\n<p>Cuidava da distribui\u00e7\u00e3o do jornal, com esmero e disciplina.<\/p>\n<p>&#8212; Se o jornal n\u00e3o chegar nas m\u00e3os dos leitores, como vamos fazer a revolu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Marc\u00e3o era mais jornalista; Z\u00e9 Jofre, o sonhador. <\/p>\n<p>* (Aos dois dediquei um artigo que est\u00e1 no site, no \u00edcone Reportagem. Chama-se &quot;Marc\u00e3o e Z\u00e9 Jofre&quot;)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando aportei na reda\u00e7\u00e3o de piso assoalhado em 74, o AI-5 j\u00e1 fizera estrago de mont\u00e3o em diversas \u00e1reas importantes de vida brasileira. 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